Somos Todos Canalhas

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 84 de 89

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Intervenção 3 Clóvis

Intervenção 3

Clóvis

 

Penso que a fidelidade enquanto respeito ao passado e à memória é condição da confiança. Só o fiel é digno de confiança. E por quê? A confiança é sempre uma certeza. Uma certeza do pensamento. Produção do intelecto que tem por objeto alguma coisa muito específica. A confiança é a certeza sobre coisas que não podemos nem demonstrar nem verificar. Digamos que ela é uma certeza na impossibilidade da confirmação imediata. Ora, não sendo possível a demonstração, a verificação ou qualquer tipo de comprovação, de onde viria essa certeza? Pois muito bem – ela resulta de uma trajetória compartilhada, de um passado, de um respeito às experiências já vividas. Essa certeza tem como forte premissa certa conservação das coisas.

É preciso destacar que a confiança tem importância ética quando a certeza tem por objeto o comportamento do outro. Haverá muitas confianças que não são isso. Eu posso ter certeza agora, às 16 horas, que o sol vai se pôr. Essa certeza decorre de certa trajetória no mundo. Trata-se do respeito às experiências já vividas com o astro-rei. Mas essa certeza não tem importância ética nenhuma.

A confiança é eticamente relevante quando tem por objeto o que as pessoas que estão por perto podem estar fazendo ou poderão vir a fazer. E a confiança é fundamental porque quase nunca podemos verificá-la. Porque aquele em quem confiamos vai agir amanhã, no futuro. É o caso de quem contrai matrimônio para a vida inteira. Mas a vida inteira irá ser vivida a partir dali. E o que a pessoa vai fazer amanhã é de verificação impossível. Portanto, sobra apenas a confiança ou a desconfiança. Mas também as condutas concomitantes, aquelas que estão no mesmo tempo de quem confia, muitas delas de verificação e confirmação impossível. Afinal de contas, não podemos estar em vários lugares ao mesmo tempo e, portanto, quase tudo que acontece escapa à nossa verificação e confirmação. Só nos resta mesmo confiar ou desconfiar.

Ora, essa certeza a respeito do comportamento do outro pode resultar de um passado compartilhado, e nesse caso teríamos uma confiança de primeiro grau, imediata. Meu primo sempre agiu dessa forma, então eu confio que ele agirá da mesma maneira agora ou amanhã. Há nesse tipo de confiança uma pessoalidade garantidora dessa permanência. Mas essa não é a única forma de confiança nas pessoas que pode existir. Se assim fosse, toda relação teria que começar na mais absoluta desconfiança. Na ausência de um passado compartilhado, a confiança seria impossível. Deveria haver uma desconfiança de princípio. E não é o que acontece. Pelo contrário.

Se alguém que você nunca viu e, portanto, com quem nunca compartilhou experiências te disser que se chama Antônio Carlos e é mecânico, você tenderá a supor a veracidade dessa afirmação. Quando você entra numa aeronave, muito embora nunca tenha visto o comandante, tampouco as aeromoças, você não pede para verificar a turbina ou solicita o diploma de pilotagem para o comandante. Você presume que o que está sendo implicitamente afirmado ali é verdadeiro. Portanto, existe uma confiança genérica, impessoal. Essa confiança é fruto de uma fidelidade presumida, mesmo em relação com pessoas com quem não tenhamos a garantia de experiências comuns.

Portanto, sustentamos aqui que, sendo a confiança uma espécie de reflexo da fidelidade genérica e presumida ou fidelidade pessoal e historicamente compartilhada, ela não é enquanto tal um valor, e sim consequência de um valor. Porque só há valor quando há liberdade para deliberar. Nesse sentido, a escolha não está em confiar ou não confiar. A escolha está em ser fiel ou não ser fiel. Tanto é assim que muitas vezes gostaríamos muito de confiar em quem não confiamos mais. Ou então confiamos em quem deveríamos desconfiar.

A verdade é que a confiança é uma certeza que se impõe à nossa vontade e não resulta dela, diferentemente da fidelidade. Esta, sim, é objeto da nossa escolha, referência que podemos usar para a nossa vida ou não. Afinal de contas, ser fiel ou infiel está nas suas mãos. Confiar ou desconfiar está nas mãos de quem é digno ou não desta confiança.