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Intervenção 14 Clóvis
Intervenção 14
Clóvis
A radicalidade do pensamento de Kant, como apontou o Júlio, permite exemplos ainda mais contundentes. Imagine que você tenha uma chácara onde exista um lago. Seus filhos são pequenos, e um deles, brincando, cai no lago sem saber nadar. Vendo a criança se afogar, você imediatamente se atira na água para salvá-lo. Agiu bem? Parece óbvio, não? Quem poderia defender o contrário? Pois bem. Segundo o mais importante filósofo moral da história do pensamento, não dá pra cravar seco na coluna do valor positivo para a conduta do pai que se atira no lago para salvar o filho. E por quê?
Ora, porque o valor de qualquer ação não está no gesto de se atirar de roupa e tudo. Nem no resultado de tirar o filho da água com vida. E sim no porquê do ato heroico. Terá este pai agido por amor? Provavelmente sim. Então. Viu só. Para Kant o valor moral positivo de uma conduta tem a ver com o porquê da conduta. O amor não vale. Porque se esse pai tiver agido só por amor, na hora que este último acabar ele agirá diferentemente.
Para merecer valor positivo, o pai teria que ter se atirado no lago por dever. Para alinhar sua conduta ao que é certo segundo a razão. Resultado de uma operação de pensamento, de um uso adequado da razão prática, que independe de ele amar o filho ou não.
A proposta kantiana parte de uma premissa que é a possibilidade de estabelecer uma fronteira, um descolamento entre o que você sente e o que você pensa, entre os afetos e as avaliações racionais. Essa fronteira é de tal ordem que se presume a possibilidade de se ter consciência do tipo de causa das nossas condutas. Assim, agiríamos no mundo e teríamos consciência de que tal ação foi motivada pelo temor, pela esperança, pela alegria etc. Em contrapartida, teríamos a consciência de que outras condutas, a despeito dos nossos afetos, foram conduzidas pela razão.
Segundo Kant, a certeza de que a ação teve como causa a razão, e não os afetos, é cristalina quando deliberamos pela razão uma conduta que contraria nossos apetites imediatos. A título de exemplo, vemo-nos poderosamente inclinados a uma abordagem física, a um dedilhar mamário em alguém que nos apeteça, mas não o fazemos. Claro, esse exemplo não vem de Kant. Sua biografia não autoriza. É meu mesmo. Neste caso, teríamos a certeza de que, dado um afeto que nos leva a agir num sentido e dada uma conduta em sentido contrário, houve uma deliberação racional soberana que nos levou a agir no sentido oposto àquele sugerido pela inclinação afetiva.
Ora, sempre haverá críticos desse tipo de premissa teórica. Estes garantem que a conduta é sempre regida pelos afetos, não havendo nunca nenhuma soberania deliberativa face aos mesmos. Portanto, se algum apetite é contrariado na deliberação prática é porque outro afeto em sentido contrário, superior ao primeiro, assim se impôs. Os críticos de Kant garantem que toda intervenção racional, toda articulação intelectiva sobre a conduta nada mais é do que uma tentativa de justificar uma equação afetiva complexa que sempre se impõe no seu vetor mais determinante. No caso do dedilhar mamário abortado, o tesão teria sido vencido pelo medo que é a antecipação das consequências nefastas que essa conduta poderia acarretar.