Somos Todos Canalhas

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 43 de 89

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Intervenção 9 Júlio

Intervenção 9

Júlio

 

O exemplo da mãe que amamenta o seu bebê trouxe à tona a lembrança de uma colega que pesquisava maternidade. Uma das atividades da pesquisa era conversar com mães de crianças que possuíam uma doença genética incapacitante, crianças que por causa dessa doença requeriam cuidados constantes pelo resto da vida. Era como ter em casa uma criança doente pelo resto da vida, com noites em claro pelo resto da vida. A essas mães era informado que essa doença genética era transmitida pelo DNA mitocondrial, que vem da mãe. Portanto, eram mães que muitas vezes se sentiam culpadas por terem trazido ao mundo crianças com esta condição. Mas quando elas falavam de como era sua vida cuidando daquela criança, sempre destacavam o amor que sentiam pela filha ou pelo filho. “Uma criança que eu amo muito. Minha vida mudou completamente por causa dela. Não importa que ela seja assim. O que importa é que amo essa criança do jeito que ela é”, diziam as mães.

A entrevista continuava com outras perguntas. Uma das últimas era: “Você quer ter outro filho?” A essas mães também era informado pelos médicos que a chance de gerar outro filho com essa mesma doença é de 50% – um risco altíssimo em termos estatísticos. Todas elas diziam: “De jeito nenhum. Não quero ter outro filho.” É uma condição curiosa porque por um lado afirmavam amar os filhos e que o nascimento deles era a melhor coisa que tinha acontecido em suas vidas, mas quando perguntadas se elas se aventurariam a ter outro filho, mais um dessa coisa maravilhosa que acontecera nas suas vidas, coisa maravilhosa em dobro, sem titubear respondiam não.

Quando se referiam ao amor nas primeiras perguntas, falavam em conformidade com determinadas normas sociais que dizem que mãe tem que amar os filhos. Amor por obrigação. Amor que é lei imposta. Por outro lado, quando se requeria alguma manifestação típica desse pensamento, desejar outro filho, por exemplo, a resposta era de desamor afetivo por aquela situação. Então, em muitos casos, há no amor uma espécie de conversão desse afeto em norma. No caso desse exemplo, uma conversão numa norma social. Mas essa conversão acaba gerando como resultado para aquelas mães ações em conformidade com o amor. Ainda que sofram pela condição do filho e dela própria, ainda que não tenham de fato um afeto amoroso pelo rebento, agem como quem afetivamente ama.

Em resumo, o amor é um sentimento e, como sentimento, basta para direcionar nossa conduta. Diante dele, as regras são dispensáveis. Se todos nós nos amássemos, não precisaríamos de regras que punissem os comportamentos agressivos. Não precisaríamos de código penal dizendo que homicídio é crime. Não precisaríamos de tantas leis regulamentando tantas coisas. Se as temos é porque esse amor incondicional pelo outro nos falta. E em nos faltando são necessárias as leis. Nietzsche acreditava – com razão – que as leis não são as virtudes de um povo, mas o rol de suas iniquidades.

Quando agimos em obediência às leis, e não por um afeto, não por uma disposição legitimamente afetiva, mas por uma escolha moral, talvez não sejamos merecedores da salvação divina, mas somos merecedores de aplausos sociais. Somos merecedores da não intervenção punitiva das leis penais, por exemplo. Essas normas que obedecemos não são atitudes amorosas, mas traduções normativas do amor. A pessoa que obedece uma norma só porque é norma, por uma escolha moral, e não por um afeto, age inequivocamente como quem ama. Portanto, tem-se aí nessa norma uma espécie de moral de imitação. Moral que não se confunde com o sentimento, mas que nele se orienta. O amor é o norte da bússola moral.