Aqui, Agora, Sempre
Capítulo 7
N ão sei bem como imaginei o encontro do meu filho com o pai à medida que essa viagem ia chegando. Dada a excitação de William e o tempo que ficaram longe um do outro, uma parte de mim os viu em um campo, correndo em câmera lenta, um em direção ao outro, como astros de uma propaganda ruim de perfume dos anos 1970.
No acontecimento, a realidade fica um pouco a desejar, e entendo isso quando avisto Adam se esgueirando pelo lado do bloco dos estábulos.
– O que está fazendo? – pergunto, indo atrás dele.
– Psssiu – ele diz, com o dedo na frente da boca, então espia pela janela do quarto e faz: – BU!
– Aaaaaaah! Mamãe!
Espio pela janela em tempo de ver William despencando do beliche de cima no chão. Vou para a porta da frente e ele sai aos tropeços.
– Alguma coisa ficou me espiando pela janela! – berra ele, convencido de que forças sobrenaturais estão em ação.
– William, acalme-se. Era seu pai.
Bancando o idiota.
William abaixa os ombros e Adam aparece do lado dos estábulos.
– Ah, William, desculpe – diz ele, escondendo o riso enquanto nosso filho fica ali imóvel, mortificado e mudo.
Faço um carinho nele.
– Vá dar um abraço no seu pai.
William se adianta e Adam se lança sobre ele, agarra o tronco magro e o puxa para perto do peito.
– Oi, você.
William olha para ele e pisca.
– Não percebi que era você, papai. Na verdade, eu não fiquei tão assustado assim.
Quase dá para ver o coração dele querendo pular para fora do peito ossudo de tanto que bate.
– Não se preocupe com isso – diz Adam, sem entender que aquela era a deixa para um pedido de desculpa. – Como foi a viagem? Sua mãe enviou uma mensagem de texto e disse que você veio vomitando a travessia toda.
William faz cara feia para mim.
– Não foi a travessia toda. Só um pouco.
– Bom, agora você está aqui. O que achou do lugar?
– É maravilhoso – diz ele, animado de repente. – Adoro beliche. Meu amigo Josh tem um.
– Sorte dele.
Então eles ficam lá parados, sem graça, a um metro um do outro, e fica dolorosamente óbvio que essa pode ser a única coisa que os dois têm em comum para conversar nessas férias inteiras.
– Então – diz Adam, batendo palmas.
– Então – repete William.
– Feliz de não ter aulas?
– Muito.
– Você gosta da escola – eu observo.
– Eu sei, mas prefiro estar aqui.
– Matemática é sua matéria preferida? – pergunta Adam.
William pensa um pouco.
– Humm. Acho que gosto mais de história. Estamos aprendendo sobre a rainha Victoria, nesse período. É muito triste. Quando o marido dela, Albert, morreu, ela sentiu tanta falta dele que fez um molde de gesso da mão dele para poder segurá-la. – William não para sequer para respirar. – E essa não é a única coisa fascinante sobre os vitorianos – William continua empolgado e dá uma aula de cinco minutos para Adam, cobrindo tudo, desde os avanços da medicina no final do século XIX até a submissão das mulheres.
– Uau. Eu nunca pensei que soubesse tão pouco sobre difteria – Adam concluiu friamente.
– Posso contar mais, se quiser – sugere William.
Olho feio para Adam e deixo claro que ele tem de tomar cuidado na hora de responder.
– É, eu quero. Tenho um monte de coisas planejadas para fazermos enquanto vocês estão aqui.
William sorri.
– Vou lá pegar o meu iPad – diz ele, e volta para a cabana.
– Acho que você vai descobrir que o iPad é meu – grito para ele.
Adam pega uma sacola e leva para dentro.
– Então eu pensei que podíamos jantar hoje com alguns membros da equipe que trabalha aqui. Mal posso esperar para todos conhecerem William. E você, claro.
Vou atrás dele. Adam põe a sacola no chão e fica parado.
– Eu arrumo o resto das coisas. Obrigada pela ajuda.
– Tudo bem. – Ele continua imóvel. – É bom ter vocês aqui, Jess.
Faço que sim com a cabeça rapidamente.
– Bem, William mal pode esperar para passar um tempo com você.
E parece que Adam lembra de repente de alguma coisa que já devia ter perguntado.
– Como está sua mãe?
Sinto as costelas tensas.
– Ela não está bem. – Abro o zíper da sacola e começo a botar as coisas na mesa. – É capaz de você não reconhecê-la agora.
– Eu sinto muito. Deve ser difícil para você.
– É sim, Adam – eu digo e resolvo mudar de assunto. – E aí, eu conheci Simone.
– Ah é?
– Quando foi que você terminou com a Elsa?
Ele fica paralisado.
– Como sabe que eu parei de sair com a Elsa?
Levantei a cabeça e olhei para ele.
– Imagino que Simone seja sua nova namorada, não é?
– É tão óbvio assim?
– Leio você como um livro. E um livro nada complicado.
– Ainda bem que não sou do tipo sensível. – Ele dá risada e acena enquanto se dirige à porta.
Fico observando o contorno das suas costas em movimento por baixo da camiseta quando ele enfia as mãos nos bolsos e vai se afastando com o que só pode ser descrito como um balanço.
– Não se preocupe, Adam. Ninguém jamais poderá acusá-lo disso.