Aqui, Agora, Sempre

Catherine Isaac · Capítulo 26 de 85

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Aqui, Agora, Sempre

Capítulo 25

 

Q uando os sintomas começaram, as mudanças não eram óbvias para as pessoas que conviviam com minha mãe. Porque não estavam procurando esses sintomas.

A primeira coisa que mudou foi o humor. Passou de uma mulher que costumava manter o equilíbrio emocional e o bom humor para alguém que perdia as estribeiras com as menores coisas. Mas entenda, não era o tempo todo. Seus acessos de fúria eram raros, mas tão explosivos que ninguém podia ignorar. E eram provocados por qualquer coisa. Se meu quarto não estava arrumado. Se a bainha da saia descosturava. Se meu pai dizia que vomitar no banheiro da escola antes da minha peça de teatro não era nada de mais.

Lembro-me de alguns incidentes quando eu estava na universidade, e o significado cresce muito quando penso neles agora.

Uma vez, quando eu estava em casa nas férias da primavera, desci do meu quarto numa manhã de domingo e a encontrei na cozinha cercada de ingredientes.

– O que você vai fazer?

Amy Winehouse cantava no rádio e raios frios do sol entravam pelas janelas.

– Um bolo de Páscoa – ela disse, e mostrou a foto em um de seus livros brilhantes.

Mamãe já tinha criado bolos bem mais complexos, mas esse era bonito, um bolo de coco de uma camada só, com cobertura verde grama e um coelhinho branco saindo da toca em cima.

– Muito bonitinho – eu disse e sentei à mesa para dar uma espiada no jornal e papear enquanto ela trabalhava no bolo.

Mas quando quis contar para ela sobre uma das minhas últimas aulas antes das férias, notei que ela parava a todo minuto para ler a receita e olhava angustiada para a pasta de açúcar. Era como se o seu cérebro a impedisse de resolver como combinar as duas coisas. Ela começava a amassar um pedaço da pasta no formato que queria, então parava de novo e resmungava zangada para ela mesma.

– Está tudo bem, mamãe? – perguntei, dobrando o jornal.

– Sim, é que fui dormir tarde – ela respondeu irritada, soprando a franja para longe do rosto. – Não estou realmente inspirada para fazer isso. Amanhã eu faço.

Ela fechou o livro com força.

Mas nunca terminou o bolo de Páscoa.

 

Ao olhar para trás percebo que uma montanha de evidências começara a aparecer antes de alguém tomar alguma providência. A agitação dela, os pequenos tiques, movimentos estranhos, mas quase imperceptíveis, tudo isso já acontecia muito tempo antes de algum de nós prestar atenção nesses sinais.

Eu não saberia dizer se minha mãe não percebia mesmo, ou se estava ignorando essas coisas de propósito. De qualquer forma, chegou a um ponto em que eu me dei conta de que precisava levá-la a um médico.

No Natal antes de William nascer, ela e eu tínhamos resolvido ir ao Trafford Centre para fazer nossas últimas compras. Estávamos voltando para casa com a mala do seu pequeno Corsa vermelho abarrotada de presentes e coisas para bebê que ela não tinha resistido e que acabou comprando.

– Você acha que tem bastante macaquinhos para dormir? – ela perguntou quando paramos no sinal perto do final da rua dela.

– Devo ter uns quarenta, espero que sim.

– Acredite em mim, nunca é o bastante. Se esse bebê for parecido com você, ficará eternamente coberto de baba.

O sinal abriu, ela engrenou a marcha e se aproximou do final da rua. Mas passou direto.

– Mamãe, o que está fazendo? – perguntei rindo.

Ela olhou para mim e continuou em frente.

– O que quer dizer?

– Você acabou de passar a nossa rua – eu disse, atônita.

Ela ligou o pisca-pisca e parou. Seu rosto estava lívido, os olhos cheios de pânico.

– Mamãe, qual é o problema?

Ela balançou a cabeça.

– Nada. Só me distraí. Estava pensando no bebê.

Ela esperou os carros passarem e fez a volta de três pontos. Mas quando agarrou a direção, eu vi no mesmo instante que alguma coisa estava errada. Ela não se lembrava de como chegar em casa.

– A próxima à esquerda – eu disse.

– Eu sei, eu sei – ela respondeu zangada.

Mas sem essa instrução simples, não sei se ela teria encontrado o caminho de volta para a casa em que morava havia quinze anos.

Depois disso, fiz mamãe jurar que ia consultar um clínico. Ela me disse que tinham mandado fazer exames, mas que todos disseram que não devia ser nada. Ela escondeu o que realmente estava acontecendo, resolveu que não me daria a notícia terrível enquanto eu estivesse grávida, pois se preocupava com o que o estresse podia provocar no bebê.

Distraída pelo que acontecia comigo e com Adam, concentrada exclusivamente na gravidez, aceitei suas explicações. Porque naquele ponto, antes de saber a verdade, os efeitos realmente devastadores da doença ainda estavam por vir. Eu me convenci de que mamãe era apenas uma daquelas mulheres que não conseguem parar quietas e que eu devia ter exagerado na lembrança do que havia acontecido no carro. Foi fácil deixar isso no fundo da minha mente.

Tenho saudade daquele tempo. Quando a doença de Huntington não fazia parte do nosso vocabulário diário. Quando eu não sabia que o que minha mãe tinha era fatal, quando ainda não tinha ouvido dizer que era a doença mais cruel que a humanidade conhecia. E certamente não sabia que eu tinha cinquenta por cento de chance de herdar o gene dessa doença.