Somos Todos Canalhas

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 87 de 89

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Somos Todos Canalhas

Intervenção 4 Júlio

Intervenção 4

Júlio

 

Já que o colega citou a democracia, um breve relato pessoal. Minha infância coincidiu com a ditadura militar. No colégio, hasteava-se a bandeira toda segunda-feira. Todos nós tínhamos que cantar o hino nacional. Diziam que tínhamos de respeitar os símbolos nacionais. Ali eu entendi respeito como obediência, como submissão a regras. Regras de etiqueta sobre como se comportar diante da bandeira. Regras do uso e descarte da bandeira. E a tudo isso era necessário respeitar. Enquanto a bandeira subia, era preciso ficar de pé e cantar o hino nacional. Não se podia colocar as mãos nos bolsos. Elas podiam ficar pousadas sobre o coração, paralelas às linhas de costura da calça, como um soldado em posição de sentido, ou para trás. Respeitar a bandeira e o hino era isso. Conversar, correr, sentar-se, qualquer atitude diferente daquela que previa o protocolo era considerada desrespeito. Eu respeitava, ou melhor dizendo, obedecia. E para mim, cantar ou não cantar o hino era absolutamente indiferente. Aquilo não me entristecia. Também não me alegrava. Era algo com o qual eu tinha me acostumado. A bandeira também não me nutre afeto nem desafeto. Ela podia ter outras cores ou outro formato. Eu poderia respeitá-la do mesmo jeito. E aqui temos um conceito de respeito: obediência. Aceitação de uma regra. Submissão a um conjunto de normas. O respeito será uma atitude moral quando houver a possibilidade de não respeitar, quando houver a possibilidade de desobedecer à regra. Portanto, quando alguém diz “se comporte de forma correta diante da bandeira” apontando-lhe um fuzil e você o obedece e respeita a bandeira, esse respeito não é real. Não é respeito de fato. É uma submissão violenta. Não é moral.

Tolerância é diferente de respeito. Quanto aos efeitos, tolerar pode ser muito parecido com respeitar. Porém, na tolerância há um claro desafeto pela atitude tolerada, pela ação em conformidade com a regra tolerada. Exige-se uma atitude, um comportamento que é por algum motivo entristecedor, difícil de aceitar, mas ainda assim você o aceita. Isso é tolerância.

Dirigindo um automóvel no Brasil, ando na pista da direita. Respeito a regra de trânsito. Em alguns lugares, encontro mão inglesa e dirijo no sentido contrário, também por respeito à regra. Não me é particularmente ofensivo dirigir nem pela esquerda nem pela direita. Mas em outras circunstâncias da vida nós claramente nos posicionamos, nos manifestamos, afirmando que desejaríamos agir de determinada maneira, que se fôssemos tiranos do mundo e pudéssemos num toque de mágica organizá-lo de determinada maneira seria diferente daquela que outras pessoas organizariam. Discordamos, mas ainda assim respeitamos. Isso é tolerância. Tolerância no desafeto. E percebemos mais claramente a diferença naquelas circunstâncias em que a ação em conformidade com a norma é claramente exercida a partir de um desacordo, como numa discussão com alguém com quem não concordamos em absolutamente nada. Alguém que usa argumentos que nos são irritantes, mas com quem ainda assim mantemos o diálogo. Deixamos falar. Dizemos: “eu discordo de você.” Mas, apesar de essa discordância gerar um ódio profundo, ainda assim a aceito. E aceito o debate. Aceito a conversa. E até o cumprimento no final. Com tolerância. Tolerância sob esse aspecto pode ser menos do que o respeito. O respeito pode ser uma adesão e uma aceitação mais plena do outro, uma aceitação que não é resignada, na qual não há contraforça. De um certo ponto de vista, a tolerância pode ser encarada também como algo moral ou não moral. Da mesma forma que podemos obedecer por constrangimento, e alguém ainda querer chamar isso de respeito, com a tolerância isso talvez ocorra mais claramente. Dizemos que não gostamos ou não queremos obedecer a uma norma, mas ainda assim nos sentimos forçados a isso. Deixamos claro que obedecemos a uma regra somente pela falta de opção. E, portanto, isso não é necessariamente uma tolerância moral. É uma ação em desconformidade, uma ação forçada. O sujeito moral é quem nos obriga a desobedecer, não somos nós. Mas em outros tantos momentos discordamos e ainda assim agimos como quem concorda.

O que merece destaque é que tanto a tolerância quanto o respeito podem ser pensados como relações de poder em que algumas pessoas agem na expectativa de serem respeitadas – e, portanto, têm a expectativa de serem obedecidas, às vezes até mesmo sem que haja uma manifestação de contrariedade, como quando se exige de crianças diante da bandeira e do hino nacional posturas adequadas. Sem risinho. Sem chacota. Sem desalinhamento. Mas em outras circunstâncias essa relação de poder pode aceitar que as pessoas se manifestem de forma diferente, mas tendo a pretensão de que, apesar das diferenças de manifestação, estas não serão levadas a cabo. Haverá aceitação das pessoas na convivência mesmo com a diferença. Isso é tolerância. Em uma relação de poder baseada na tolerância, não há expectativa de que, uma vez manifesta a sua vontade, outros a ela se dobrarão. Mas há a expectativa de que outros aceitarão a sua opinião, aceitarão o direito que você tem de manifestá-la. E para que a relação de tolerância seja equânime, também nutrem a expectativa de que você aceitará a existência de pessoas que se manifestarão de forma contrária, pessoas que são diferentes, que não agem como você. Pessoas que não lhe obedecem.

Tanto o respeito como a tolerância são fundamentais para que exista vida social, existência compartilhada. Por outro lado, muitos conflitos sociais ocorrem em decorrência de atitudes tomadas em nome do respeito e da tolerância. Refiro-me a atitudes que associamos a autoritarismos, como a do policial que ameaça prender por desacato alguém que apenas pergunta por que ele está agindo de determinada maneira. Para a pessoa autoritária, até mesmo uma inocente pergunta já é intolerável. Tomada como afronta à sua autoridade, ela exige respeito, às vezes violentamente, sem tolerância para com o que julga ser desrespeito.

Mas há ainda outra ideia de respeito, menos normativa. Segundo esta, respeito não significa aderir à norma do outro, mas a uma norma de si mesmo. Pressupõe perceber a diferença, a discordância e aceitar o outro tal qual ele é. Significa ser religioso, fervoroso, crente radical, mas ainda assim aceitar o ateu como ele é, respeitá-lo, tratá-lo como igual sendo desigual, às vezes até se reprimindo, sem manifestar sua diferença. É, portanto, uma grande indiferença diante da diferença do outro. Como alguém que vê hastear a bandeira e canta o hino, mas é absolutamente indiferente se a bandeira sobe ou desce. Se o hino é o da República do Brasil, da França ou do Vasco. Com relação à tolerância se dá o mesmo. Podemos chamar a relação de aceitação do outro tal qual ele é, mas deixando claro ao outro que somos diferentes, que discordamos, que aceitamos conviver sendo diferentes. É também atitude de submissão, de convivência, mas que chamamos de tolerância porque há nela a aceitação da clara possibilidade da manifestação contrária, da existência divergente, da diferença.