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Intervenção 10 Clóvis
Intervenção 10
Clóvis
Sem dúvida. Um segundo ponto costumeiramente considerado frágil em teorias de valor consequencialistas está na própria relação de causalidade entre o objeto do nosso juízo de valor como causa e a felicidade como consequência. Porque raramente afetos em geral decorrem exclusivamente de uma causa, mas resultam de uma combinação de causas nem sempre orquestradas, combinadas, nem sempre em mesmo sentido. Assim, um estado afetivo é costumeiramente decorrente de situações complexas em que várias unidades de real afetam os prazeres e as dores sentidas por alguém.
Imaginemos uma jovem dotada de razoável capital estético. Na sequência de um desagravo amoroso, ela decide passar o final do ano em Punta Del Leste, cidade balneária do Uruguai. A situação é de relativa tranquilidade econômica. Aqueles dias serão de descanso, de férias. O hotel é agradável. A meteorologia acena com dias lindos e temperatura adequada para a praia. E nesse contexto esta jovem encontra um turista argentino. Na sua companhia, vive bons momentos.
Ela, então, imputa a esse encontro a causa da sua felicidade. Por isso tem o turista na mais alta conta. Valor positivo. Esse juízo resulta de um nexo de causalidade estabelecido por ela entre sua felicidade e a companhia do jovem hermano. Assim procedendo, ela exclui muitos outros dados da sua experiência naquele momento que também podem ter determinado as boas sensações. É um diagnóstico incompleto, ou completamente equivocado.
Essa jovem só se dará conta do erro de avaliação no reencontro. Marcaram em São Paulo. Uma semaninha. Para ela, em plena agitação profissional. Ele aparentemente vive desses encontros apenas. Ela vai buscá-lo no aeroporto de Guarulhos. Sexta-feira no final da tarde. Deslocamento custoso. O voo que traz seu convidado atrasa. Ele chega reclamando da fila e do tratamento que recebeu na imigração. Estende a todos os brasileiros a conduta aduaneira que o entristeceu. O trânsito não melhorou. Antes de chegar à Marginal, já tinha percebido a bobagem. Não era bem aquele indivíduo no banco de passageiros a causa das boas sensações de Punta. A felicidade vivida era certamente resultado de outra coisa.
Nada impede também que nessa complexidade de relações causais próprias a toda situação alguns elementos de realidade sejam causas de prazer e outros de dor, determinando um estado afetivo híbrido que resulta de complicada equação, de contraste entre positivos e negativos. Um verdadeiro balanço de afetos. Assim é comer bacalhau ouvindo fado.