Somos Todos Canalhas

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 71 de 89

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Intervenção 8 Júlio

Intervenção 8

Júlio

 

É preciso esclarecer, Clóvis, que a educação que permite experimentar os prazeres superiores não é aquela que aponta, item a item, o que é valioso e o que não é. Não se trata de simplesmente dizer que a música de Mozart é mais valiosa do que o funk da moda. Isso é doutrinação, dominação pelo gosto. A educação para a fruição dos prazeres de mais alto nível visa à autonomia intelectual. Com autonomia é possível compreender as coisas e o prazer a elas inerente. É possível construir ou fantasiar com mais riqueza. Voltando ao caso da música, seria o caso de usar Mozart ou o funk não para rotulá-los e classificá-los, mas para entendê-los, ensinar a perceber suas nuances, suas características, seus significados e rituais. Entendê-los, e não apenas decorar o modo como são classificados.

Na falta de recursos intelectuais, educacionalmente adquiridos e desenvolvidos, o que resta é a imitação, adesão irrefletida à moda. Vida sem autonomia intelectual cujo único prazer desloca-se da percepção fantasiosa produzida pelo indivíduo para o aplauso da massa. Não é à toa que estes tempos de educação em baixa, de verdadeira aversão a tudo que lembra atividade intelectual, também são tempos de uma autoexposição inédita. Tempos de privacidade em baixa, fora de moda. É curioso como em menos de cinquenta anos passamos de uma ordem social em que os prazeres eram reservados a espaços íntimos, para poucos, para uma ordem em que os prazeres devem ser fotografados e compartilhados com milhões de espectadores. Antes, o prazer do jantar sofisticado. Agora, o prazer de contar ao mundo sobre o jantar sofisticado. Prazer dos joinhas ou likes do Facebook – como se o jantar perdesse o seu valor como experiência e adquirisse valor como elemento de exposição, como atrativo de aplausos sociais, estes, sim, definidores do prazer.