Somos Todos Canalhas

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 48 de 89

Páginas do PDF

Somos Todos Canalhas

Intervenção 12 Clóvis

Intervenção 12

Clóvis

 

O professor Júlio sabe do apreço que tenho pelo texto de Rousseau intitulado Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens, o qual não canso de citar. Nele, o filósofo suíço explica que o gato nasce sabendo viver como gato. Toda a sua vida será regida pelo instinto. Portanto, tudo no gato é instintivo. Não há a menor possibilidade de ele tomar uma decisão ou fazer uma escolha, porque a escolha na sua vida já é dada pela natureza. Cada movimento seu obedece a uma espécie de programa felino. E é por isso que ele morrerá de fome, mas não comerá alpiste.

O homem não seria assim porque tem condições de escolher e de tomar decisões. Não é 100% regido por seu instinto. Ele é capaz de exercer a sua liberdade justamente porque transcende a sua natureza. E por isso segura um pouco a onda das suas pulsões de vez em quando. Então, Rousseau tem aquela famosa frase: “No homem a vontade fala ainda quando a natureza se cala.” E a vontade é exatamente essa instância deliberativa, racional, inteligente, que nos faz ir um pouco além da nossa condição instintiva. Costuma-se dizer que o pássaro é livre para voar. Na poesia isso fica bonito. Mas na filosofia sabemos que não há nenhuma liberdade no gesto do pássaro em voo. Ele é escravo do voo, determinado pelo instinto de pássaro. Não há escolha. O voo não é resultado da deliberação, mas uma inexorabilidade da tirania da natureza.

A influência dessa antropologia de Rousseau em toda a filosofia de Kant é clara. Na Crítica da faculdade de julgar, por exemplo, livro que trata da estética, Kant propõe uma comparação entre a arte e o trabalho das abelhas na hora de produzir o mel. Para muitos, observa Kant, essa produção apiária é manifestação artística. E a justaposição dos favos de mel, uma autêntica obra de arte. Sinceramente nunca reparei direito se há alguma beleza nos favos de mel que sempre preferi degustar como goma de mascar. Acho que a arquitetura das casas do pássaro joão-de-barro é um exemplo muito melhor.

Kant, amparado em Rousseau, nos explica que chamar as coisas da natureza de obra de arte é uma impropriedade. A criação artística requer liberdade ausente tanto na abelha quanto no joão-de-barro. A natureza, a rigor, produz efeitos. Os animais são uma espécie de intermediários entre o seu instinto e o resultado da sua ação, mas intermediários mecânicos, instintivos, instrumentais.

É verdade que os produtos da natureza às vezes fazem lembrar uma obra de arte. Aí a gente se sente até tentado a utilizar esse termo para aquilo que é visto no mundo natural. Então, a geometria daquela produção das abelhas que encerra o mel é para muitos uma maravilha da natureza que competiria com as produções humanas. Mas o que Kant está tentando dizer é que a obra de arte não se define pelo resultado final da produção artística, e sim pela maneira como é engendrada pelo seu produtor artista. O resultado final dos movimentos da natureza pode ser um espetáculo de grande beleza, fazer gozar ou chorar. Mas não é esse o ponto. Ao se movimentar e transformar o mundo, as forças da natureza o fazem na inexorabilidade, regidas pelo princípio da necessidade. Isto é, necessariamente daquele jeito. A abelha e o joão-de-barro são meros instrumentos de uma programação natural, vítimas de suas próprias disposições instintivas.

Então, se compararmos o instinto e a inteligência humana, do ponto de vista da beleza de suas realizações, o primeiro pode superar o segundo.

Mas nas abelhas e no joão-de-barro, o resultado final da obra não é antecipado imaginativamente. Não há, portanto, uma representação do que será produzido e, portanto, não há uma escolha de meios para alcançar o resultado imaginado. Ambos vão fazendo e concluem o que estão fazendo regidos mecanicamente por suas naturezas. Já o homem antecipa o resultado final, entre várias alternativas de instrumentos, e escolhe a mais adequada para alcançar o resultado imaginado.

Tal proposta me faz lembrar de Miguel de Unamuno, no seu lindo livro O sentimento trágico da vida. Acabei de dizer que o homem antecipa o produto final da sua obra por meio de uma representação e o mesmo não acontece com os animais. Unamuno, então, indaga: como podemos saber? É apenas uma suposição. O autor tem uma célebre frase: “Quem garante que um caranguejo não resolve uma equação de segundo grau mais rápido do que nós?” E ele tem toda a razão. Como podemos afirmar que só nós temos competência imaginativa? De certa maneira, Kant aceita isso ao concordar que nada impede que um animal representa o resultado final da sua obra na imaginação. Mas observa que, no caso do homem, além dessa representação, há uma reflexão, uma consciência do procedimento, do protocolo, da ação, que conduz ao resultado final. E é essa consciência que Kant não aceita que possa haver na produção animal.

A discussão vai longe porque Miguel de Unamuno perguntaria de novo: “Quem garante que um animal, na hora de realizar sua obra, não tem plena consciência de cada gesto, de cada ação?” Quando você vê um joão-de-barro fazendo sua obra, que é a sua casa, com compartimentos internos, com divisórias, uma parte superior destinada às crias, quem pode garantir que na imaginação daquele pequeno animal não haja consciência dos gestos que levam àquele prodigioso resultado final?

Mas deixemos Unamuno para os provocadores. Empenhei-me em mostrar a herança de Rousseau em Kant. Para Kant, a produção de uma obra artística resulta da capacidade de decidir, de deliberar, de escolher meios para alcançar fins e, portanto, a obra de arte transcende a natureza, razão pela qual ela é um produto da vontade como queria Rousseau.