Aqui, Agora, Sempre

Catherine Isaac · Capítulo 15 de 85

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Aqui, Agora, Sempre

Capítulo 14

 

 

O labirinto das ruas de Sarlat guarda um fascínio eterno que, no auge do verão, parece que todo o mundo deseja descobrir. A cidade medieval borbulha de atividade, os pátios cor de caramelo e a elegante praça central se enchem do cheiro de pão recém-saído do forno, de queijos e café fortes.

William e eu vamos para lá no terceiro dia de excursão, abrindo caminho no meio da multidão, passando por mansões e cafés-terraços.

– Isso parece um pequeno mercado. Em certas épocas do ano eles só vendem trufas – digo, lendo no guia quando tropeçamos numa esquina coberta da cidade que vende produtos gourmet arrumados em inúmeras cestas pequenas, em grandes tábuas sobre cavaletes.

William me lança um olhar cético, e devo admitir que, de todas as coisas que um dia tive vontade de comprar na vida, trufas não constam no alto da lista.

Mas de alguma forma é surpreendentemente fácil, numa caminhada sonâmbula, gastar o equivalente a 22 libras em um único fungo, depois acordar e perceber que podia muito bem ter comprado a metade de uma bola de tênis pela utilidade semelhante que teria na culinária para você.

Mas isso não importa de qualquer maneira, porque quando paramos para um café e dois pedaços grudentos de doce de nozes em um dos belos cafés da rua, eu cometo a façanha de esquecer minha compra embaixo da mesa, em seu pequeno saco de papel pardo. Percebo meu erro dez minutos depois de sair de lá, mas, quando arrasto William de volta, a mesa está ocupada por dois cavalheiros sofisticados, cujo cão degusta alegremente o conteúdo do meu pacote.

Dado que em nenhum ponto do meu programa de áudio eles ensinam como dizer “o seu poodle está comendo a minha trufa”, resolvo não criar caso e vou embora.

Há algumas outras cidades atraentes que poderíamos visitar depois, mas é óbvio que nem William, cuja brincadeira de salão mais cedo era recitar todas as esposas de Henrique VIII em ordem, tem vontade de encarar mais uma igreja medieval.

– Você está com o meu iPad na bolsa? – ele pergunta distraído.

– Você quer dizer o meu iPad. Sim, está aqui.

Ele se anima.

– Vamos almoçar?

– Você quer dizer, vamos a algum lugar que tenha wi-fi para você poder jogar Clash of Clans?

– Bem, podemos ir?

– Venha – eu cedo, ponho o braço em seu ombro ossudo e seguimos serpenteando pelas ruas de pedras.

– Que tal aqui? – pergunta William, evidentemente desesperado para começar a jogar.

Mas o café parece bom mesmo – todos eles parecem – com enormes guarda-sóis creme protegendo pequenas mesas do sol.

Não posso negar que a ausência de Adam nesses passeios diários já começou a me incomodar. Suas atividades vagamente prometidas ainda não se concretizaram e não há sinais de que vão acontecer. Ao contrário, ele está sempre correndo de uma parte da propriedade para outra, pegando suprimentos, ou indo a reuniões com pessoas não identificadas, mas muito importantes.

William não reclamou disso, o que também me preocupa. Ele se acostumou demais às decepções menores e à falta de esforço da parte do pai. E embora eu entenda que estamos na alta estação, depois de dirigir mais de 1.300 km acho que não é esperar demais. E esse é particularmente o caso por que deixei minha mãe em casa, com papai fazendo tudo que pode, enquanto, aos poucos, ela perde o contato com a própria identidade.

Nada disso me tranquiliza para o futuro. Fico tentando imaginar cenários que envolvam Adam se oferecendo para fazer coisas que outros pais fariam enquanto os filhos crescem. Levar William para a universidade, ou ajudá-lo a se mudar para seu primeiro apartamento. Não consigo ver nada disso.

Realmente sinto que estou abandonando mamãe, ao ponto de me surpreender mentindo para papai quando falei com ele ao telefone ontem à noite.

Foi a primeira ligação que fiz para casa desde que chegamos aqui, apesar de papai e eu trocarmos inúmeras mensagens de texto. Ele fica perguntando se estou “relaxando” e eu respondo: “Sim, estou!” Acho que é mais fácil para nós dois manter a encenação. Mas a noite passada eu precisava ouvir o som da voz dele, mesmo o ouvindo dizer uma dúzia de vezes que nada vai mudar drasticamente pelo fato de eu estar aqui. E ele deve ter razão, o corpo e o cérebro da minha mãe estão sendo destruídos há anos, não semanas.

Quando William e eu voltamos para o Château de Roussignol já passa das três da tarde, e Adam não está em lugar nenhum. Encontro Simone, que me diz que ele foi chamado para uma reunião em Salignac, mas deve voltar mais tarde.

– Quer que eu dê algum recado para ele?

Penso com cuidado antes de responder.

– Seria bom se ele nos dissesse quando vai poder fazer as atividades que prometeu para William.

O sorriso dela falha e meu filho olha para ela ansioso.

– Tenho certeza de que ouvi Adam dizer mais cedo que tinha organizado uma coisa boa – ela diz alegremente, e quase posso ver seu nariz crescendo, ficando alguns centímetros maior. – Enquanto isso, eu organizei uma partida de futebol para as crianças maiores que vai começar daqui a pouco. William, por que você não participa? E Jess, tem hidroginástica na piscina, se você quiser. É bem na sua rua.

– William não curte muito futebol, não é, querido?

Viro para olhar para ele e noto que a cor das suas bochechas ficou um pouco mais vermelha.

– Vou dar uma olhada – ele resmunga. – Vá para a hidrocoisa, mamãe. Eu sei que você gosta disso.

E eu sei quando alguém quer se livrar de mim.

 

Pouco tempo depois estou de pé na piscina esperando a sessão de hidroginástica e estimo que sou aproximadamente meio século mais jovem do que a média das participantes.

Há apenas outras cinco, mas têm setenta e oitenta anos, exceto a doce senhora bem na minha frente, que tem uma corcunda e que poderia ter sido vista na Guerra dos Bôeres. Quando a aula começa, o movimento mais atlético que fazemos é quicar suavemente para cima e para baixo sem sair do lugar ao ritmo de uma versão cover de “Eye of the Tiger”. Isso tudo é feito enquanto uma mulher, positivamente juvenil aos sessenta, fica na beira da piscina, com seu conjunto rosa-choque capaz de queimar a retina, suando à beça e parecendo que vai adernar a qualquer momento.

Rapidamente decido que vou sair da piscina. Mas quando estou na metade do caminho, a professora aperta a pausa na música e começa a gritar comigo em francês.

– Pardon?! – respondo.

– Ela quer a boia dela de volta.

Dou meia-volta e vejo o cara da cabana em frente à nossa, aquele que é metade da Hampson Browne. Ele aponta para o macarrão azul de isopor que estou segurando.

– Ah, desculpe. Pardon! – eu repito, deixo a boia na beira da piscina e saio aborrecida.

– Acho que você não parecia estar em seu habitat com aquele grupo – diz ele quando eu sento na espreguiçadeira ao lado, onde tinha deixado minha toalha.

Ele está cercado de papéis, mas perdeu a palidez de escritório depois de dois dias ao sol e o efeito era dramático. Estava parecendo quase alguém que vive ao ar livre.

– No futuro, vou me limitar a correr – digo eu, puxando a toalha para cobrir o peito, constrangida.

– Tem uma boa trilha, se você for dar a volta no lago. Deve ter uns cinco quilômetros, não é muito.

Fico imaginando se estou parecendo muito fora de forma.

– Ótimo. Vou dar duas voltas então.

Ele dá risada. Eu me sinto uma idiota. Eu sou uma idiota.

– Bom, tenho de ir ver se meu filho já terminou a partida de futebol – explico e levanto. – É bom quando eles levantam a cabeça dos jogos de computador, por isso estou gostando.

– Vou adivinhar: adolescente?

– Ainda não. Ele tem dez anos.

– Bem, você ainda terá muita diversão pela frente. Digo isso como pai de uma menina de catorze anos.

– Eu sou solidária ao seu sofrimento. Mas ontem encontrei sua filha e ela foi muito simpática.

Uma ponta de orgulho de pai aparece no canto da sua boca.

– A Chloe não é de todo má, não é? Especialmente quando sorri, ou tem uma conversa de verdade, o que acontece a cada duas semanas, mais ou menos.

– Sou Jess.

Estendo a mão para ele e ele a aperta.

– Charlie. É muito bom conhecê-la. Dá para ver que você é inglesa, mas de que lugar?

– Manchester.

Ficamos jogando conversa fora uns dez minutos, sobre o desenvolvimento que está realmente ocorrendo na cidade e os shows ou concertos a que assistimos no Etihad Stadium, antes de chegar à conclusão de que o escritório dele fica bem perto de onde eu moro.

– É um bairro bonito – comenta ele. – Bem familiar.

– É. William e eu gostamos.

Passa um segundo.

– Você não é casada?

Balanço a cabeça.

– Nem eu – diz ele.

E meu estômago dá uma cambalhota. Em parte, pelo modo como ele olha para mim. Outra parte é a surpresa de saber que ainda sou capaz de gostar disso.