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Intervenção 9 Júlio
Intervenção 9
Júlio
Por outro lado, há aqueles que reconhecem suas virtudes, mas não as desenvolvem, seja por algum tipo de repressão social qualquer, seja por uma repressão individual mesmo. Outros não reconhecem suas virtudes e, portanto, não as desenvolvem. Quem vive assim tem vida apequenada. E não falta gente no planeta para apequenar a existência, para reprimir o desenvolvimento das virtudes. Até porque o virtuoso, aquele que age no exercício das suas habilidades naturais, é alguém que tem destaque em determinada atividade. É muito comum que pessoas que se destacam em alguma atividade, ainda que boa, sofram algum tipo de repressão por parte daqueles que, ao contrário deles, não têm tal habilidade. Repressores que não se destacam, embora tenham a pretensão de ganhar algum relevo na vida.
Já que as escolhas de vida nem sempre obedecem às nossas habilidades para o desenvolvimento de determinada função, e sim são realizadas em razão de escolhas a partir daquilo que é socialmente mais valorizado, que nos parece possível, que assegura bom salário ou que imaginamos que vá ser particularmente alegrador para a nossa existência, muitas vezes nós nos lançamos num tipo de vida totalmente em desarmonia com as nossas habilidades. É nessa vida em desarmonia que não nos destacamos. É vida desencaixada, mal-ajustada na máquina cósmica. Pessoas de vida malresolvida em virtudes acabrunhadas são os grandes entristecedores daqueles outros que, por sua vez, vivem uma vida compatível com as próprias virtudes.
Há uma discussão não só em Platão, mas em outros tantos pensadores, sobre a hierarquia das virtudes. Qual delas seria a mais valiosa de todas? Hierarquizando as virtudes poder-se-ia apontar que tipo de cidadão seria mais desejável dentro da cidade. Assim, as listas de virtudes variam, mas acabam se concentrando de modo geral em umas poucas. Apenas o suficiente para julgar as pessoas segundo sua natureza ou virtudes.
Para Platão, por exemplo, havia três virtudes fundamentais: a sabedoria, entendida por ele como a capacidade da boa lembrança do ser das coisas, ou, se preferir, do verdadeiro valor das coisas – lembrança da alma que esteve no mundo das ideias e agora veio para o mundo sensível –; a coragem, virtude da disposição de espírito impetuoso, daquele que, mesmo tendo medo, não se detém em fazer aquilo que sabe ser o necessário ou correto; e a temperança, o arrefecimento dos desejos e dos afetos, a capacidade de controlá-los, de não permitir que eles se imponham sobre a verdade e a bondade.
Aristóteles tem uma lista um pouco diferente. No lugar da sabedoria ele colocou a prudência. O intelecto não é um conteúdo do qual a alma consegue se lembrar, mas sim a capacidade de pensar bem a própria conduta. Prudência como razão prática, deliberação para a ação adequada diante da existência. Aristóteles concordava com Platão em relação à coragem e à temperança, mas acrescenta uma quarta virtude: a justiça – justiça que, como já explicado, corresponderia a uma ação simultaneamente prudente, temperada e corajosa. Por isso, ela é consagrada por ele como a maior das virtudes, a virtude do equilíbrio entre as virtudes.
Fazendo um paralelo, na vida somos bons em algumas coisas e péssimos em outras. Seria mais justo e, portanto, mais valoroso aquele que possuísse maior número de habilidades e ainda por cima harmonia entre elas. Bom explicador, mas também bom de bola. Futebol e vôlei. Bom de golfe, demonstrando grande habilidade também com bolas diminutas. Que fosse ainda bom de cálculo. Em suma, que fosse bom simultaneamente em várias coisas muito diferentes umas das outras e ainda assim em equilíbrio entre elas de uma maneira tal que nenhuma se sobressaísse em demasia em relação à outra, que nenhuma apequenasse a outra. Da mesma forma que o universo requer todas as virtudes em ação, todas virtudes funcionando bem para que ele atinja a sua finalidade, o homem também precisa de todas as suas habilidades. Mas tanto a pluralidade de virtudes quanto o equilíbrio entre elas são raridades. O mais comum mesmo é que cada um de nós se mostre com um pequeno rol de habilidades a serem desenvolvidas. Ainda que encontremos outros que, pelo menos, no juízo que fazem deles mesmos, costumam apresentar uma lista bem maior de virtudes do que aquela que se pode perceber.