Aqui, Agora, Sempre

Catherine Isaac · Capítulo 22 de 85

Páginas do PDF

Aqui, Agora, Sempre

Capítulo 21

 

N ão vou fingir que meu pai era perfeito. Mas teria sido se não fosse um único problema, apesar de ser bem grande. Quando entrei na adolescência, não deu mais para ignorar o comportamento dele quando bebia. Entre as inúmeras vezes em que era maravilhoso, havia outras em que ele era o mais completo desastre. E sempre quando tinha álcool no meio da história.

Houve um dia em que ele bateu com o carro no muro da frente da nossa casa depois de se convencer de que podia ir dirigindo para a loja de bebidas, e a noite em que o encontramos caído na entrada de casa, incapaz de enfiar a chave na fechadura.

Essas coisas não aconteciam o tempo todo. Havia longos períodos de meses entre esses vexames, não eram só dias. Mas eu preciso me lembrar delas às vezes, quando Adam inventa uma das suas e sou consumida pela fúria por conta do meu filho. Mas há uma diferença essencial. Meu pai tinha seus problemas, só que fazia alguma coisa para resolvê-los. E fazia por mamãe e por mim.

Meus pais se conheceram logo que ele concluiu o curso de contabilidade e conseguiu um emprego como contador na firma Arthur Mitchell em Manchester, onde ela era secretária desde que largara os estudos aos dezesseis anos. Minha mãe sempre preenchia suas horas vagas fazendo doces, e toda sexta-feira levava para o trabalho uma seleção do que tinha preparado: bombas de chocolate puxa-puxa, biscoitos de café e amêndoas, bolinhos de limão com cobertura crocante de açúcar.

– Eu acabei convidando sua mãe para sair e saborear um bolo battenberg – brincava papai.

Na primeira vez que saíram foram ao cinema, assistir a Uma noite alucinante: A morte do demônio, parece que foi ideia da mamãe, e ficaram noivos quatro meses depois.

Não cabe a uma filha se meter no casamento dos pais, mas não há dúvida de que eu supus que fossem felizes quando era pequena. Às vezes olho para trás e fico imaginando como cheguei a essa conclusão. Porque havia momentos em que um bom observador podia considerar tudo, menos isso.

 

Eu tinha dezesseis anos quando ganhei um papel na peça da escola, uma produção ambiciosa de Les Misérables. Era um papel pequeno – de moça da taverna – e tinha apenas uma fala, mas levei muito a sério. E na primeira noite estava muito ansiosa esperando na coxia para ter a minha estreia no teatro, quando ouvi um grupo de alunos da sexta série dando risada.

– Tem vômito em todo o banheiro masculino. O Sr. Jones escorregou nele e quase caiu de bunda. Degsy acha que foi o pai de alguém, completamente bêbado.

Gelei e reconheci o quadro. Eu sabia de quem estavam falando. Quando mamãe me levou de carro para o teatro uma hora e meia antes de começar, papai já havia entornado todas.

Pisei no palco com o terror me comendo por dentro e olhei para a plateia lotada, à procura dos rostos dos meus pais.

Tinha de dizer uma única frase, mas, quando vi meu pai, aquelas palavras secaram na minha boca.

Papai estava caído na terceira fila, dormindo profundamente, e mamãe sentada imóvel ao lado dele, rosto encovado, olhos rasos d’água à luz do palco. Acabei dizendo a minha frase, mas, quando a peça terminou, senti que toda a escola sabia o que tinha acontecido.

Naquele fim de semana, mal nos falamos e eu não conseguia olhar para ele. Fiquei o tempo todo deitada no meu quarto ouvindo a chuva sibilar nas janelas, ainda fervendo de raiva. Mamãe tentou me convencer de que ninguém sabia quem era, mas na segunda-feira ficou óbvio, quando ninguém falava em outra coisa na cantina, que ela estava enganada.

Quando saí do meu quarto para jantar aquela noite, papai olhou nervoso para mim.

– Olha, eu sinto muito, está bem? – ele disse enquanto punha o sal e a pimenta na mesa e mamãe vinha da cozinha carregando uma lasanha feita em casa saída diretamente do forno. – Mas... não acho que o que eu fiz foi tão ruim assim.

Mamãe parou, a incredulidade estampada no rosto.

Minha respiração ficou na boca e procurei prever o que ela ia dizer. Mas por alguns segundos ela não disse nada, só deu para ver a fúria borbulhando dentro dela, lutando para sair.

– SEU IDIOTA DE MERDA – berrou ela.

Então ela levantou a assadeira fervendo e atirou na cozinha. Ouvi papai suspirar alto, assustado, e senti a minha boca abrir quando vimos a sujeira do pirex quebrado e do molho de tomate quente e grosso escorrendo pela parede.

Mamãe ficou um tempo olhando furiosa para aquilo, a mão trêmula cobrindo a boca, como se simplesmente não pudesse acreditar que tinha feito aquilo. Então ela saiu correndo da sala.

Olhei para papai num leve estado de choque que põe nosso cérebro no piloto automático. Levantei em silêncio para pegar luvas de borracha. Ele se abaixou para recolher os cacos de vidro numa folha de jornal.

E foi então que percebi que ele estava chorando.

– Desculpe, Jess – sussurrou, sem conseguir olhar para mim. – Eu sinto muito.

Mas eu não estava preparada para deixar por isso mesmo.

– Tenho certeza de que sente, papai. Como em todas as outras vezes. Mas isso simplesmente vai continuar acontecendo, não é? Você se odeia por fazer essas coisas, mas nunca muda. Você continua enchendo a cara e deixando isso destruir tudo.

Ele abriu a boca com o rosto encharcado de lágrimas. Parecia arrasado com o que eu estava dizendo, mas eu não ia deixar passar.

– Fico arrasada com o que você faz às vezes, papai. Mortificada de ver você se comportar dessa maneira. E tudo por uma droga de bebida. Você não percebe o que está fazendo comigo e com mamãe?

Ele foi à sua primeira reunião do AA três dias depois.

 

A transição do meu pai de alcoólico disfuncional para alcoólico em recuperação não foi fácil, mas imagino que nunca seja.

Ele foi a todas as reuniões, mas não quero dar a impressão de que ele simplesmente se engajou, sentou no círculo e viu a luz. Ele teve uma relação de amor e ódio com o AA e nunca se interessou pelos outros membros. Mas perseverou, porque lá no fundo sabia que não poderia se controlar sem o AA.

No primeiro ano houve momentos em que parecia que ele ia fracassar. Nos eventos sociais, mamãe e eu prendíamos a respiração ao ver conhecidos oferecendo drinques para ele, espantados de ver alguém bebendo limonada em uma festa. Naquela época, o olhar do papai parecia mudar quando sentia o cheiro de bebida, como se ficasse amedrontado.

Às vezes era difícil saber como apoiá-lo. Não queríamos ficar em cima dele, pressionando-o e perguntando toda hora se estava tudo bem. Mas houve momentos em que tive de dizer que eu estava muito orgulhosa. Aquele “um dia de cada vez” tinha servido para algo que eu antes achava impossível.

Estávamos jogando tênis numa noite de verão cerca de um ano e meio depois de ele ter bebido um drinque pela última vez e lembro que a bola passou direto por mim numa cortada dele. Não me importava de perder para ele. Aquela sua vitalidade redescoberta me deixava contente.

– Quem pensaria que você ia estar tão saudável assim dois anos atrás? – eu disse. – Você está mesmo incrível.

– Para com isso, Jess... sou um homem de meia-idade com um pneu na cintura que nenhum jogo de tênis vai esvaziar.

– Você sabe o que eu quero dizer.

E eu devia estar parecendo um pouco desanimada, porque ele abaixou a voz e disse:

– Claro que sei. Mas incrível não é a palavra. Estou só... determinado a não voltar a ser o que era. Portanto, vocês não precisam se preocupar com isso, nunca mais. Eu juro.

E nunca mais me preocupei. Porque ele tem estado presente para nós três todos os dias, há dezessete anos. Dando apoio. Amando. E fazendo tudo isso completamente sóbrio.