Somos Todos Canalhas

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 49 de 89

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Intervenção 12 Júlio

Intervenção 12

Júlio

 

Sem dúvida, Clóvis. Mas, por outro lado, uma coisa curiosa em Kant é que ele não é um inovador na história do pensamento ao pressupor a possibilidade de a razão suplantar os afetos, imperando assim sobre a conduta humana. Platão e outros tantos acreditavam nessa possibilidade. Mas Kant, por outro lado, inova a partir dessa premissa. Cria um sistema moral onde a razão tem um papel radical, por ele chamada de razão pura. Para entender essa razão, o porquê de sua pureza, é preciso diferenciá-la de outros dois conceitos possíveis de razão.

O primeiro deles é o de razão prática – razão que tem por finalidade uma conduta, um resultado, que é cálculo entre meios e fins, razão que seria ponderação sobre custos e benefícios. Há outra ideia de razão, também em certa medida voltada para uma finalidade, mas esta finalidade não é propriamente um acontecimento, um ganho, um movimento. Essa finalidade é a satisfação de um afeto. Portanto, uma razão a serviço dos afetos. Uma razão consequente e governada pelos afetos. Penso de tal maneira racional única e exclusivamente porque essa razão seria a manifestação de um afeto. Penso dessa maneira racional única e exclusivamente porque o afeto assim determina. Isso, na psicanálise, é chamado de racionalização. Uma razão que seria, portanto, apenas uma forma socialmente aceitável de manifestação de um desejo.

Para diferenciar bem essas duas razões daquilo que Kant chamava de razão pura, trago o exemplo do mulá, espécie de sacerdote e juiz islâmico, figura religiosa a quem se atribui também a autoridade de julgar. Anda tendo ao seu lado um mulazinho – aprendiz, estagiário, trainee de mulá, que tenta aprender pelo exemplo do mestre. Certo dia, aparecem dois homens que discutem a compra de um camelo. Procuram o mulá. O primeiro se dirige a ele e diz: “Seu mulá, Mohamed é um canalha, não presta. Combinamos de ele me vender um camelo, me entregou um dromedário, combinamos um valor X, eu entreguei a quantia acertada.” Enfim, ele conta uma história com começo, meio e fim, muito bem-concatenada, uma história plausível do que aconteceu. Quando ele termina o relato muito bem-contado, o mulá diz: “Você tem razão.” Num primeiro momento o mulazinho pensa: “Nossa, ele nem ouviu o outro ainda e já disse que esse primeiro tem razão. Mas vou ficar quieto porque sou mulazinho. Talvez a compreensão venha depois.” Aparece o segundo que conta uma história completamente diferente daquela contada pelo primeiro, mas tão plausível e aceitável quanto. Tão bem-contada quanto a primeira. Não foi camelo, não, seu mulá, foi dromedário mesmo, e o valor era outro. Tenho testemunhas. Terminada a história, o mulá se dirige ao segundo e diz: “Você tem razão.” O mulazinho não se contém e diz: “Seu mulá, sabe o que é, sei que sou um mero aprendiz, sei que a minha função requer mais escuta e observação do que fala, mas é que eu não entendi o que aconteceu. Veio um primeiro, contou uma história, e o senhor disse que ele tinha razão. Veio um segundo, contou uma história completamente diferente, e o senhor também disse que ele tinha razão. Mas o fato é que os dois não podem ter razão ao mesmo tempo.” Então o mulá se dirige ao mulazinho e diz: “Você tem razão.”

Repare que nessa história todos têm razão, mas as razões que eles têm não são iguais, não são qualitativamente equivalentes. Os dois homens que discutem em litígio por um camelo ou dromedário e se dirigem ao mulá produzem um discurso racional comprometido com o resultado. Cada um deles monta a sua história, escolhe os argumentos, elege estratégias retóricas visando a atingir um resultado que é a vitória nessa demanda jurídica: convencer o mulá de que a causa deve ser ganha. É, portanto, uma razão prática, comprometida com o resultado. Mas é também, muitas vezes, a racionalização de um afeto, do desejo de vitória, do desejo de se impor, do afeto que provocou a disputa, do afeto que fez com que um deles se enganasse e com que o outro quisesse enganar o primeiro. Pode ser por ambição, por exemplo. A ambição de ganhar fácil o dinheiro do outro ludibriando. Ou então a ganância. Uma arrogância, certeza de ser mais esperto do que o outro, que o levou a avaliar de forma equivocada a proposta do primeiro. Todos afetos, mas que podem facilmente ser traduzidos. Em disputas judiciais não é raro vê-los traduzidos em razões. Mas há uma terceira razão aí. Uma razão que não tem compromisso com o resultado. Razão que não é a forma sociável de um afeto. Razão, ao contrário, completamente separada dos afetos. Razão independente de qualquer resultado, que é a razão que o mulazinho tem, quando diz que duas pessoas que contam sobre o mesmo evento histórias diferentes não podem as duas estar corretas simultaneamente. Ou os dois mentem ou apenas um deles mente. Os dois ao mesmo tempo dizendo a verdade, isso não é possível.

Veja que essa constatação se impõe independentemente do desejo. Pode ser que, movidos por um sentimento de agonia diante da disputa, ou então por um enorme carinho por esses dois homens que disputam num litígio comercial em torno de um camelo, desejemos profundamente que os dois tenham razão, que os dois estejam certos. Mas a certeza de que os dois não podem ao mesmo tempo ter razão se impõe, ainda que os nossos desejos nos inclinem a aceitar o contrário. Essa é a razão pura. Pura porque não é poluída pelos afetos. Pura porque não é pautada pelos afetos. Pura porque não é comprometida com nenhum resultado. É a razão e tão somente a razão, capacidade de manifestação que seria possível partindo-se do pressuposto de que os afetos que de fato nós temos são separáveis. Constituem como que outra substância em nós. Portanto, os afetos poderiam ter uma existência autônoma com relação à razão e vice-versa. E, portanto, na medida em que Kant, radicalizando o papel da razão na conduta, diz que a conduta moral é aquela em que a pessoa age na intenção de fazer valer uma regra racional e não movida pelos afetos. Kant dá a essa razão um papel normativo ideal da conduta. Ou seja, nossa conduta deveria ser idealmente conduzida por essa razão desafetada. Deveríamos refrear os nossos afetos, fazendo essa razão se impor.