Somos Todos Canalhas

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 45 de 89

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Intervenção 10 Júlio

Intervenção 10

Júlio

 

Eis a questão, Clóvis. Pode ser que algum leitor pense que a mudança de crença sobre a finitude do universo não passe de um problema estritamente físico, que não possa afetar nada além do modo como se observam as estrelas. Engana-se. A mudança de concepção de mundo funciona como uma espécie de princípio de organização do pensamento. Tomemos a política como exemplo. Tanto os antigos quanto os medievais representavam o mundo social e político como um cosmos fechado, de maneira que as diferenças sociais entre ricos e pobres, nobres e plebeus não eram consideradas como o efeito dos esforços individuais ou sorte na vida de cada um. Antes, era a consequência da natureza aristocrática assumir posições de relevância social e política, enquanto era da natureza plebeia a vida infame. O aristocrata o é por nascimento e natureza, assim como o plebeu também o é, sem mobilidade social. Mesmo casado com um aristocrata, o plebeu não muda completamente de status social. Nada muda. Nada pode mudar, pois o mundo seria um cosmos.

Com a mudança cósmica da modernidade, nascem também as representações da ordem social como consequência dos esforços individuais de cada um. Como somos de fato desiguais em talentos e esforços e como nos esforçamos por metas variadas, a ordem social propriamente dita é o resultado não de uma pré-concepção cósmica, mas de um embate de forças. Cabe outro exemplo matemático, lembrança das aulas do professor Carlão. A ordem social passa a ser pensada como a resultante da vários vetores. Cada vetor, uma força específica com direção específica. Vetores equivalentes e opostos se anulam. Vetores coincidentes são somados. Aqueles que interagem obliquamente geram resultante em uma terceira direção e intensidade. Assim a ordem social é a resultante de forças políticas e sociais ora antagônicas, ora coincidentes, ora diferentes, que geram uma terceira via social e política. Sem ordem cósmica, os valores sociais mudam segundo o ritmo das modas. O chique de hoje vira o brega de amanhã, assim como o valoroso de hoje transforma-se no inválido de amanhã.

Não é à toa que os primeiros moralistas e pensadores políticos modernos apelaram para a figura do contrato para explicar o novo ritmo da ordem social. Num contrato, partes concordantes criam suas próprias normas, ao contrário de uma ordem cósmica onde as normas do certo e do errado viriam do próprio cosmos, pré-concebidas e naturais, e não negociadas e artificiais. O erro contido no contratualismo é o de imaginar que a ordem social seja o efeito real de uma negociação – pessoas à mesa ponderando calmamente sobre o que consideram certo e errado. As normas e valores são criados, sim, mas não pela negociação ponderada e racional, e sim pelo embate de forças. Nietzsche propõe a guerra no lugar do contrato como imagem explicadora da ordem social. Como disse em um texto de juventude intitulado “Sobre a mentira e a verdade num sentido extramoral”, a verdade é a centelha que nasce do choque entre duas espadas. Podemos adaptar essa noção facilmente para a ideia de valor. Ele é a centelha no choque entre duas espadas. Fruto de embates vetoriais de ideias e forças sociais discrepantes e variadas. Como centelha, dura pouco, assim como a moda, sempre efêmera, natimorta, condenada à substituição por outra que nem sempre será melhor.