Aqui, Agora, Sempre
Prólogo
Manchester, Inglaterra,
2006
À s vezes a vida pega o que tem de melhor e de pior para oferecer e joga tudo junto em cima de você num mesmo dia. Essa talvez não seja uma conclusão rara durante um parto, mas, no meu caso, não foi o coquetel comum de sofrimento e felicidade que me fez chegar a ela. Apesar de finalmente estar prestes a conhecer o humano minúsculo que compartilhou meu corpo durante nove meses, aquelas oito horas torturantes também foram usadas para tentar falar com o pai dele pelo celular – para arrancá-lo de qualquer bar, boate ou mulher em que ele tivesse se metido.
– Você se lembrou de trazer suas anotações, Jessica? – perguntou a parteira quando cheguei sozinha ao hospital.
– Estou com elas aqui. Foi meu namorado que perdi, esqueci onde botei – eu disse, com um sorriso de quem se desculpa.
Ela me espiou por baixo dos cílios, sem levantar a cabeça, quando debrucei sobre a mesa da recepção da ala da maternidade, esperando a lancinante dor da contração passar.
– Tenho certeza de que ele chegará logo. – O suor escorria pela minha nuca. – Deixei algumas mensagens para ele. – Doze, para ser exata. – Ele está num evento de trabalho. Não deve ter sinal por lá.
Nesse ponto, uma parte de mim ainda esperava que isso fosse verdade. Eu estava sempre disposta a ver o que havia de bom em Adam, mesmo diante de evidências contrárias.
– Não costumávamos admitir homens aqui – ela lembrou. – Por isso, se precisarmos começar sem o papai, não haverá problemas.
Papai. Eu não podia negar os fatos biológicos, mas o título soou errado aplicado a Adam.
A parteira tinha aparência matronal, que inspirava confiança, pernas fortes, seios sobre os quais se podia equilibrar um vaso de planta e o tipo de cabelo que havia passado a noite em rolinhos de esponja. O nome na plaquinha era Mary. Conhecia Mary havia mais ou menos três minutos e já gostava dela, o que era bom, porque ela estava prestes a examinar o colo do meu útero.
– Venha, linda, vamos para um quarto.
Fui pegar a mala que o motorista do táxi ajudara a carregar, mas ela se inclinou e agarrou a alça, admirada com o peso.
– Quanto tempo você pretende ficar? – ela debochou, e eu fiz o melhor que pude para rir, até perceber que outra contração estava a caminho.
Fiquei lá em agonia muda, apertando os olhos e determinada a não ser a mulher que apavorava todo mundo berrando até não poder mais.
Quando a dor diminuiu, segui Mary lentamente pelo corredor feericamente iluminado e peguei o celular para verificar de novo se havia mensagens. Vi uns doze textos da minha mãe e de Becky, minha melhor amiga, mas ainda nada de Adam.
Não era para acontecer assim.
Eu não queria ficar sozinha.
Por mais que tivesse me preocupado com o nosso relacionamento nos últimos meses, eu também nada havia feito para tê-lo comigo, segurando minha mão e dizendo que tudo ia dar certo.
Descobri que estava grávida um dia depois do meu aniversário de vinte e dois anos. Não foi planejado, mas me convenci nos nove meses seguintes de que eu seria uma mãe confiante. Isso de repente pareceu uma bravata inconsistente.
– Tudo bem, querida? – perguntou Mary quando chegamos à porta da sala de trabalho de parto.
Fiz que sim com a cabeça, apesar de não ser verdade. Mesmo em suas mãos capazes eu me sentia sozinha, apavorada, e certa de que essa sensação ia continuar até Adam chegar e cumprir seu dever de secar minha testa e segurar minha mão.
A sala era pequena e funcional, tinha cortinas finas estampadas que davam um ar de cadeias de hotéis antiquados. O céu estava da cor de melaço de cana, preto e impenetrável, e a lua perolada se escondia no escuro.
– Deite aqui – disse Mary, dando tapinhas na cama.
Segui suas orientações, deitei de costas e abri as pernas. Ela então declarou friamente, “entrando”, e enfiou a mão nas minhas partes, fazendo com que meus olhos saltassem das órbitas e eu perdesse a capacidade de respirar.
– Dilatação de quatro centímetros. – Ela endireitou as costas, sorriu e tirou a luva de látex enquanto a contração começava a apertar. – Você está em trabalho de parto, Jessica.
– Que emoção – respondi, educada demais para mencionar que aquilo não era nenhuma revelação, porque eu já havia batizado o chão da minha cozinha com líquido amniótico horas antes.
– O melhor a fazer é usar a bola de parto e deixar a gravidade nos ajudar. Vou dar uma olhada na paciente ao lado, mas não hesite em usar a campainha para me chamar. Tem mais alguém que possa vir ficar com você? Uma amiga? Ou sua mãe?
Becky não morava longe, mas mamãe era sempre a única opção, por mais humilhante que fosse ter de ligar e explicar que Adam estava ausente.
– Minha mãe está de prontidão. Se eu não tiver notícia do meu namorado até as duas da manhã, ela vem para cá.
– Excelente – disse ela, e me deixou sozinha com a minha bola pula-pula sem os seguradores, um iPod cheio de músicas de Jack Johnson e uma máquina de gás e ar que eu tinha esquecido de perguntar como usar.
Liguei para mamãe às duas em ponto. Ela chegou seis minutos depois, de calça jeans justa e uma blusa de linho macio, com a fragrância de Beautiful, de Estée Lauder, no pescoço. Carregava uma enorme sacola de ginástica que continha seu kit-parto de última hora. Consistia em uma câmera compacta de vídeo, um travesseiro de pena de ganso, um tubo de pasta de dentes, uma revista Woman & Home, um pouco de creme para as mãos Neal’s Yard, um punhado de uvas, dois potes Tupperware grandes com uma seleção de bolos recém-feitos, algumas toalhas cor-de-rosa e... não estou brincando... um brinquedinho de berço.
– Como você está? – ela perguntou ansiosa, arrastou uma cadeira e prendeu uma mecha do cabelo louro e curto atrás da orelha.
Ela usava uma maquiagem muito suave e discreta, tinha pele boa, por isso nunca precisou de muita, e seus olhos azuis brilhantes estavam luminosos.
– Bem. E você?
– Estou ótima. Aliás, muito feliz de estar aqui.
O pé dela batia na cama enquanto ela falava, e aquele som metálico ecoava no quarto. Mamãe sempre mantinha a lucidez numa crise, mas eu estava notando uns tiques nervosos ultimamente. Naquela noite, sua perna tinha vida própria.
– Você não pode ter levado só seis minutos da sua casa para cá – eu disse, tentando sugar o gás e o ar pela primeira vez e acabei tossindo, irritando a garganta.
– Estava no estacionamento desde a meia-noite. Não queria ficar presa no trânsito.
– Ah, se Adam fosse tão prestativo assim... – resmunguei.
O sorriso dela falhou.
– Você tentou enviar uma mensagem de texto para ele de novo?
Fiz que sim com a cabeça e procurei esconder toda a minha irritação.
– Enviei, mas evidentemente alguma coisa era mais importante do que estar aqui.
Ela estendeu a mão e apertou meus dedos. Mamãe não estava acostumada a me ver ressentida. Eu raramente ficava zangada pra valer com qualquer pessoa ou coisa, excetuando talvez a droga da nossa banda larga.
Mas você não saberia disso naquela noite.
– Odeio ele – choraminguei.
Ela balançou a cabeça e alisou minha mão com a ponta dos dedos.
– Não odeia não.
– Mãe, você não sabe a metade do que tem acontecido ultimamente. – Eu temia contar para ela porque isso romperia a bolha, a ideia de que minha vida em família com Adam jamais seria comparável à que ela e papai haviam me dado. Eu me lembrava da minha infância como um tempo abençoado: seguro e feliz, mesmo considerando alguns períodos difíceis que agora estavam todos no passado.
Ela suspirou.
– Está bem. Mas não fique nervosa com isso agora. Você não viverá este momento de novo. Está com fome?
Ela abriu um dos potes de Tupperware.
Consegui sorrir.
– Está falando sério?
– Não está? – ela disse, surpresa. – Eu estava morrendo de fome quando tive você. Comi metade de um bolo de limão antes da água acabar de escorrer.
Minha mãe era uma companheira de parto brilhante. Ela me fez sorrir entre contrações, me manteve calma até tudo ficar tão fora de controle que não consegui resistir e gritei.
– Por que não te deram alguma coisa para a dor? – ela disse baixinho.
– Eu disse que não queria peridural. Fiz um plano de parto natural. E eu fiz... ioga.
– Jess, você está tentando expulsar outro ser humano pela sua vagina, acho que precisa de bem mais do que exercícios de respiração e uma vela.
E afinal ela estava certa. Quando eu vomitei pela enésima vez, sentia uma agonia tão incompreensível que teria chupado um cano quebrado, se tivesse algum. Um sol fraco apareceu embaçado na janela e outra parteira, que devia ter se apresentado mais cedo, quando minha cabeça se ocupava de outras coisas, se abaixou para me examinar.
– Sinto muito, meu amor, mas você está adiantada demais para uma peridural. Pode tomar uma injeção de petidina, se quiser, mas esse bebê vai nascer logo, logo.
Minhas pernas começaram a tremer descontroladamente, a dor tirou meu fôlego, sequestrou minha capacidade de falar direito e de pensar racionalmente.
– Eu só quero o Adam aqui. Mamãe... por favor.
Ela se atrapalhou com o celular freneticamente para tentar ligar para o número dele. Mas deixou cair o aparelho, xingou a própria falta de jeito e se arrastou no chão, caçando o objeto como se fosse um sabonete na banheira.
O que aconteceu depois disso é vago porque eu não estava concentrada em telefonemas, nem na agulha na minha coxa. Estava delirante com a terrível e milagrosa força do meu corpo.
Foi mais ou menos um minuto e três contrações depois de a petidina ter sido administrada que meu bebê chegou ao mundo.
Ele era deslumbrante, meu menino, com pernas e braços rechonchudos e uma expressão perplexa piscando e enrugando todo o rostinho quando foi posto nos meus braços pela parteira.
– Oh, meu Deus – mamãe exclamou. – Ele é...
– Maravilhoso – sussurrei.
– Enorme – ela comentou.
Sempre pensei que bebês recém-nascidos fossem delicados e indefesos, mas William era um lutador de quatro quilos. E ele não chorou, não naqueles primeiros minutos, ele só se aconchegou na curvatura quente do meu seio e fez tudo ficar bem.
Isto é, quase tudo.
Quando encostei os lábios na testa dele e senti seu cheiro doce e fresco, a porta do quarto abriu com estrondo. Lá estava Adam, invalidando completamente a teoria do antes tarde do que nunca.
Não sei o que foi mais dominante quando ele se aproximou de nós, o cheiro do perfume de outra mulher, ou o fedor azedo de bebida passada. Ainda usava a roupa da noite anterior. Havia fracassado na tentativa de limpar o batom do pescoço, deixando uma mancha violenta rosa-puta que começava na orelha e terminava na camisa.
De repente não o quis perto de mim ou do nosso bebê. Nenhuma quantidade de gel antibacteriano para as mãos teria alterado o fato de ele estar um completo traste. E de muitas formas. Desolada, fiquei pensando há quanto tempo eu tinha chegado a essa conclusão.
– Posso... posso segurá-la? – disse ele, estendendo os braços.
Mamãe fez uma careta e eu respirei fundo.
– É um menino, Adam.
Ele olhou para mim surpreso e dobrou os braços. Sentou olhando para nós, parecendo incapaz de dizer qualquer coisa, menos ainda a coisa certa.
– Você perdeu – eu disse, afastando a ardência de novas lágrimas. – Não posso acreditar que você perdeu esse momento, Adam.
– Olha, Jess... eu posso explicar.