Somos Todos Canalhas

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 55 de 89

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Intervenção 15 Júlio

Intervenção 15

Júlio

 

Tomemos o exemplo da verdade, Clóvis. Entre a verdade e a mentira, imagine uma sociedade em que todos mentem e depois imagine uma sociedade em que todos dizem a verdade. E veja qual delas é a mais viável. Se a mais viável for aquela que diz a verdade, tenha “dizer a verdade” como a regra que tornaria heroicamente valorosa a sua conduta. Porque você sabe que dizer a verdade o tempo todo pode ser trágico para alguém. Portanto, ainda que Kant rejeite a avaliação da conduta pelo resultado, o fato é que na ponderação abstrata leva-se em conta um resultado. Não um resultado concreto, mas um resultado hipotético – a hipótese de que a norma moral seja de fato universal. Outra característica dessa razão pura é a sua universalidade. Os afetos não são universais. Todos nós odiamos, mas não odiamos as mesmas coisas nem as mesmas pessoas. E nem com a mesma intensidade. Todos nós somos capazes de amar, mas nós não amamos as mesmas pessoas nem do mesmo jeito e nem na mesma intensidade. Mas com a razão pura isso não deveria acontecer, acredita Kant. Enquanto nossos sentimentos nos tornam seres singulares, a nossa razão nos torna seres universais. E se a moral é aquele tipo de orientação da conduta que torna a nossa vida possível, sem discórdia, sem conflitos, sem guerras, essa situação de paz perpétua só ocorreria se todos nós fôssemos de fato guiados pelas mesmas regras, e não pelos nossos afetos tão diferentes, tão singulares, tão causadores de desentendimentos. Portanto, existe uma avaliação finalística da conduta, mas apenas para a criação da norma. Ela é apenas a expectativa de um resultado bom para a humanidade desde que todos ajam da mesma forma que você, desde que todos sigam o mesmo princípio de razão pura que você. Então, trata-se de uma avaliação de resultado de curto prazo, do resultado imediato da conduta. Quanto ao resultado imediato, sendo ele negativo, ruim, entristecedor, você deve ignorar a tristeza, os malefícios, as consequências negativas que causarão de modo a você seguir a regra. Essa é a ação valorosa e moralmente aceitável para Kant.