Somos Todos Canalhas

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 86 de 89

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Somos Todos Canalhas

Intervenção 4 Clóvis

Intervenção 4

Clóvis

 

Tolerância é valor. Porque podemos escolher tolerar ou não. Valor que faz pensar nos seus próprios limites. Se tivermos como referência o aperfeiçoamento da convivência, há coisas que temos que tolerar e outras não. A intolerância absoluta é perversa. E a tolerância absoluta também. Quem tolera a conduta canalha age mal. O tolerar virtuoso está condicionado ao seu objeto. Os limites da tolerância virtuosa implicam um discernimento sobre uma relação justa, uma sociedade justa.

Assim, suponho, devemos tolerar que alguém divirja de nós sobre a maior ou menor tributação do setor produtivo. Mas fazer uso privado dos recursos públicos, penso ser intolerável. Toleramos o apreço do outro pela música que nos entristece. Já uma viagem de carro de quatro horas em plena tristeza musical é demais. A criança diverte-se com joguinhos no celular. OK. Mas em pleno almoço de domingo, ocasião de interação familiar, não dá. A esposa tolera o encantamento do marido pela atriz da novela. Mas não aceita o mesmo pela sua irmã. Por isso falamos em graus de tolerância.

Outras virtudes também estão vinculadas a seu objeto. Assim, a fidelidade só será virtuosa se a conduta assegurada no passado tiver valor moral positivo. O mesmo serve para a lealdade. Para ser uma virtude, ela implica a avaliação do que foi combinado. E a honestidade? Se entendida – no seu sentido mais trivial – como não se apoderar do que não lhe pertence, sua índole virtuosa parece não encontrar limites. Não parece vinculada a nada. Dispensaria a avaliação moral de qualquer outro elemento. Não haveria graus de honestidade. Ou é ou não é, como se diz.

Mas, para muitos, algumas sociedades distribuem suas riquezas de forma tão injusta que pegar o que não é seu é legítimo. Desde o furto famélico, quando o que se pretende é matar a fome imediata, até as invasões de terras improdutivas que buscam dar-lhe uma função social mais adequada.

Haverá quem proponha uma pergunta rica e provocativa: Qual a diferença entre tolerância e respeito? Afinal de contas, respeitar alguém não implicará alguma forma de tolerância? Acreditamos, sim, que tolerância e respeito são valores imbricados e, mais do que isso, que são esferas concêntricas de raio diferente. A tolerância está contida no respeito. O respeito é gênero do qual a tolerância é espécie. Toda tolerância, portanto, é uma forma de respeito. Mas haverá o respeito que não seja necessariamente tolerante. Cabe aqui o esclarecimento detalhado de tudo isso.

Um primeiro elemento da tolerância – enquanto valor ético – é a presença de outra pessoa. Não há tolerância no isolamento ou na relação com a natureza. Assim, podemos estar mais ou menos agradados com a chuva, com a inclemência do sol, com o vento que faz voar os papéis sobre a mesa, com o ruído dos animais – maritacas podem ser infernais –, mas nada disso tem a ver com tolerância. Esta é um princípio moral que baliza a conduta, e, portanto, toleramos ou não aquilo que flagramos no comportamento alheio. Trata-se de um valor que requer a intersubjetividade.

O objeto da tolerância é a manifestação do outro: suas ações, práticas reiteradas ou não, seus discursos, ideias enunciadas, seus pontos de vista, seus gostos declarados etc. O mero pensamento não manifesto não pode ser objeto de tolerância ou intolerância. Trata-se, portanto, de um valor social por excelência, próprio das relações, das interações, dos relacionamentos.

Em relação a essa manifestação do outro, toda tolerância implica alguma inconformidade. Assim, se alguém sorri para você, diz que o ama, que admira o seu trabalho e que você é causa da sua alegria, sua reação nada terá a ver com tolerância. É valor de desacordo, de enfrentamento, de conflito; não de acordo, harmonia e paz. Por isso, trata-se de um valor ético, protetivo da convivência e das relações. É exatamente porque o outro pode enunciar pensamentos que discrepam dos nossos que a tolerância é um valor tão importante. No caso da tolerância, fica particularmente claro que as virtudes exigem, muitas vezes, uma disposição para agir na contramão de uma inclinação natural primeira.

Chamamos de dissonância cognitiva a inadequação entre o conteúdo de um pensamento de outra pessoa objetivado em discurso de que somos receptores com o nosso próprio pensamento a respeito de qualquer coisa ou pessoa. Na maioria dos casos esta dissonância se converte em tristeza. Essa correspondência afetiva depende de variáveis como quem é seu interlocutor, sua legitimidade como porta-voz e as condições materiais da enunciação e da recepção daquele discurso. De qualquer forma, nos casos de dissonância triste, tendemos a evitar a recepção destas mensagens dissonantes. Assim, temos tendência, por exemplo, a trocar de canal quando algum comentarista critica o comportamento de um candidato em quem pretendemos votar ou de algum governante em quem votamos.

Assim, o valor da tolerância oferece fundamento a uma consideração do pensamento do outro como legítimo ainda que em desacordo com o próprio – uma atitude de aceitação de uma realidade da existência do outro, do seu pensamento e da sua ação, que são causa de tristeza. É justamente para que essa tristeza percebida ou sentida não gere uma reação atentatória à harmonia da relação e à convivência que o valor da tolerância se faz fundamental. Este valor será tanto mais importante quanto numa sociedade houver a educação para o livre pensamento e garantias jurídicas e políticas de expressão livre desse pensamento e de qualquer outra manifestação que seja discordante com nossos pontos de vista.

Sendo assim, toda vez que falamos em tolerância falamos em opiniões. Opiniões que não são necessariamente alinhadas, que resultam de alguma enunciação discursiva e que manifestam certa forma de pensar e entender o mundo. São opiniões que explicitam certo ponto de vista. Ora, em sociedades onde vigora a liberdade de expressão, sendo os pontos de vista necessariamente distintos entre todos nós, observadores do mundo, é perfeitamente normal que haja opiniões discordantes e, portanto, é importante para a proteção da convivência que tenhamos tolerância face a esses pontos de vista desalinhados aos nossos.

Acreditamos que a tolerância – quando virtuosa – seja espécie do gênero respeito. Há respeito em toda tolerância. Mas esta requer uma especificidade de objeto que no respeito é mais ampla. Somos tolerantes frente às opiniões manifestas dos demais desalinhadas com a nossa. Já o respeito tem por objeto toda e qualquer manifestação, todo e qualquer sentimento, toda e qualquer conduta que não necessariamente manifeste um ponto de vista ou uma opinião sobre o mundo.

Assim, eu posso respeitar uma decisão pessoal de alguém que se submete a uma operação de troca de sexo, e não há aí tolerância, o que há é respeito. Tolerância haveria no caso de um diálogo, de uma discussão a respeito da pertinência ou não desta prática. Posso respeitar a decisão de um filho de optar por uma carreira universitária que não é a que eu espero, mas não há aí tolerância a menos que esta decisão venha acompanhada de um diálogo, de um debate e da enunciação de pontos de vista discordantes.

Haverá intolerância toda vez que partirmos da premissa de que existe uma única verdade sobre o mundo, e de que somos nós os detentores dessa verdade. Sendo assim, todo e qualquer tipo de pensamento dogmático, seja ele fundado na verdade revelada de forças suprassensíveis, seja ele fundado nas certezas científicas, pode ser patrocinador de posturas de intolerância. Já para aqueles que entendem que a ciência é um espaço de falseabilidade e refutação de teses anteriores, pelo contrário, a tolerância é hábito, verdadeiro DNA do cientista. E prova de sua lucidez no avanço do seu trabalho.

Quase sempre a tolerância vem acompanhada de posturas ditas fundamentalistas que excluem do entendimento do mundo e da interpretação das ocorrências do mesmo toda e qualquer pluralidade, toda e qualquer diversidade em nome de uma única via, de uma única solução, de um único caminho. O valor da tolerância, portanto, não é só um valor protetivo da convivência, mas também garantidor da própria democracia.