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Intervenção 5 Júlio
Júlio
Sabe, Clóvis, sempre que avisto um livro de autoajuda em uma livraria de aeroporto – não que eu não os veja em outros lugares, mas é que em livraria de aeroporto é só o que há para ver –, penso num tirano existencial. Em alguém que faz crer que a vida que alegrou José alegrará também a Joaquim, Maria e Pedro. Modelos de vida única. Modelos em que a única escolha moral que a pessoa deveria fazer é abrir mão de suas próprias escolhas existenciais e aderir a um modo de vida pronto. Vida prêt-à-porter. Abrir mão de sua liberdade pressupondo que apenas a vida de acordo com o manual seja a vida boa, o gabarito da existência. E todas as outras alternativas, formas menores de existência. Vidas ineficazes, como preferem os livros de autoajuda.
Ao contrário do que ocorre no antigo testamento, no qual há mandamentos, no novo testamento não há regras. Jesus não tem código ou mandamentos, mas nem por isso deixa de ter um sistema moral. No novo testamento, a vida de Jesus é apresentada como fonte exemplar de moral. O exemplo é diferente da lei e da regra. Esta é um comando: faça. O exemplo é só uma inspiração. Inspire-se, entenda. Portanto, o que há a ser seguido não é literalmente aquilo que Jesus fez, mas a lógica de sua conduta. Os porquês de sua ação. Exemplo aberto a interpretações.
A passagem de Marcos citada há pouco é exemplo de não discriminação, quando Jesus, diante de uma elite que caçoa, que apequena, que critica aqueles que não seguem as regras de etiqueta, diz que o que suja é o que sai de dentro daqueles que criticam a falta de etiqueta. Aquele que quer seguir o exemplo de Jesus não deve tratar isso como norma e literalmente buscar algum lugar de etiqueta à mesa e violar regras estabelecidas, por exemplo, arrotando no jantar de batizado. Não deve apenas criar uma situação semelhante à de Jesus e, repetindo sua frase, imitá-lo. Ainda que o arroto possa não ser um bom exemplo, pois também é algo que sai de dentro, o fato é que fica evidente que não é o exemplo literal que importa. O exemplo não pode se tornar norma. O que interessa é a lógica do exemplo. Como o amor que não discrimina, que não leva em conta instituídos e outsiders, que não leva em conta os nobres e os pobres.