Somos Todos Canalhas

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 12 de 89

Páginas do PDF

Somos Todos Canalhas

Intervenção 6 Clóvis

Intervenção 6

Clóvis

 

O amigo há de partilhar da mesma curiosidade. De onde Platão tirou a ideia de que existem certas almas melhores do que outras? Sempre lembrando que para ele a função mais nobre da alma é pensar. Imagine que as almas são imateriais. Sei que imaginar alguma coisa imaterial deve ser para você, querido leitor, um pouco complicado. Pode acreditar, para mim também é. Mas pelo menos leve em consideração o conceito. A alma é imaterial. Ou seja, não é constituída nem de células nem de átomos. Tampouco de material orgânico. Nada. Diferentemente do corpo, como você bem sabe.

Outra característica da alma é que ela é eterna, atemporal. Sempre existiu e sempre existirá. Veja que interessante. Aquilo que pensa em você sempre existiu. É isso o que Platão está dizendo. Obviamente você não existiu desde sempre. Só uma parte sua. Porque o corpo nasceu quando você nasceu. Foi concebido nove meses antes do parto. Então, existe um acontecimento na sua vida que é o momento em que uma alma eterna se junta a um corpo que acaba de surgir. A isso nós poderíamos chamar de nascimento. O começo da vida.

E, é claro, essa alma que sempre existiu persiste durante toda a vida. E ela continuará existindo. Quando o corpo morre – se deteriora de vez – a alma dele se separa. Liberta-se, mais precisamente. A pergunta “para onde ela vai?” teria interesse se a alma fosse material. Porque matéria necessita de um depósito, de uma garagem, de um estacionamento. Sendo a alma imaterial, especular sobre seu destino não tem o menor sentido. Mas, enfim, é normal que haja esse tipo de curiosidade.

Então, veja que interessante. Para Platão, antes do nascimento a alma estava em grande proximidade com as ideias, entendidas como o habitat da alma. No paraíso das ideias é que a alma mora. Ela é familiar às ideias. E com elas mantém grande intimidade. Só que ao nascer a alma sofre uma queda. Passa por um distanciamento abrupto. Para ser aprisionada pelos nossos corpos, é retirada violentamente de seu habitat.

É por isso que durante a vida a alma busca recuperar uma familiaridade que era a sua, anterior ao nascimento. Ela busca as ideias. Busca voltar para o seu lugar de origem. Só que algumas almas têm grande facilidade para isso, e outras, menos. As primeiras são ágeis em recuperar a familiaridade com as ideias depois do trauma do nascimento. Por isso, segundo Platão, são superiores às segundas, que encontram maior dificuldade para atingir tal objetivo.

Imagine que você bata a cabeça e, após o choque, passe por um momento de amnésia, fique momentaneamente desmemoriado. Os médicos dizem que a recuperação da memória pode ser rápida ou lenta. Pois poderíamos estabelecer essa comparação. O nascimento representa um golpe para a alma. E na hora de recuperar a intimidade com as ideias algumas almas o fazem com maior destreza.

Platão estabelece assim uma hierarquia das almas, esquema proposto a partir de um paralelo evidente entre a alma e o próprio cosmos. Algumas são superiores a outras. Como estamos falando de valor, a pergunta é: qual o valor da alma? Questionar o valor da alma é questionar o valor da sua atividade mais nobre, que é o pensamento. E a resposta é: uma alma valerá tanto mais quanto mais rapidamente conseguir resgatar a familiaridade com as ideias, status quo anterior ao nascimento.

Ora, como todos nós humanos temos uma alma pensante, este critério de atribuição de valor a ela é de certa forma extensivo às pessoas, dado que para Platão a principal atividade de um indivíduo, a mais fundamental e mais essencial para a vida de um ser humano, é o pensamento. Portanto, as pessoas são superiores umas às outras porque são constituídas por almas superiores umas às outras.

Você se lembrará das rixas de escola. Afirmávamos com convicção: “Eu sou melhor do que você!” Na idade adulta aprendemos a continuar achando isso, mas não mais dizer. Pelo menos não sempre. Ora, para os gregos afirmações assim não indicavam nenhuma infantilidade. Pelo contrário. Davam conta de uma constatação muitas vezes irrefutável. Até Sócrates – o mais sábio de todos –, que tinha tudo para ser humilde, acabou concordando que era mesmo o mais sábio. Por saber uma única coisa: que não sabia nada. Enquanto os outros, nem isso.