Somos Todos Canalhas

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 61 de 89

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Somos Todos Canalhas

Intervenção 3 Júlio

Intervenção 3

Júlio

 

Acredito que o tempo seja o fator mais problemático da avaliação da felicidade utilitarista. Imagine o caso de alguém com muita fome. Sofre a dor característica de quem já passou da hora de almoçar. Tem pouco tempo, pois em breve terá uma reunião à qual não pode faltar. Avalia que faltar a ela lhe trará o sofrimento do desemprego. A única opção disponível para almoçar é um boteco próximo, daqueles típicos, com vitrine térmica em forma de trapézio. Lá, ovos cozidos coloridos, único quitute disponível. O aspecto não lhe é dos mais agradáveis, mas a dor da fome é implacável. Pede o ovo. Grata surpresa, está bom, tão bom que pede o segundo e o terceiro, cada um de cor diferente. Saciado, imediatamente ao sair do boteco um amigo lhe pergunta se está feliz. Sem dor e alegre, diz que sim. Ovos de grande valor. Quarenta minutos depois o amigo o reencontra, à porta do banheiro, agora esverdeado. Pergunta novamente se está feliz. Resposta negativa. O prazer sem dor de antes virou o mal-estar de agora. Ovos de baixo valor. Ovos malditos. Vai ao médico. Examinado, descobre um tumor no estômago. É operado e salvo. Tudo graças aos ovos coloridos!

É difícil saber quais os termos iniciais da equação que envolve dores e prazeres. Qual o primeiro termo? A dor deste instante? E qual o último termo? Considerando que qualquer atitude pode ter desdobramentos infinitos, dependendo das relações de causalidade que fizermos o resultado de tal avaliação será diferente. Talvez apenas com raciocínios simplistas, considerando prazeres e dores imediatos, o critério de julgamento utilitarista seja aplicável sem dificuldades.