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Intervenção 3 Clóvis
Intervenção 3
Clóvis
Se me permite, Júlio, gostaria de retomar a ideia de gabarito, da referência da prova realizada pelo aluno, que permitirá ao professor atribuir-lhe um valor mediante comparação. Mas aprovar ou reprovar alunos é apenas um exemplo de atividade que requer atribuir valor às coisas do mundo. E quanto ao resto? Se o leitor refletir um pouco verá que não faz nada sem supor o quanto as coisas valem. Assim, com que roupa eu vou no samba que você me convidou? Meio de transporte coletivo, próprio, táxi? Com quem? Sozinho ou com alguém? Uma boquinha antes? Os exemplos de ações que requerem discernir o valor disto ou daquilo vão ao infinito.
Se a prova do aluno tem o seu gabarito, podemos supor que o resto das coisas também tenha os seus. Gabarito de churrasco, de pagode, de indumentária, de transporte etc. Um gabarito específico para cada coisa. Perceba que estamos na mais estrita particularidade. Um abajur qualquer tem o seu valor definido a partir de uma comparação com um gabarito de abajur. Para cada sombra dentro da caverna, uma realidade que projeta a sombra. Para cada coisa no mundo, uma ideia. Uma essência. Uma forma perfeita.
Mas veja: todas as provas da classe são contrastadas a um só gabarito. Há, portanto, uma redução, uma conversão de plural em singular, de múltiplo em uno. Da mesma forma, abajures diversos no mundo das coisas sensíveis seriam confrontados com uma única ideia de abajur. E assim para tudo que é particular. Mas como ter certeza a respeito deste gabarito?
Temos que subir degrau por degrau. Estamos na fase de uma única ideia de abajur para uma infinidade de abajures particulares. Essa ideia de abajur não pode estar solta. Ela está no mesmo nível da ideia de guarda-chuva. E essas duas, por sua vez, estão amarradas a uma ideia que lhes é superior.
Assim, é preciso encontrar uma ideia para todas as coisas, que por sua vez estará amarrada a ideias do que não são coisas. Desta forma, tudo no mundo vai se reunindo em torno de três grandes referências: a verdade, a beleza e o bem. E, por sua vez, as ideias de verdade, de bem e de beleza estariam amarradas a uma ideia fundamental que é a ideia de Ser. Saímos, então, do abajur flagrado pelos sentidos no canto da sala e chegamos à ideia de Ser à qual o abajur sensivelmente percebido está amarrado de alguma forma.
Ora, essa pirâmide, que sai do particular, do plural, do finito, do transitório, do sensível, e chega ao uno, ao imutável, ao inteligível, indica um percurso intelectual. Indica também que, no final das contas, a ideia de Ser está presente nas ideias de verdade, de beleza e de bem. A ideia de verdade está presente na ideia das coisas perfeitas, das formas perfeitas. A ideia de beleza está presente na ideia dos corpos perfeitos. E a ideia de bem está presente na ideia das condutas perfeitas. E, assim, na hora de atribuir valor às coisas vistas no mundo, temos uma grade bem-amarrada numa verdadeira hierarquia piramidal, de tal maneira que o valor de uma coisa depende de um juízo, de uma investigação intelectual de que somos capazes, que podemos realizar. E realizando essa operação com correção, todos devemos chegar ao mesmo valor desta coisa. Porque as ideias de verdade, de bem e de beleza, bem como a ideia de Ser, são obviamente universais. Aplicam-se a qualquer um no tempo e no espaço, na história e na geografia. Portanto, todos os que pensarem bem chegarão ao mesmo valor das coisas. Todos os que pensarem bem atribuirão o mesmo valor às coisas. O verdadeiro valor. Um valor exato, indiscutível. Um valor que se impõe a todos nós.