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Intervenção 10 Clóvis
Intervenção 10
Clóvis
Como o amigo bem sabe, a física de Aristóteles é referência importante para entendermos a forma grega de atribuir valor às coisas. Quando ele afirma que a natureza é o princípio do movimento, tenta conciliar a ordem harmoniosa do cosmos e todos os movimentos observados empiricamente no mundo. Aristóteles acreditava que o movimento dos corpos está diretamente ligado à sua própria natureza. Essa natureza seria o princípio de qualquer deslocamento no espaço, porque os corpos tenderiam, como que motivados por vontade própria, a encontrar o seu devido lugar, o seu lugar natural, e assim ajustar-se de forma mais adequada à máquina universal. É como se os corpos perseguissem através do seu deslocamento um alvo, uma finalidade: encontrar o seu justo lugar.
Assim, uma pedra que cai em direção ao solo, segundo a física aristotélica, seria como que animada por si mesma a seguir tal trajetória, sendo o solo o lugar natural dos corpos pesados. Hoje sabemos que quando uma pedra cai não é por estar motivada por sua própria natureza. Não é por ter no solo o seu lugar natural. Acreditamos que a queda da pedra tem como causa uma força que lhe é exterior: a força de atração gravitacional. Mas deixemos de lado o que acreditamos saber hoje. Continuemos com Aristóteles.
A fumaça que se desloca em direção ao céu também estaria buscando seu lugar natural. Uma espécie de garagem ou depósito onde ficam todos os corpos leves. Perceba o esforço de Aristóteles de conciliar uma certeza ligada à ordem universal com os dados empíricos do movimento que ele e todos os demais flagravam no mundo.
É interessante observar que a natureza de cada corpo indicaria a finalidade desse corpo em sua existência no cosmos. Portanto, a observância das características da própria natureza seria condição de uma inserção harmoniosa, de uma existência em harmonia com os demais corpos. Assim a natureza de cada corpo determinaria neste corpo o seu movimento, a direção do seu deslocamento.
Esta proposta de explicação do movimento dos corpos parece estranha para nós. Afinal, o princípio da inércia anunciado por Descartes e consagrado por Newton assegura que um corpo permanece em movimento desde que não haja nenhuma força contrária que lhe seja exterior e que determine desaceleração ou interrupção desse movimento. Assim cairia por terra a tese de que os corpos estão procurando, por conta própria, movidos pela sua própria natureza, o seu cósmico lugar.
Porque, se esse fosse o caso, ao chegar a esse lugar, deveriam ficar satisfeitos. Sossegariam o facho. Como alguém que finalmente chega em casa depois de uma estafante jornada. Mas o que acontece é que, não havendo força exterior – que nada tem a ver com a própria natureza – para decretar seu repouso, permanecem indefinidamente em movimento. Constatação incômoda para os defensores da tese grega do lugar natural.
Penso que esse jeito grego de interpretar o movimento dos corpos se aproxima bastante das reflexões ingênuas de uma criança quando contempla os deslocamentos na natureza. Sua compreensão todavia é fundamental para concebermos toda proposta ética e política que tem o cosmos como referência.