Somos Todos Canalhas

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 67 de 89

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Intervenção 6 Júlio

Intervenção 6

Júlio

 

Curiosidade sobre Bentham. Ele também escreveu um livro chamado O panopticon, que afirmava ser um projeto de arquitetura que permitisse que a razão se impusesse sobre a racionalidade. Michel Foucault realizou uma análise formidável dessa obra, utilizável em presídios, escolas e manicômios, instituições que teriam por objetivo disciplinar. O interessante é que, neste livro, Bentham propõe como punição aplicável aos presos a dor física provocada por uma máquina de chicotear. Por que uma máquina de chicotear? Em primeiro lugar, porque tratam-se, na visão de Bentham, de presos e, portanto, a punição, o ato de correção, deveria ser algo mais doloroso que o encarceramento; em segundo lugar, a dor física seria igualmente punitiva somente se aplicada por uma máquina segundo a qual não apenas o número de chibatadas, mas também sua intensidade pudessem ser calibrados, de forma a permitir uma punição objetiva e proporcional com relação à conduta que a tenha justificado.

Esse é o lado político do utilitarismo. Infligindo dores e distribuindo prazeres, poderíamos organizar a sociedade de forma racional. Projetos arquitetônicos e engenhocas poderiam auxiliar na aplicação ordenada dos princípios da ordem. Mas apetrecho nenhum funcionaria bem se não houvesse algum tipo de objetividade de seu resultado. A engenhoca de chibatar somente seria eficaz contanto que a dor causada em qualquer indivíduo fosse igual. Havia, portanto, uma crença na objetividade da dor e também dos prazeres nos discursos políticos dos utilitaristas. Propostas de organização social baseadas na certeza de que o prazer ou dor de um é igual ao prazer ou dor dos outros. Aqueles que não se engajavam bem nesta economia de prazeres e dores, não demonstrando dor diante de coisas dolorosas ou prazer diante de coisas prazerosas, deveriam ser isolados em prisões e manicômios ou reeducados em escolas.