Aqui, Agora, Sempre
Capítulo 40
Q uando era namorada de Adam, eu vivia ressabiada. Não que ele fosse constantemente para a cama com outras; simplesmente porque quando nosso coração está irremediavelmente perdido por alguém, o medo é um triste efeito colateral. Preocupada que um dia todas aquelas mulheres que não conseguem tirar os olhos dele, as que são mais bonitas, provavelmente mais divertidas e inteligentes do que você, finalmente consigam virar a cabeça dele.
Nos primeiros dias ele fazia com que me sentisse ótima, mais alta, mais magra, tão inteligente e encantadora que podia falar da limpeza dos ladrilhos do banheiro que ele prestava a maior atenção, olhando para mim com aqueles olhos escuros e infinitos.
Como passamos disso para o desastre que nos tornamos foi complicado, mas ao mesmo tempo objetivo: as coisas mudam.
Apesar dos nossos problemas terem começado assim que descobri que estava grávida, o que realmente mudou as coisas para sempre foi a noite em que William nasceu. Antes disso eu estava convencida de que íamos resolver tudo entre nós. Depois, soube que estávamos condenados. Soube disso no momento em que passamos pela porta do hospital e ele deixou de responder às minhas perguntas com qualquer convicção.
– Onde você estava?
Mamãe tinha pedido licença para pegar um café na máquina do hospital e a essa altura eu já estava longe de ser gentil.
– Tudo bem. É que... eu estava com Jules. – Colega dele. – E ficamos até tarde. Perdi meu celular... e só soube do que tinha acontecido quando encontrei o celular.
– Você não estava com a Georgina?
– Oh, meu Deus, não – ele disse, como se a ideia fosse ridícula.
– Então por que está coberto do batom dela?
Ele pôs a mão no pescoço.
– Isso não é... – Ele respirou fundo, mas logo ficou sem energia para continuar. – Então. Nós nos esbarramos por acaso.
Olhei para ele incrédula.
– É sério que espera que eu acredite nisso? Que de todos os bares de Manchester, você e sua ex-namorada simplesmente estavam nesse, na mesma hora?
Ele ficou mudando o peso do corpo de um pé para outro, os olhos de um lado para outro, angustiado, sem poder me encarar. De todos os talentos de Adam, a farsa não é um deles. Ele é péssimo nisso.
– Está bem – disse ele, com suor brotando na testa. – Ela ficou telefonando dias para mim depois que terminou com aquele cara com quem saía, Johnny. Então combinei de encontrá-la no Bush Bar.
– Então por que mentiu para mim?
– Não menti! Bom, é... mais ou menos.
– E o batom?
Ele engoliu em seco.
– Eu estava dando um... abraço de apoio.
Pus a mão sobre a minúscula orelha de William.
– Ela fez um boquete de apoio em troca?
– Jess, não faça assim – ele engasgou.
– O que você espera quando desliga seu celular por doze horas no dia em que estou parindo nosso primeiro filho?
Ele só ficou repetindo que eu tinha de confiar nele, acreditar quando dizia que Georgina foi sozinha para casa e que ele ficou na casa do amigo Jules. Eu podia estar zonza de analgésico, mas não tinha perdido a capacidade de raciocínio. Isso se confirmou quando encontrei por acaso a mulher de Jules, Suzy, na primeira ida ao supermercado depois de sair do hospital. Ela fez as gracinhas obrigatórias com William e eu perguntei, casualmente:
– E aí? Jules chegou tarde no dia da formação da equipe? Sei que alguns deles ficaram fora até de manhã.
Ela balançou a cabeça.
– Jules pega leve, Jess. Chegou em casa à meia-noite e em cinco minutos já estava roncando ao meu lado.
Assim eu soube com certeza. Adam mentira sobre isso também.
Não sou de ir à igreja, mas sempre acreditei no poder do perdão. Não sou do tipo de guardar rancor, nem me recuso a esquecer as coisas. Não quero que elas me comam de dentro para fora. Mas como se pode perdoar alguém se a mentira nunca acaba? E não acabou mesmo, até Adam não se importar mais nem de inventar mentiras sobre aquela noite. Ele só dizia que eu tinha entendido mal, se recusava a falar do assunto e era isso.
Ficamos juntos dois meses e duas semanas depois que William nasceu, e aqueles dias, quando devíamos criar laços de família, ficaram entre os piores da minha vida. E não foi culpa só de Adam.
Eu posso ter virado do avesso de amor pelo meu bebê, mas ele não foi um recém-nascido fácil. Era lindo, mas exigente demais, inquieto o tempo todo, choramingava e não queria mamar a não ser entre meia-noite e cinco horas da manhã.
A falta de sono e a exaustão completa davam a impressão de que não iriam acabar e me culpei pelo fato de William não ser o pacotinho de felicidade balbuciante que achei que seria. Estava certa de que devia ter feito alguma coisa errada, apesar de ter lido todos os manuais de maternidade que existiam.
Adam voltou para o trabalho depois de uma breve licença de paternidade e eu fiquei em casa cuidando de William, bombeando leite feito uma vaca e cozinhando no próprio desespero. Estava um caco fisicamente, sofrendo de mastite e tão distante da definição de uma mamãe apetitosa que tive vontade de queimar minha tipoia porta-bebê de marca.
Durante o dia desejava a presença de Adam, mas me irritava assim que ele entrava por aquela porta e me lembrava do que ele tinha feito. Duas amigas me perguntaram na época se eu tive depressão pós-parto, e talvez tivesse mesmo. Mas não era só isso, e o pior ainda estava por vir.
Para culminar tudo isso, mamãe finalmente me contou que aqueles sintomas engraçados que tinha nos últimos anos eram algo grande e nada engraçado. Dizer que fiquei arrasada não chega nem perto de descrever o impacto que foi aquilo para mim. Fiquei devastada. Não conseguia enxergar direito. Fiquei zonza com a enormidade dos meus sentimentos, com a ideia de que minha vida estava escapando, indo numa direção que eu não podia mais controlar.
Nesse caldeirão de estresse e sofrimento, minha tolerância com as mentiras de Adam chegou ao fundo do poço. Então talvez eu tivesse, sim, depressão pós-parto, mas tenho quase certeza de que havia também depressão pós-mamãe e depressão pós-Adam, provocadas pelo fato de ter começado a formar uma família com um homem que eu sabia que tinha me enganado e que não era capaz de ser o pilar de força que eu precisava.
Mesmo assim, no dia em que disse para ele que queria me separar, não tinha certeza absoluta disso. Nem lembro o que provocou a briga que tivemos nesse dia. Mas lembro que fui tomada por uma fúria terrível, como se todos os meus medos e ressentimentos e raiva do comportamento dele estivessem concentrados naquele momento.
– Você não merece ser pai do William – disse para ele. – Não está à altura dessa função. Quanto mais o tempo passa, Adam, mais eu me convenço: seria melhor para todo mundo se William e eu simplesmente fôssemos embora.
Fiquei lá parada com essas palavras sombrias pairando entre nós no próprio apartamento em que um dia compartilhamos tanta intimidade e tanto amor. Olhando para trás tenho quase certeza de que, ingênua, eu queria que ele se redimisse e implorasse para eu ficar. Não sei por que achei que ia ganhar essa aposta, mas estava exausta demais para pensar com clareza no que estava fazendo.
Ele nem discutiu.
– Está bem – Adam disse. – Se é o que você quer.
Fiz a mala e fui para a casa dos meus pais, anestesiada, rangendo os dentes, remoendo minha devastação. Chorei a noite inteira, virando e revirando na cama, no mesmo quarto com meus pôsteres de menina na parede, com meu bebê ao lado em seu moisés.
Na manhã seguinte passei horas me torturando, pensando se devia ligar para ele e voltar atrás. E não fiz isso por teimosia.
Instintivamente sabia que precisava ser forte. Ele tinha ido para a cama com outra, pelo amor de Deus... Se havia alguém que precisava voltar rastejando, era ele.
Uma longa espera me aguardava.
Adam não apareceu na minha porta com flores ou com uma aliança de noivado, nem para qualquer gesto grandioso que dissesse: eu vou ser o homem que você e William precisam que eu seja. Que amará vocês dois incondicionalmente. E sim, fiz sexo com Georgina e perdi o nascimento do nosso filho. Mas vou mudar.
Ele não falou nada que chegasse perto disso.
Ao contrário, ele se afastou sem dizer nada e me deixou impotente com sua ausência.
Nós nos encontramos uma vez depois da separação. Para ver se conseguíamos reatar. Mas sentei na frente dele chorando enquanto Adam executava o ritual mecanicamente. O abismo entre nós não podia ser mais óbvio. Pode ser que eu o tenha empurrado, mas ele estava indo para a porta e agora não ia implorar para voltar. Na ausência de qualquer súplica, eu me agarrei às minhas armas.
– Depois de tudo que aconteceu, como podemos viver juntos? – eu disse.
Eu realmente queria que Adam desse uma resposta convincente, mas ele ficou em silêncio.
– Se temos alguma esperança de fazer o que é certo para o William, acho que é o único jeito, você não acha?
As palavras saíam da minha boca como se eu estivesse escrevendo o script de uma novela. Lembro que estendi a mão para um aperto e desejei que ele a empurrasse para o lado, me abraçasse e dissesse, “Não, não vou deixar isso acontecer porque vocês são o amor da minha vida”.
Em vez disso, ele se inclinou, beijou meu rosto rapidamente, deu meia-volta e foi embora.
Fui consumida pelo arrependimento nos meses seguintes. Mas conforme os anos foram passando, acabei entendendo que tinha feito a coisa certa. O que eu fiz foi o mais difícil, e mais corajoso. O fim do nosso relacionamento antes do nosso filho saber dele. Antes de ter o coração partido porque seus pais não conseguiam fazer aquilo funcionar todos os dias.
Adam e Georgina se juntaram oficialmente menos de um mês depois da nossa separação.
Ele foi morar com ela em Londres e foi lá que recebeu a notícia de que o irmão da mãe dele, tio Frank, tinha morrido de falência do fígado. Ele deixou todo o seu patrimônio para Adam e, apesar de se tratar de uma casa modesta de três quartos e uma pensão, a herança bastou para Adam começar a pensar em realizar seus sonhos de viver e trabalhar no exterior. Logo fez planos de emigrar e, embora eu não conheça os detalhes do fim da união dele com Georgina, ela nunca participou desse futuro dele.
Não lembro quantas vezes Adam viu William no seu primeiro ano de vida antes de ir para a França, devido ao turbilhão de prazer e desespero que eu estava sentindo. Mas eu me lembro de sentir espanto e fúria porque era óbvio que Adam não via William como eu via, nosso anjo, a melhor coisa do mundo.
Foi logo depois que eu reconheci isso que alguma coisa estalou em mim e resolvi desafiá-lo, enfrentá-lo. Se Adam queria ficar fora disso, deixar a criação de William por minha conta, eu teria prazer em satisfazê-lo.