Aqui, Agora, Sempre

Catherine Isaac · Capítulo 25 de 85

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Aqui, Agora, Sempre

Capítulo 24

 

 

M inha cabeça fervilha cheia de objeções à afirmação de Adam depois do bolo que ele deu ontem. Se amasse realmente o William, agiria de acordo. Faria o que dita o amor quando se é pai ou mãe: colocaria o filho em primeiro lugar. Sempre.

– Sinto muito sobre ontem – ele diz.

Não consigo olhar para ele.

– Posso explicar? Era aniversário da Simone. Ela reservou aquele hotel antes de você confirmar que vinha para cá. Meses atrás. Eu devia ter comentado com você, mas achei que não ia atrapalhar porque era um dia só nas cinco semanas que vocês iam ficar aqui. Eu não imaginei que iam querer passar todos os meus dias de folga comigo.

– Eu não quero. Mas como William não vê você há meses, e Simone sim, você não entende que ele devia ter prioridade?

Adam não responde.

– Parece que você acha que por ter ido fazer canoagem com ele uma vez, sua parte está feita. Você brincou de bom pai, publicou fotos no Facebook e agora pode voltar para a sua vida normal. Uma vida na qual William quase não existe.

– Isso não é verdade, Jess.

– É sim!

– Olha, nós moramos bem longe um do outro, isso é uma realidade da vida. Por isso tenho de me contentar com Skype e...

– Você mal o conhece, Adam.

Ele olha para o outro lado, sem poder responder.

– Para você, ele é mais como um... sobrinho de quem você gosta, mas não vê muito. Você nunca teve de lidar com a parte complicada da criação de um filho. Você usufruiu do luxo de estar ausente. De jamais ter de crescer você mesmo.

Ele tensiona o maxilar visivelmente.

– O que vai acontecer no futuro, Adam? Não estou falando só enquanto ele for criança, mas quando ele crescer. Quem vai estar por perto para dar conselhos quando ele for comprar um carro, ou mudar para sua primeira casa? Você supõe que tudo caberá a mim?

Ele parece confuso, imaginando por que eu falo tanto de um tempo que está a anos-luz de distância.

– Jess, eu não quero me indispor com você, não quero mesmo. Mas às vezes você dá a impressão de que esqueceu que foi você quem quis a nossa separação.

– Ah, não comece com isso.

Adam não tem argumento nenhum para dizer isso. Ele sabe que eu não tive escolha. Posso ter sido tecnicamente a que terminou, mas ele estava desesperado para que o relacionamento acabasse. Deixou isso bem claro nos meses antes e nos anos depois.

Ele tenta olhar nos meus olhos, mas eu não deixo.

– Olha, sinto muito não poder estar lá o tempo todo, não poder fazer mais para ajudar vocês dois no dia a dia. E também peço desculpas, mais uma vez, por ontem, mas foi um mal-entendido, nada além disso. Eu vou compensar para ele.

Sinto meu maxilar apertar quando olho para William e me lembro da cara dele quando contei que o passeio havia sido cancelado.

– Você precisa crescer e se comportar como pai, Adam – digo baixinho.

Ele não responde logo. Apenas sente o coice das minhas palavras no estômago e fica absorvendo.

– Posso falar uma coisa?

Eu me preparo para um ataque, para a briga que sei que iniciei pronunciando uma frase provocativa, só que completamente justa e verdadeira.

– Eu não falo isso o bastante, mas quero que saiba que reconheço e valorizo tudo que você faz. Você é uma mãe maravilhosa. E o que quer que tenha acontecido entre nós, você está criando nosso filho brilhantemente. Eu sei que você faz o trabalho duro. Sei que não é fácil. E você está criando um menino que é surpreendente, sabendo ou não jogar futebol.

Respiro fundo e sinto que estou ficando perigosamente emotiva. Procuro me concentrar na linha do gramado para impedir que meus lábios tremam.

– A outra coisa que eu quero dizer é que... não sei por quê, depois de todos esses anos tentando me evitar, você de repente resolveu vir para cá. Mas estou feliz com isso.

Não posso encará-lo porque uma onda de emoção enche meu peito.

– Foi a mamãe.

– O quê?

– Foi minha mãe que quis que nós viéssemos.

O esforço que faço para não chorar deixa minha cabeça latejando.

– Por mais que ela deteste o que você fez, Adam, ela não gosta da ideia de você e William terem vidas tão separadas. Ela sempre achou isso. Mas desde que foi morar no lar de idosos ficou mais determinada ainda. Ela acha que a família é importante. Não importa o que aconteceu no passado. – Olho para o chão. – Em certo nível, ela está tentando ser prática. Ela e papai praticamente criaram William junto comigo. Dadas as circunstâncias atuais, isso não é mais possível. Ela se preocupa com o fato de eu estar fazendo isso sozinha.

– Você quer mais dinheiro? – ele pergunta.

– Não, Adam. Para ser sincera, quando pedi para vir para cá eu estava só querendo agradar à mamãe.

Adam fica em silêncio.

– Mas a verdade é essa: desde que cheguei aqui vi com meus próprios olhos o quanto William deseja você na vida dele. Você é o ídolo dele. E por mais que eu sofra ao dizer isso, acho que mamãe tem razão. William precisa de você na vida dele. Mais do que tem acontecido ultimamente.

Olho para minhas mãos antes de continuar:

– Eu sei que você nunca vai voltar para a Inglaterra. Sei que sua vida é aqui, mas... quem sabe você podia dar um jeito de voltar para estar com ele mais vezes, ou William podia vir para ficar com você, ou...

– Claro. É claro.

Minhas têmporas latejam, e sussurro a pergunta que está borbulhando nos meus lábios:

– Você algum dia pensou em voltar para a Inglaterra? Só curiosidade.

Ele leva um segundo para responder.

– Acho que você já respondeu a essa pergunta, não é, Jess?

Fungo e sorrio cordialmente.

– Eu tinha de perguntar.

Endireito as costas e procuro pensar num jeito de tornar o ambiente mais leve.

– De qualquer forma, prometa que nunca mais vai dar um bolo como aquele no William, senão...

O olhar dele fica mais carinhoso.

– Você está me ameaçando, Jess?

– Estou sim. Saia da linha de novo e escrevo uma crítica sobre você no TripAdvisor.

Ele dá risada, depois fica em silêncio.

– Eles estão mais perto de descobrir o que há de errado com a sua mãe, afinal?

Sinto o peito apertar.

– É uma doença degenerativa.

– Eu sei, mas... é o que, esclerose múltipla ou alguma coisa parecida?

– Eles não têm certeza – respondo.

Mas estou mentindo.

Porque ainda é muito difícil contar a verdade para Adam.