Somos Todos Canalhas

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 40 de 89

Páginas do PDF

Somos Todos Canalhas

Intervenção 8 Clóvis

Intervenção 8

Clóvis

 

Vou pedir licença ao professor Júlio e convidar nosso leitor a um sobrevoo. Neste tipo de passeio perde-se em minúcia mas ganha-se em amplitude visual. Proponho um duplo contraste, entre a moral moderna e as duas anteriores: a cristã e a grega.

Há uma ruptura entre o pensamento moderno e o pensamento cristão, hegemônico por pelo menos dez séculos ao longo da Idade Média. A moral moderna é antes de mais nada laica. A reflexão sobre o comportamento humano é feita sem a intervenção de um Deus transcendente. Trata-se de uma moral nos limites da simples razão. Deslegitimam-se os argumentos de autoridade em proveito de um espírito crítico e de uma dúvida metódica.

No entanto, se há ruptura inegável, há também aproximação, pontos de tangência e grande influência de um pensamento sobre o outro. Para entender o quanto a liberdade trazida à baila pelo pensamento cristão influenciou a moral moderna, basta ler as primeiras páginas da obra Fundamentos da metafísica dos costumes, de Kant, talvez o mais influente filósofo moral de todos os tempos.

O autor observa que a única coisa que realmente vale por si mesma é a boa vontade. Esta última depende diretamente do uso livre da razão, de uma deliberação racional, tendo sempre o dever como referência. Essa boa vontade não se confunde, portanto, com desejos, simples inclinações e pulsões de todo gênero. Ora, se essa vontade é a única coisa que vale por si mesma, para Kant nada mais goza desta condição.

Inferimos assim que nenhum outro atributo que recebemos como talento ou dom natural pode ser considerado bom em si mesmo. A inteligência, por exemplo, pode ser usada para o mal, assim como a beleza. Tal como na parábola dos talentos, Kant nos propõe que a dignidade moral agora depende da atividade deliberativa da razão, do uso adequado da razão prática, que decide pela ação alinhada com o dever.

Muito mais nítida é a ruptura da moral kantiana face ao que já expusemos do pensamento grego. No que concerne nossa relação com o resto da natureza, por exemplo, há uma verdadeira inversão. Para os gregos o dever consistia em explorar a própria natureza no sentido da excelência. Já para Kant a moral decidida pela razão implica refrear todos os impulsos naturais que nos levem a agir em desalinho com o dever.

Aqui vale a pena chamar a atenção do leitor para uma coincidência curiosa entre estas duas concepções de moral. O esforço, a dedicação. Nenhum dos dois se contentaria com o Deus dará, como se diz. Ou se filiaria ao paradigma de Zeca Pagodinho e deixaria a vida levá-los simplesmente, em doçura, ao sabor da correnteza e da contingência dos encontros com o mundo.

No caso dos gregos, um esforço é fundamental para fazer desabrochar a própria natureza, sair de uma simples potência e atualizá-la em busca da excelência. É preciso muito empenho, treinamento, repetição, mecanização, conversão em hábito. Enquanto para os modernos é necessário um esforço para controlar a onda da natureza, para dominá-la e subjugá-la aos deveres definidos pela razão. Em outras palavras, a moral moderna requer sacrifício. Nadar contra a correnteza, contra as pulsões, os impulsos, os apetites. Os homens, portanto, aceitam a autolimitação exatamente por compreender que sua liberdade deve por vezes terminar onde começa a do outro. São guiados pela certeza de que o uso da razão que define a própria vida, a própria trajetória, a própria conduta, deve levar em consideração o outro.

Perceba que o que se pretende é uma substituição de referências. Para os gregos o cosmos que nos é exterior nos serve de parâmetro para definir a melhor conduta, a melhor trajetória, a melhor vida. No ponto em que estamos da história do pensamento busca-se uma nova referência que já não é exterior a nós, e sim interna, que não tem a ver com a ordem do mundo, mas com nossa liberdade pensante. Liberdade que nos autoriza a agir para além da nossa natureza.

Poderíamos então sugerir a ideia de um novo cosmos, agora não mais constituído por astros, ventos, marés e movimentos de corpos que nos circundam, mas sim fundamentado em nossa deliberação intelectiva, em nosso pensamento. É um cosmos que Kant denominará de reino dos fins – o mundo engendrado por decisões e ações livres dos indivíduos, respeitadoras das outras pessoas.

Destaca-se que este respeito pelo outro não tem nada de natural, porque nossa natureza seria voltada para nós mesmos. E toda consideração do outro implicaria sacrifício. Um esforço sobre si mesmo. Uma vontade que nos descola de nossa natureza egoísta, autocentrada, regida por princípios de autossatisfação e gozo.

E para que consigamos, segundo a nova referência do reino dos fins, nos descolar da nossa natureza egoísta, é preciso que esta nova grade de definição de valores se traduza e se imponha sob a forma de um imperativo, de um dever. E você questionará: “Como assim um imperativo se estamos falando de liberdade?” Sim, um imperativo decidido pela própria liberdade. Uma regra que decidimos respeitar por princípio, ou seja, livremente.

Isso significa que nós mesmos nos impomos um certo padrão de comportamento na mais estrita liberdade. Passamos a ser respeitadores daquilo que livremente decidimos para nós. Portanto, não há nenhuma incompatibilidade entre liberdade e imperativos. Eu, na mais estrita liberdade, decido que em qualquer momento da minha vida, independentemente dos desejos do momento, independentemente do tempo transcorrido desde a última vez que fiz sexo, da última vez que dei uma beijoca, decido que... E aí vem um imperativo derivado da liberdade.

E por que a necessidade de um imperativo ou de um dever? Porque justamente esse respeito pelo outro nada tem de natural. Justamente porque ele não é uma obviedade, uma evidência. Justamente porque se deixássemos a vida nos levar, se deixássemos a coisa correr solta, se não nos vigiássemos invariavelmente, nos deixaríamos escravizar por nossos apetites, pela busca daquilo que carece ao nosso corpo. Assim a boa vontade resulta de um esforço intelectual que transcende as inclinações da natureza e que almeja uma convivência de respeito pelo outro com base em princípios que são, de um lado, com pretensão de universalidade e, de outro lado, desinteressados.