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Intervenção 4 Júlio
Intervenção 4
Júlio
Aproveitando a fala do colega, gostaria de enfatizar que a liberdade da qual se trata aqui não é a política, que talvez seja a forma mais comum de que ouvimos falar de liberdade. A liberdade política é tida como um baita valor. Valor pelo qual vale a pena matar e morrer. Valor sem o qual a vida não teria nenhum sentido. Mas a liberdade inaugurada pelo cristianismo aponta para o sentido existencial. A liberdade de poder existir de maneiras diferentes. A liberdade de não haver uma forma natural de existência e, portanto, uma única forma verdadeira de existência que excluiria todas as outras. O cristianismo inaugura uma espécie de eterno potencial revolucionário sobre a própria existência. Ninguém teria nascido para uma vida específica ou condenado a nenhuma existência. De tal maneira que nada impediria que Abelardo, materialista e impiedoso, se tornasse amanhã um espiritualista piedoso. Levado esse princípio à radicalidade, sem natureza existencial, nada impediria Abelardo, hétero, de tornar-se Shirley. Claro que há censuras sociais e religiosas a transformações existenciais como esta. Mas elas são apenas sociais, não uma limitação da natureza existencial. É impossível violar uma natureza inexistente.
A liberdade existencial tem um custo que faz com que ela seja muito diferente da liberdade política: a angústia, entendida como a incerteza sobre a vida a ser vivida. Sem uma natureza na qual nos espelhar, temos a angústia. Um exemplo: em restaurantes do tipo self-service, costumo fazer um planejamento estratégico do prato. Porque, apesar de num restaurante desse tipo você pagar por peso, ninguém monta prato por peso. Monta-se por ocupação de espaço. Enquanto houver porcelana à vista, coloca-se comida no prato. Aliás, é por isso que esse tipo de restaurante tem pratos cada vez maiores, atualmente atingindo o raio de um volante de Kombi. Para evitar um prato muito abilolado, primeiro eu observo tudo o que há à disposição. Uma vez concluída esta varredura, faço escolhas. Então, na execução desse método, flagro a feijoada. Quando a vejo, meu estômago dá pulos de alegria e diz: “Oh, é isso mesmo. Não precisa escolher. É feijoada. E completa!” Mas, fiel ao método, sigo adiante e encontro o sushi e o meu estômago também entra em festa. “Nossa, um sushizinho. Que maravilha!” Gosto muito de feijoada. Também gosto de sushi. Mas tenho um problema. Feijoada é bom, sushi é bom, mas os dois no mesmo prato não dá. É um limite existencial que eu tenho. Para mim, não é só indigesto, é ofensivo. Sou obrigado a escolher. O mundo me impõe limitações materiais. Mas ainda assim gozo de liberdade existencial. Posso existir hoje com feijoada no almoço ou posso existir hoje com sushi no almoço. Eis o momento da angústia. A incerteza. Se houvesse uma inclinação afetiva unívoca, se eu amasse feijoada e detestasse sushi, não haveria angústia. Se há angústia é porque os nossos afetos não nos direcionam de forma inequívoca para um modo de vida.
Aristóteles, por exemplo, crente na ideia de natureza como cosmos, apostava num tipo de afeto como norte existencial, a eudaimonia. Gosto da tradução deste termo como: o estado mais belo e perfeito de mim mesmo. Muitos o traduzem como alegria. Aquela vida que alegra porque é vida em conformidade com a natureza. Então, esse afeto positivo seria a pista de que teríamos encontrado o nosso lugar na natureza e estaríamos, portanto, vivendo bem, mas agora sem natureza. Angústia. E para nos livrarmos dela o cristianismo propõe um afeto: o amor. Amor que poderia nos permitir, tal qual aquele que ama alguma coisa, não pensarmos em outro. O homem que se apaixona por Maria teria como consequência do amor por Maria a exclusão de todas as outras. A mulher que se apaixona por Valfredo teria como consequência desse amor a exclusão de todos os outros homens. Para quem ama coxinha com catupiry, qualquer outra coxinha sem catupiry, qualquer outro acepipe que não coxinha com catupiry é quitute menor. O amor seria essa inclinação afetiva que nos liga a algo e exclui alternativas a ele. Portanto, ainda que não haja uma natureza, ainda que ela seja descartável, a angústia deixaria de existir como um afeto inequívoco. É o que o cristianismo diz: ame a moda cristã, porque o amor à moda cristã permite que a vida tenha sentido; que a vida não tenha angústia.