Somos Todos Canalhas

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 80 de 89

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Parte IV FIDELIDADE E TOLERÂNCIA

Parte IV

 

FIDELIDADE

E TOLERÂNCIA

Intervenção 1

Clóvis

 

Fidelidade é um valor, antes de tudo, porque tem a ver com a nossa liberdade de escolher como queremos viver e conviver. A fidelidade é valor que pressupõe uma relação entre o presente, instante em que vamos decidir o que fazer, e o passado, isto é, aquilo que já fizemos, dissemos, prometemos e oferecemos em garantia. Toda fidelidade, portanto, tem uma referência no pretérito, naquilo que já foi.

Ora, esse passado que serve de referência certamente não está à nossa disposição no mundo porque, como sabemos, o passado não é um tempo do mundo, não é um tempo da matéria, um tempo onde as coisas possam estar. O passado é um tempo da alma, do espírito, das atividades da mente. O que chamamos de passado nada mais é do que uma produção mental do presente a respeito do que já foi. O passado, portanto, é memória. Nada mais do que isso. Ausente na matéria e na natureza, mas fundamental na vida e no espírito do homem.

Ser fiel é servir-se do passado para deliberar sobre o presente. É servir-se da memória para deliberar sobre a vida de carne e osso. Ser fiel, portanto, é confirmar a própria história, a própria trajetória, as decisões de outrora. É usar o presente para atualizar um passado garantidor. É promover uma sintonia, um alinhamento entre o passado do presente e o presente do presente; entre aquilo que lembramos que aconteceu e aquilo que está por acontecer.

Fidelidade, respeito à memória, é condição da identidade. Afinal de contas, se tivermos por hábito negar a cada instante o imediatamente vivido, aceitando como completamente inédito a cada mitose e a cada meiose, evidentemente, estaremos destruindo toda possibilidade de continuidade entre o que já vivemos e o que estamos vivendo. Uma continuidade do “eu” que permanece por detrás da usura, da corrupção e da deterioração orgânica. Por isso, o respeito às decisões, aos discursos e também às condutas do passado é condição de uma crença compartilhada na existência de um “eu” que perdura. Condição da identidade, portanto.