Somos Todos Canalhas

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 58 de 89

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Intervenção 2 Clóvis

Intervenção 2

Clóvis

 

Gostaria de retomar a ideia de valores intrínsecos – aqueles que estão diretamente relacionados às obrigações morais que definimos e respeitamos. Na teoria de valor proposta por Mill só haveria uma única coisa boa intrinsecamente. Portanto, todo o resto teria um valor simplesmente instrumental. O único bem de valor intrínseco e que, portanto, vale por si só, independente de qualquer outra coisa, é a felicidade. Qualquer outra coisa cujo valor for considerado é preciso ser avaliado na medida em que puder proporcionar felicidade. Se o que caracteriza o valor instrumental de uma coisa é justamente a capacidade que essa coisa tem de proporcionar outra de valor intrínseco, pois então tudo só tem valor em função da felicidade que pode proporcionar a alguém.

A felicidade, portanto, torna-se nessa teoria do valor referência única em função da qual a valoração do mundo é possível. É referência para as coisas produzidas pelo homem, produtos da técnica, como também para as coisas da natureza; é referência para o valor das obras de arte e para o valor da ação das pessoas. Em outras palavras, seja qual for a realidade considerada, o seu valor dependerá do quanto permitir que alguém seja feliz. Seja diretamente numa relação de causalidade imediata e, neste caso, alguém diante de qualquer coisa por sua causa alcança a felicidade imediatamente, o que seria cogitável para um lindo pôr do sol ou para o sorriso de uma mulher; seja indiretamente, quando uma coisa permitisse obter outra, e assim sucessivamente. É assim que, então, ao cabo de uma cadeia, acabamos chegando à felicidade.

Assim o livro nos leva à leitura, a leitura nos leva à imaginação ou ao conhecimento, o conhecimento pode nos levar a uma prática, uma prática nos leva a uma produção, uma produção nos leva a um produto, um produto nos leva a uma venda, a venda nos leva a um ganho econômico, um ganho econômico nos leva à aquisição de uma coisa, e esta coisa nos proporciona a felicidade.

Então, as coisas serão avaliadas pela capacidade que têm de trazer felicidade, seja imediatamente, seja em cadeias. Dizendo de outra forma, a felicidade seria a única coisa desejável em si mesma enquanto fim ao passo que todas as outras coisas seriam desejáveis enquanto instrumento para alcançá-la. Isso nos levaria a uma conclusão. Queremos ser felizes o tempo inteiro e buscamos aquilo que no mundo supomos que possa nos trazer essa felicidade. Isso vai do pastel de feira a um carro caro ou mesmo a um romance.

Essa teoria do valor nos deixaria completamente na mão se o autor não nos propusesse uma definição de felicidade. Palavra-ônibus. Que comporta muita coisa de natureza diferente. Para que esta teoria seja aplicável, é fundamental que tenhamos uma ideia mais clara do que ser feliz quer dizer.

Stuart Mill não deixa seus leitores na mão. Ele lhes propõe uma definição bastante clara: felicidade é presença de prazer e ausência de dor. Para dirimir qualquer dúvida, seguindo sadio didatismo dos autores ingleses, Mill explica que a felicidade é o contrário da infelicidade – presença de dor e ausência de prazer. Esse esclarecimento me faz lembrar de um humorista que dizia gostar de tudo muito bem explicadinho, nos seus miiiiiiiiinimos detalhes.

Agora estamos autorizados a uma substituição com enorme ganho de precisão. Se o único bem de valor intrínseco é a felicidade, e esta é prazer sem dor, então agora, sem nenhum medo de errar, podemos afirmar: a única coisa que vale por ela mesma é uma sensação. Um afeto: o prazer. E a falta do seu contrário: a dor. Isso – e só isso – é o que buscamos o tempo todo. O resto é só instrumento para alcançá-los. Que loucura! Quer dizer que tudo no mundo só tem valor na medida em que proporciona prazer e diminui ou elimina a dor.

Imaginemos estes candidatos que a cada dois anos, no nosso país, se engalfinham para obter votos. Falam horas a fio. Enfrentam-se em debates que são carnificinas. Percorrem o território nacional. Submetem-se a agendas desumanas. Tudo se resume, então, em prazer e dor. Que jeito mais – digamos, indireto – de alcançá-los. Poderíamos sugerir-lhes um ofurô. Massagens orientais. Nos pés. Etc. Um abraço. Dependendo de quem você abraça... Nó!

E por que não submeter a própria filosofia a este crivo? Quem enuncia discurso filosófico ou quem os consome. Que seja avaliada em função da proposta utilitarista. Trouxe prazer, diminuiu a dor, ou então não trouxe prazer, aumentou a dor.

Dessa forma, a atribuição de valor a qualquer coisa fica drasticamente simplificada a esse binômio que é a consequência de tudo aquilo que para nós tem valor positivo: o prazer e a redução da dor.