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Intervenção 7 Júlio
Intervenção 7
Júlio
O que o colega acaba de dizer me leva ao seguinte raciocínio: Deus, que é perfeito, ama a imperfeição. Ama suas criaturas imperfeitas. O homem, que é imperfeito, é quem ama a perfeição. E pelo amor à perfeição não entende a imperfeição do mundo. Não entende os porquês do mundo lhe entristecer. Porque no mundo, se perfeito fosse, não haveria tristeza. Da mesma maneira, o homem não entende os porquês da dor. Porque no mundo, se perfeito fosse, não haveria dor.
Então, considerando um primeiro aspecto, o problema do mal é um problema de não aceitação da imperfeição do mundo. Não aceitação do mundo tal qual ele é. É como Leibniz vai desenvolver seu raciocínio sobre o mal. Em seu tempo, falava-se em três tipos de mal. O primeiro, mal metafísico. Por exemplo, o diabo – entidade metafísica causadora do mal. O segundo, mal físico: acontecimentos da natureza que causam dor, tristeza e agonia, como um terremoto ou uma enchente. O terceiro, mal moral: a má conduta humana, o pecado. Para Leibniz, os três males estariam interligados. Ele retoma uma concepção cósmica do mundo segundo a qual o homem teria um papel a desempenhar. Sua atuação é que daria causa aos males físicos. Para ele, esta seria uma questão física, de causalidades e efeitos. Para Leibniz, a causa daquele naufrágio, ou daquele terrível terremoto que devastou uma região inteira, seria talvez aquele quindim a mais que você comeu, aquele pecado da gula tão comum que numa sequência imensa de causalidades acabou chegando a esse resultado catastrófico.
Para Leibniz, a ciência, em especial a física, não seria um tipo de conhecimento ou de atitude que afastaria o homem de Deus. Ao contrário, quanto mais entendêssemos a física, quanto mais entendêssemos a dinâmica do mundo físico, incluindo aquelas coisas que Aristóteles chamava de “coisas que estão em torno da física”, tempos depois chamadas de metafísica, mais entenderíamos Deus. Ou, mais precisamente, entenderíamos como Deus organizou os acontecimentos. Por ser uma sucessão de causalidades e efeitos, Deus teria uma atuação de regente desta orquestra de causas e efeitos. Regente da ordem do mundo, como se este fosse um relógio e Deus, o relojoeiro que o acerta. E o faz de tal maneira que o mundo poderia ter várias formas diferentes de se organizar, as coisas poderiam acontecer de maneiras incontavelmente distintas, mas não infinitamente diferentes.
É que para Leibniz o mundo é matéria e forma. Deus criou a matéria e ele organiza a forma que essa matéria assume. Mas Deus criou antes a matéria para depois criar a forma. E assim, por exemplo, criou a água. E a fez do jeito que ela é. Criou a água líquida, que escorre, que evapora, que congela a zero grau. Poderia ter feito a água de outra maneira completamente diferente, mas o fato é que não a fez. Escolheu fazer a água assim, ato de um ser onipotente. Mas agora que já fez não só a água, mas todas as outras substâncias do mundo, como as pedras, os animais e os homens, que também poderiam ter sido feitos de quaisquer outras maneiras, toda organização da natureza possível é uma organização imitada pelos atributos das substâncias inventadas. Agora que Deus fez a água do jeito que é, não se pode ter uma montanha de água a 20 graus celsius que se sustente por si mesma, porque a fluidez da água impede que isso aconteça. Então, Deus, ao orquestrar o mundo e os acontecimentos, o faz limitado por ele mesmo, limitado por sua escolha anterior. Deus, assim, age ao mesmo tempo de forma limitada e mantém a sua onipotência. Porque é limitado por vontade própria.
Mas esse mundo comporta incontáveis organizações de substâncias. E em sendo Deus bom, ele as organiza da melhor forma possível. Organiza-as de maneira tal que o mundo no qual vivemos, o mundo que nos afeta da maneira que afeta, é de todos os mundos possíveis o melhor. Se nós o amaldiçoamos, se dizemos que ele é mal, é porque desconhecemos os outros mundos possíveis. Com certeza, seriam muito piores do que o mundo que temos. Então, para Leibniz o mal é a incompreensão da física, a incompreensão de Deus. O mal não existe, ele é apenas o desconhecimento dos outros mundos possíveis.
Mas antes do filósofo alemão, há uma forma de pensar o mal muito original e curiosa – obra de Santo Agostinho. Para ele, as explicações para a existência do mal não eram convincentes. A primeira delas é que a causa do mal seria Deus, o que é inaceitável por motivos óbvios, já que Deus seria um ser onipotente, onisciente e bom. Um ser bom em essência não poderia em hipótese alguma ser causador do mal. Hipótese B: a causa do mal seria o diabo, uma força metafísica qualquer oposta a Deus. Deus seria um ser bom que causaria as coisas boas do mundo, enquanto haveria um opositor, um ser mau que causaria as coisas más. Para Santo Agostinho isto é difícil de aceitar porque se Deus tivesse um concorrente, um partido de oposição, não seria onipotente. Hipótese C: a causa do mal somos nós. Nós, com nossa liberdade e livre-arbítrio, causaríamos o mal. Santo Agostinho também refuta essa possibilidade. Se nós, com nossa liberdade e livre-arbítrio para agir em conformidade com nossos desejos, causamos o mal, então Deus, que nos deu os desejos assim como a liberdade para agir em conformidade com eles é o responsável último por todo o mal que livremente causamos, algo já tido como inaceitável na primeira hipótese.
Então, Santo Agostinho começa a fazer uma digressão sobre o mal nos seguintes termos: para ele, todos nós obviamente não somos Deus, mas somos, como consta nas escrituras, imagem e semelhança de Deus. E como tal comungamos com Deus alguns atributos, dentre eles, o amor, entendido aqui como a causa do que nos torna seres bons. Enquanto Deus é amor infinito, amor incondicional, nós somos amor escasso e condicional. E Deus, por ser amor infinito, é também bondade infinita. E nós, por sermos amor escasso, somos o bem em escassez. Para Santo Agostinho, portanto, o problema é epistemológico, um problema de organização do pensamento sobre o mal. As respostas para o problema do mal são insatisfatórias porque pensam o mal como uma substância, alguma coisa que tem de ser identificada em algum lugar ou em alguém. Mas, para ele, o mal não é uma substância, é simplesmente a ausência do bem. No mundo, não haveria o bem e o mal. O que existiria seria o bem em plenitude e o bem em escassez. O primeiro é Deus; o segundo, nós no mundo. E há de ser assim. Porque se o mundo não fosse bem em escassez, ele seria Deus. Como Deus e o mundo são dois, o mundo só pode ser bem em escassez. Portanto, pela lógica Agostiniana, levada à radicalidade, o mal não existe como uma substância, mas como ausência de Deus.