Aqui, Agora, Sempre

Catherine Isaac · Capítulo 2 de 85

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Aqui, Agora, Sempre

Capítulo 1

 

Dez anos depois,

verão de 2016

 

N ão sei quando desaprendi a empacotar coisas. Era boa nisso antigamente, na época em que tinha tempo e espaço vago para empilhar travesseiros infláveis de viagem e miniutilidades de toalete. Não é volume que está faltando, meu velho Citroën está transbordando, mas tenho a inconfundível sensação de que esqueci alguma coisa, ou várias algumas coisas.

O problema é que não fiz uma lista. Mulheres da minha geração são levadas a crer que listas são solução para tudo, mesmo que o mundo em torno delas esteja desmoronando. Nesse momento estou além de listas. Chega um ponto em que há tanta coisa para fazer que parar por algo tão indulgente como fazer uma lista parece uma loucura. Além do mais, se esqueci qualquer coisa, posso simplesmente comprar quando chegarmos lá. Vamos apenas para o interior da França, e não para a bacia amazônica.

Se a minha arrumação foi desastrada, não sei como chamariam a de William. Na sua mala tem principalmente jujubas, encontradas embaixo da cama dele depois que seus amigos dormiram aqui, livros com títulos como Cobras venenosas do mundo, algumas pistolas de água e uma seleção de artigos de higiene pessoal perfumados demais.

Só recentemente ele começou a se interessar por isso, depois que seu amigo Cameron resolveu que dez anos era a hora certa de começar a usar desodorante para ir à escola. Tive de lembrar gentilmente ao meu filho que andar por aí numa nuvem-cogumelo de Lynx Africa não o levaria muito longe na França enquanto não usasse calças de verdade.

Pulo para o assento do motorista, giro a chave e sinto a surpresa habitual quando o motor liga.

– Tem certeza de que pegou tudo? – pergunto.

– Acho que sim.

O rubor de excitação no rosto dele aperta um pouquinho meu coração. Está assim desde que eu disse que íamos passar o verão com o pai dele. Eu me inclino para dar um beijinho no lado da sua cabeça. William tolera isso, mas aqueles dias em que me abraçava e declarava “Você é a melhor mãe que eu já tive” ficaram para trás há muito tempo.

William é alto para a idade, quase magricela apesar do enorme apetite e da recente obsessão que desenvolveu pela Domino’s. Herdou do pai a altura e também os olhos líquidos, castanhos, a pele que bronzeia bem e o cabelo escuro com cachos na nuca.

Como meço um metro e sessenta, logo, logo ele vai me passar, e então provavelmente parecerá menos meu ainda. Minha pele é clara, sardenta e tende a ficar cor-de-rosa ao menor calor. O cabelo louro que bate nos meus ombros não cacheia como o do meu filho, mas tampouco é liso, tem um ondulado que me irritava no tempo em que essa era a única coisa com a qual eu tinha de me preocupar.

– Quem vai cuidar da casa quando estivermos fora? – ele pergunta.

– Não precisa, querido. Só de alguém para pegar a correspondência.

– E se alguém entrar e roubar as coisas?

– Ninguém vai fazer isso.

– Como você sabe? – pergunta William.

– Se fossem assaltar uma casa nessa rua, a nossa seria a última opção.

Eu tinha comprado a minúscula casa de vila no sul de Manchester graças à ajuda financeira do meu pai logo depois que tive William e, felizmente, antes do bairro virar moda.

Nunca participei das irônicas noites de bingo no bar de falafel no fim da rua e devo ter comprado fermento de quinoa apenas uma vez desde que abriram a padaria artesanal. Mas apoio totalmente esses lugares porque fizeram o preço das casas subir muito.

Só que, com isso, eu devo ser a única mãe solteira de trinta e três anos com um salário como o meu que vive aqui. Leciono escrita criativa no colégio de ensino médio local, coisa que sempre representou mais satisfação com o trabalho do que recompensa financeira.

– A casa do Jake Milton foi assaltada – William conta preocupado quando descemos a rua. – Levaram todas as joias da mãe dele, o carro do pai e o videogame Xbox do Jake.

– É mesmo? Que horror!

– Pois é. Ele tinha chegado ao último nível de Garden Warfare – suspira William, balançando a cabeça. – Ele nunca mais vai recuperar isso.

Vamos levar quatro ou cinco horas para chegar à costa sul para pegar a barca, mas estamos saindo cedo para fazer uma parada não muito longe de casa.

Chegamos em Willow Bank Lodge dez minutos depois e paro o carro no pequeno estacionamento na frente. O prédio por fora parece uma grande construção de Lego, com tijolos uniformes marrons e telhado cinzento. Mas, de qualquer forma, ninguém escolhe um asilo pela arquitetura.

Digito o código nas duas portas e registro nós dois, quando sentimos o cheiro de carne tostada demais e de legumes e verduras murchas. O lugar está limpo, iluminado e bem conservado, embora o decorador de interiores devesse ser daltônico. O papel de parede com rodamoinhos é verde-abacate forte, o piso acarpetado em azul-marinho e vermelho, e as madeiras de proteção nas paredes são pintadas com um verniz cor de laranja que alguém deve ter se equivocado e achou que parecia madeira natural.

Os barulhos da hora do almoço vinham de trás de uma porta dupla e da sala da televisão, então fomos para lá em vez de entrar no corredor que ia para o quarto da mamãe.

– Tudo bem aí, Arthur? – pergunto gentilmente quando um dos residentes mais antigos sai do banheiro com expressão de quem acabou de entrar em Nárnia. Ele endireita as costas e se defende.

– Estou procurando minhas panelas. Vocês levaram minhas panelas?

– Nós não, Arthur. Por que você não vem conosco e procura na sala de jantar?

Estou quase salvando Arthur antes que ele entre no armário de vassouras, quando a porta dupla se abre e aparece um integrante da equipe dos cuidadores e enfermeiros, Raheem, para oferecer o braço e levá-lo para outro canto.

– Oi – diz William.

Vinte e poucos anos de idade, descendente de somalianos, Raheem também tem um Xbox, por isso os dois sempre têm muito o que conversar.

– Oi, William. Sua avó já vai almoçar. Talvez tenha sobrado algum pedaço de bolo de abacaxi, se você quiser.

– Sim, eu quero.

Meu filho nunca rejeita alimento algum, a não ser aquele que precisei me esforçar demais para preparar e que olha como se eu estivesse lhe oferecendo um prato de lixo industrial fumegante.

William passa pela porta seguido por Raheem e um homem aparece no lugar deles. A pele nas têmporas tem marcas de anos de uma pressão altíssima, que certamente teve um efeito muito mais potente na saúde dele do que o fato de ser um alcoólico recuperado.

– Vovô! – O rosto de William explode em um sorriso e os olhos acinzentados do meu pai faíscam e ganham vida.