Somos Todos Canalhas

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 88 de 89

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Intervenção 5 Clóvis

Intervenção 5

Clóvis

 

O Júlio falou na bandeira e na ditadura militar. Valeria a pena lembrar que existem duas formas de um grupo se impor como dominante frente a outro. A primeira, mais imediata e mais recorrente no imaginário ficcional televisivo de todos nós, é pela força física, pela força militar, pela força bruta. Quando a ditadura se funda nesse tipo de recurso denomina-se despotismo, forma primitiva e pouco eficaz de conservar uma relação de dominação. Requer o uso ininterrupto da força física. Supõe poder usá-la todo o tempo, sem fragilidade momentânea ou repouso.

Há uma segunda forma de dominar, sem recorrer à violência física. Nesse caso, o dominado não discute. Não discutindo, não é preciso ameaçá-lo ou socá-lo. Aqui a dominação se sustenta numa certa presunção compartilhada de verdade, uma ideia entendida como indiscutível por todos, dominantes e dominados. E quando a dominação se dá pela certeza de uma verdade, nós a chamamos de totalitarismo.

Portanto, uma ditadura poderá ser despótica quando segura na porrada e totalitária quando segura no dogma. É verdade que são tipos ideais. Não haverá despotismo puro no mundo de carne e osso. Tampouco totalitarismo puro. Toda verdade pressupõe alguém garantindo, em última instância, a ordem em cima de um desavisado que não entendeu nada. E todo despotismo, por mais rudimentar e truculento que possa ter sido, recorre a uma ou outra ideia de estilo nacionalista no naipe de “ame-o ou deixe-o” para não precisar bater em tanta gente assim. E é exatamente por isso que todo totalitarismo é a tradução política de uma intolerância. Porque evidentemente os discordantes da verdade que funda a relação de dominação são uma pedra no sapato cuja voz é preciso calar com urgência.

A segunda observação que eu queria desfazer a partir da fala do professor Júlio diz respeito à própria diferença entre a verdade e o valor ou, se preferirem, entre juízo de fato e juízo de valor. Naturalmente, quando você diz “a folha da árvore é azul” há nesse juízo a possibilidade de uma confrontação com a realidade que se apresenta do lado de fora da janela.

O juízo de valor, em contrapartida, não se submete a essa confrontação. Até porque se eu digo que isso deve ser assim ou assado estou me referindo a um dever ser que escapa ao mundo dos fatos e das realidades. Difícil considerá-lo verdadeiro ou falso. Ao afirmar que a sociedade pautada pela liberdade do mercado só tornará cada vez mais aguda a desigualdade de distribuição de renda e que, portanto, devemos rumar para uma sociedade que garanta uma melhor distribuição de renda por intermédio de uma tributação eficaz, é muito difícil crivar essa sugestão como verdadeira ou falsa. Ela poderá ser pertinente ou impertinente em função deste ou daquele argumento de plantão. E é exatamente por isso que chegamos à constatação de que os valores são complexos. Daí a questão da tolerância e da intolerância ser assunto tão importante.

Os valores são complexos exatamente porque se apresentam como referências por vezes contraditórias que se anulam, que apontam para soluções práticas opostas. Essa complexidade nos dá a chance de escolher, de deliberar individual ou coletivamente, moral ou eticamente, sobre os valores que queremos respeitar. É uma escolha sempre difícil porque, para identificar que valor vale mais, talvez precisássemos de alguma verdade absoluta, uma referência que estivesse no topo da pirâmide e que fosse garantida como fundamento. Talvez por isso muitos tenham dito que sem Deus fica difícil pensar em moral. Se entendermos Deus como o topo dessa pirâmide indiscutível, aí talvez a afirmação faça algum sentido.

Assim a transparência hoje é valor da moda. Todos sabem de tudo sobre todos o tempo inteiro e em qualquer lugar. As empresas e os governos seriam verdadeiras “casas de vidro”. E de fato por conta dessa transparência a convivência melhora em muitas situações. Afinal, diminuem os privilégios, o cinismo, a hipocrisia, as mentiras e as preferências indevidas.

Mas o leitor há de concordar que num jogo de cartas a primeira lição é não mostrá-las. O sucesso de uma estratégia depende da ignorância por parte do adversário dos recursos de que dispomos. E se no jogo de cartas é assim, no jogo do mercado também. Ninguém vai sair com um projeto que carrega a esperança de quebrar as pernas do principal concorrente e levá-lo à sua ciência seis meses antes da implantação em nome da transparência. Isso não é transparência, diriam alguns. É burrice ou canalhice. Paga-se com demissão por justa causa.

É por isso que a transparência é valor, mas o sigilo também o é. Exemplo magnífico da complexidade e da dificuldade que temos de enfrentar quando falamos em valores. A intolerância pressupõe, portanto, exatamente a ignorância da complexidade. Seja a ignorância de boa-fé, intelectual, própria de quem refletiu pouco ou foi mal-instruído, seja a ignorância da truculência. Sei que existe complexidade, mas o mundo será regido pela minha cartilha, a cartilha do dogma. A minha alegria triunfando sobre a alegria de todos. A minha felicidade como norma universal de existência.