Somos Todos Canalhas

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 24 de 89

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Intervenção 12 Clóvis

Intervenção 12

Clóvis

 

Para os gregos, o valor de beleza, a definição do belo e as características de uma obra de arte têm como referência o cosmos. Tal como os valores morais. Para o pensamento grego, o belo se define a partir de uma suposta harmonia com o universo cósmico. E, portanto, toda atribuição de valor de beleza de obras humanas e corpos deverá ser realizada tendo o cosmos como referência.

A arte grega é a encarnação num material sensível qualquer das propriedades harmoniosas desta ordem do mundo. O artista é aquele capaz de codificar a harmonia cósmica num pedaço de maneira, de mármore, em ondas sonoras, em texto, em tela. Em outras palavras, a obra de arte é a tradução do cosmos num pequeno pedaço de matéria. Esse trabalho de codificação se objetiva inicialmente numa redução. A finitude do universo sendo representada na finitude de um pedaço de matéria. E o pedaço de matéria dando conta de apontar para o todo ordenado do mundo, estando no lugar da ordem cósmica.

Nesse sentido, toda obra de arte, dentro da perspectiva grega, é um microcosmos. A própria harmonia do cosmos em dimensão reduzida ou concentrada, simbolizada num objeto particular. A título de exemplo, a arquitetura grega é simétrica porque a simetria nada mais é que uma tentativa de representação da harmonia cósmica. Assim também se desenha a preocupação dos gregos com a exuberância física dos corpos, sobretudo masculinos. Também é uma preocupação fazer do próprio corpo um microcosmos.

Vale a pena observar que, tendo o cosmos como referência, a beleza de qualquer coisa é uma beleza objetivamente identificada. Se algo simboliza com correção e pertinência o todo, é belo; caso contrário, não. Infere-se daí que a beleza das coisas do mundo, das produções humanas e das obras de arte nada tem a ver com as boas sensações de seus observadores. Tampouco com o gosto ou com a alegria – alegria que eventualmente a obra de arte desperta em quem a contempla. Porque a beleza da criação artística está na sua relação com o universo, e não na sua relação com um eventual observador. A beleza da obra de arte está contida objetivamente nela mesma. É um valor que lhe é imanente.