Somos Todos Canalhas

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 78 de 89

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Intervenção 12 Clóvis

Intervenção 12

Clóvis

 

Acontece, meu caro Júlio, que no utilitarismo as referências para a atribuição de valor também se apresentam como fundamentos da moral. Assim uma ação será moralmente justa quando proporcionar felicidade e moralmente injusta quando proporcionar infelicidade. Como vimos, felicidade ou infelicidade resultam de uma equação entre prazeres e dores. Essa forma de elaborar juízos morais, avaliando a ação a partir da quantidade de felicidade que ela enseja, nos leva a concluir que a moral das ações humanas é uma questão de grau, e não uma categoria. Não podemos falar em ações justas que se contrapõem a ações injustas. Mas devemos falar em ações mais justas do que outras e em ações mais injustas do que outras, ações melhores do que outras e piores do que outras. Isto porque a felicidade absoluta ou a infelicidade absoluta, que permitiriam um juízo moral de uma ação absolutamente boa ou absolutamente má, não existem. A felicidade absoluta e a infelicidade absoluta são quando muito racionalizações utópicas nos moldes dos ideais.

O que existe no mundo são graus de felicidade e de infelicidade. Dado que o valor moral das ações é relativo a esse efeito de felicidade ou infelicidade. Então, o valor moral das ações será também maior ou menor. Questão de grau. Imaginemos que um indivíduo espanque outro. Isto será moralmente mais condenável do que se ele furtar um picolé num bar. Porque o grau de dor proporcionado pela primeira conduta nos leva a uma infelicidade superior à infelicidade proporcionada pela segunda. Assim, a régua do valor da conduta é a mesma régua da felicidade ou da infelicidade proporcionada por ela.

Isso nos faz pensar que toda eventual dificuldade que tenhamos em medir a felicidade e a infelicidade como efeito de uma conduta é imediatamente transferida para o juízo de valor da conduta que lhe dá causa. Isto é, se eu não tenho certeza do nível de felicidade proporcionado, também não poderei ter certeza do valor moral da conduta. Portanto, a teoria moral utilitarista depende de uma competência para aferir a maior ou menor felicidade ou a maior ou menor infelicidade das pessoas que são, digamos, impactadas pela ação a ser julgada.