Somos Todos Canalhas
Intervenção 6 Júlio
Intervenção 6
Júlio
É por esse mesmo elitismo, Clóvis, que Platão abominava a democracia. Pode parecer curioso porque quando falamos de democracia é comum que se tome como exemplo ideal a democracia dos gregos antigos. Platão é cidadão ateniense, pertencente a uma cidade democrática e, no entanto, considera esse sistema péssimo. O pior dentre todos os regimes. Justamente por causa de seu elitismo. Se as almas não têm o mesmo valor, ou seja, se elas não têm igual medida de lembrança dos verdadeiros valores das coisas, então nem todos são capazes de atribuir bons valores às coisas, de conhecerem bem a si mesmos e de controlarem a si mesmos. Por este motivo, nem todos saberão viver bem. Alguns viverão a vida de acordo com os verdadeiros valores, outros, não.
Se nem todos sabem viver bem, se nem todas as almas têm o mesmo valor, faltaria um requisito essencial para a democracia: a ideia de igualdade. Uma gestão democrática da cidade, que garante a qualquer um o direito de voto e voz numa assembleia, tem como pressuposto a ideia de que qualquer um que participe seja digno de voto e voz. Agora, se você é como Platão e entende que as pessoas são desiguais a tal ponto que umas sabem valorar e, portanto, viver bem a vida, enquanto outras vivem mal, concordaria que uns usariam bem voto e voz em assembleia, enquanto outros apenas votariam mal e falariam besteiras. Com esta desigualdade, que sentido faria a democracia? Por que não permitir apenas que os mais capazes governassem e retirassem de cena os idiotas que não sabem o que dizem e fazem?
É por isso que Platão propõe como gestão ideal da cidade o governo exercido pelo filósofo, justamente esse homem cuja alma se lembra com mais perfeição dos verdadeiros valores. Se ele fosse o legislador, as leis seriam normas que, respeitadas, tornariam a vida de todos melhor.
Por outro lado, numa democracia em que as leis são criadas a partir do voto da maioria incapaz de criar boas leis porque carece de todos aqueles requisitos, essenciais para que certas almas valham mais do que outras – que tenha a capacidade de se impor sobre os próprios desejos, que seja capaz de autocontrole, que tenha possuído uma educação capaz de desenvolver essa disposição inata a viver e a pensar bem –, o problema é estrutural. Quem possui tais requisitos é a minoria. A maioria não os possui. Portanto, o resultado de uma deliberação democrática seria o resultado da deliberação da maioria incapaz de pensar bem e, portanto, de viver bem. Para Platão, uma cidade em que as leis são criadas por uma maioria idiota será uma cidade com leis idiotas, de vida idiota. Vida muito distante dos verdadeiros valores.