Somos Todos Canalhas

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 82 de 89

Páginas do PDF

Somos Todos Canalhas

Intervenção 2 Clóvis

Intervenção 2

Clóvis

 

O professor Júlio toca num ponto central que de resto nos afasta. Instaura-se entre nós como divergência. Ponto de cizânia. Afinal, em que consiste ser fiel? Partamos de um exemplo absolutamente corriqueiro. E dele retiremos algumas inferências. Alguém num momento de sua trajetória, apaixonado nos quatro pneus, como se diz, com todas as células em sinfônica, aplaudindo algum tipo de enlace como o matrimonial, declara ao pé do altar, ante o olhar enternecido de todos, que será fiel. Fidelidade esta que implica certo número de comportamentos vindouros, entre eles, certa exclusividade sexual. Por que não dizer uma absoluta exclusividade sexual?

O casal vai à lua de mel, as células continuam em sinfônica, tocam Mahler, Beethoven, Schubert e os dias se seguem. Como é sabido, com o passar dos dias, algumas células morrem, outras se reproduzem. A citologia ajuda a explicar. Alguns neurônios falecem etc. O corpo se transforma, em suma. Junto com ele, transforma-se o mundo que circunda o casal. E aquela orquestra sinfônica afinada e preparada para tocar apenas diante do ser amado começa a desafinar.

Começam a soar acordes por outras unidades de real, por outros corpos, outras situações. O cônjuge aqui e acolá começa a sentir enfado, tédio e tristeza. Os dias se seguem. Já vão longe os momentos de sinfônica afinada. Acordes paralelos cada vez mais se fazem escutar. Cada vez mais cada instrumento atira para um lado e o maestro parece perder o controle.

É nesse momento, professor Júlio, que aparece Gertrudes, aluna de topografia heterodoxa. Se para os norte-americanos glândulas mamárias são tudo, para os sul-americanos os glúteos são o que importam. Pois Gertrudes contentava todos os hemisférios. Universalmente aplaudida. Símbolo da globalização. E quando Gertrudes aparece na vida daquele cônjuge, o casamento já dá sinais de usura. É nesse momento que as células daquele cônjuge começam a se organizar em bateria de escola de samba pela moça fartamente apetrechada.

Pois muito bem. Insistimos aqui que fidelidade só é valor moral quando é respeito às declarações feitas outrora e alhures. Ao sopé do altar, por exemplo. E só interessa como valor moral exatamente quando contradiz as inclinações afetivas do presente. Porque dizer “sou fiel ao instante” é aproximar a fidelidade à mais estrita animalidade. Desvalida e indiferente. Se fidelidade é ir atrás das excitações do instante, pois então leopardos, gazelas e samambaias são todos fiéis, regidos pela fidelidade, quando na verdade são regidos pela natureza, pelo instinto, por sua animalidade ou vegetalidade. Não, se fidelidade é valor moral é porque exatamente transcende a natureza, vai além das células. Pressupõe a nossa autonomia e soberania diante de certa inclinação afetiva do momento. É uma atitude de respeito às declarações do passado, sempre em nome da identidade.

Não há na verdade conflito entre a fidelidade ao que foi dito antes e a fidelidade que se sente hoje, porque ser fiel é aplaudir o que foi dito antes na contramão do que se sente hoje. E penso que a fidelidade só é tema importante e só é valor relevante quando justamente as inclinações afetivas do presente desmentem os discursos do passado. Porque quando tudo continua como sempre foi, e a orquestra sinfônica segue tocando pelo mesmo cônjuge, não há que falar em fidelidade. O que há é amor. Amor que permanece. Amor que continua. A fidelidade é uma espécie de sucedâneo do amor. Já que o amor não existe mais, faça como se amasse. Seja fiel.