Somos Todos Canalhas

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 65 de 89

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Intervenção 5 Júlio

Intervenção 5

Júlio

 

Pois é. A natureza humana para Mill é caracterizada por sensações de dor e prazer e a consciência moral organizada pela equação fuga da dor e busca do prazer. O argumento de perguntar às pessoas é interessante. Elas certamente apontariam como desejáveis coisas facilmente relacionáveis à redução de suas dores e aumento de seus prazeres. Mas é importante não confundir esse apelo à opinião pública, método sugerido para que se constate que somos movidos pela felicidade, com a ideia de que a opinião generalizada é que define a felicidade. São coisas diferentes. Pergunte a muitos por que fazem o que fazem e as respostas certamente poderão ser facilmente associadas a meios para diminuir dores e aumentar prazeres, mas isso está longe de significar que o que diminui a dor de José diminuiria também a dor de Joaquim. Buscamos prazeres e fuga da dor, mas o que nos dá prazer e alívio de nossas dores nem sempre coincide. Pense no caso dos sádicos e masoquistas, por exemplo.

Mas isso também não quer dizer que não possa existir uma componente social de determinação da felicidade. Quem nunca se perguntou se aquilo que busca com afinco, que diz que gosta, realmente se trata de algo de que gosta, genuinamente, ou se diz que gosta só porque todos dizem que é algo bom? É o caso quando conquistamos coisas que muitos desejam – os outros nos invejam e parabenizam, mas será que gostamos da coisa conquistada ou dos cumprimentos recebidos? Em resumo, até que ponto a nossa felicidade é mera organização íntima e singular dos nossos afetos e até que ponto essa organização é influenciada pelos outros?