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Intervenção 14 Júlio
Intervenção 14
Júlio
Os exemplos apresentados pelo colega deixam claro que Kant espera que pensemos abstratamente antes da ação. A norma moral requer anterioridade com relação à conduta, porque quando a norma é construída diante da conduta, ela já é norma comprometida com o resultado e com as demandas da conduta que se mostra diante de nós. É a ideia de um homem que seria 100% moral nas suas condutas e que agiria de forma valorosa em 100% das vezes, o homem puramente ético, que deveria ponderar abstratamente sobre tudo aquilo que poderia lhe ocorrer na existência, ponderar de antemão sobre todas as deliberações a tomar, como, por exemplo, entre a mentira e a verdade. O que seria mais valoroso, mentir ou dizer a verdade? Chega-se à conclusão de que dizer a verdade é a regra que deve ser seguida antes da existência de toda e qualquer pergunta possível, antes de uma pergunta concreta. Pois aí sim no dia em que alguém lhe exigir uma informação e você tiver a possibilidade de mentir ou não mentir, você já sabe de antemão o que fazer. Basta obedecer à regra. Portanto, a mente deveria ser não só capaz de pensar de forma desafetada dos sentimentos, como também deveria ser capaz de pensar abstratamente sobre tudo. Mente que não seria surpreendida pelo mundo. Mente para a qual, ainda que durante sua existência encontrasse situações inéditas diante de si, estas jamais seriam imponderáveis, jamais imponderadas. Mente a não se surpreender com o mundo, o que me parece uma possibilidade muito remota de acontecer. Volta e meia a vida nos surpreende com situações completamente nonsense. Moro em Vitória. Cidade praiana. Clima quente. Por três dias seguidos, altas temperaturas de dia e garoa de noite. A garoa tipicamente paulistana, daquelas que não se encontra mais em São Paulo. Um clima completamente sem sentido. Lembro-me de quando morava no Rio, dirigindo por volta de duas da manhã na Tijuca, um dos bairros mais populosos da cidade, uma metrópole grande, cosmopolita, e, de repente, três leitões atravessam correndo a avenida Conde de Bonfim. Três leitões que vêm do nada e vão para lugar nenhum. Três leitões que aparecem de repente e desaparecem. A vida é assim, mas para Kant nada seria surpreendente o suficiente. Ou então você admitiria kantianamente que existe um limite da mente para ponderar sobre as realidades a serem encontradas. E, portanto, não seria possível legislar moralmente de antemão sobre todas as condutas. Assim, alguém 100% ético, alguém que acerta sempre, seria uma total impossibilidade, mas ainda assim a atitude da ponderação de antemão poderia aumentar o número de condutas moralmente valorosas de cada um.
Então, o primeiro passo para a construção desse gabarito racional da conduta valorosa é a ponderação abstrata. Mas abstratamente pensar como? Como saber se aquela razão que pensa abstratamente é de fato razão pura? Kant dá um norte para que saibamos se nas nossas ponderações abstratas estamos ponderando de forma puramente racional. É que o produto dessa deliberação abstrata, seja lá qual for, deveria significar uma norma de conduta que, se fosse obedecida por todos e por qualquer um, em toda e qualquer circunstância, geraria uma sociedade viável. É daí que vem o corolário do imperativo categórico: haja de forma com que a norma da tua conduta seja digna de ser convertida em norma universal. Dizendo de outra forma, pondere sobre aquilo que seria o racionalmente correto a fazer. Agora imagine todos obedecendo, sem exceções, a essa mesma regra e veja o resultado.