Aqui, Agora, Sempre
Capítulo 18
O campo está banhado em uma luz cor de mel quando voltamos para o Château de Roussignol. Deixamos a bagagem de Natasha em Les Écuries e vamos direto para a piscina, onde estão organizando um churrasco de família para a noite.
A churrasqueira quase impraticável de tão grande é comandada por Ben (ou Jovem Ben, como é inexplicavelmente conhecido, apesar de ter a mesma idade da maioria da equipe dali). Um pequeno grupo de crianças com idades que variam de quatro a doze anos se juntam em torno da rede de vôlei, onde Simone as organiza em equipes. No gramado ao lado, William termina de montar uma pista de obstáculos com Adam, antes de participar do jogo com Simone.
– Esse lugar é incrível – diz Natasha, evidentemente surpresa.
Claro que tinha visto fotos no website, e lido todas as avaliações, mas, de perto, o château é algo completamente diferente.
– Mas não é Barbados – comento sorrindo.
No ano anterior tínhamos viajado para lá, em férias de solteiras.
– Ora, Barbados é supervalorizado.
– É mesmo?
Ela suspira.
– Bem, não. Não é não.
Natasha ainda trabalha para a mesma empresa de quando a conheci, mas hoje é a nova diretora de negócios, com base em Londres, onde mora em um pequeno apartamento bem central, com torneiras de grife e carpete creme. Logo que se mudou, parecia aqueles apartamentos de filme adaptado de romance policial, só que Natasha nunca dominou o visual minimalista, por isso em pouco tempo entupiu cada canto com livros e badulaques de viagens.
– Onde está meu favorito de oito anos? – pergunta ela.
– Se está falando do William, está lá jogando vôlei. E tem dez anos.
Ela bufa.
– Quando foi que isso aconteceu?
– Em março.
– Droga. Aposto que significa que passou da idade de curtir Bob, o Construtor? – Ela dá um sorriso largo.
Vamos para a quadra e Natasha tenta acenar para chamar a atenção de William, sem se dar conta de que atenção é a última coisa que meninos dessa idade querem. Ele não responde e ela pisa na areia no mesmo instante em que a bola voa em sua direção.
Sem hesitar Natasha salta, dá uma cortada e vareja a bola. Os outros jogadores, cuja média de idade é sete anos, ficam boquiabertos.
Natasha parece quase tão surpresa quanto todos em volta.
– Hum. Ainda levo jeito. – Ela dá uma risadinha. – Toque aqui, William!
William bate fraco na palma da mão dela e se curva encabulado, de modo que parece estar tentando esconder a cabeça entre as próprias costelas.
– Oi, tia Natasha. – Ele sorri sem jeito.
Simone vai até ela, de cara fechada.
– Essa partida é de crianças com menos de doze anos – diz Simone irritada.
– Desculpe. – Natasha dá um sorriso malicioso quando volta para perto de mim, invalidando o pedido de desculpas.
– Ele é um amor, Jess. E agora, que tal um vin blanc? Ou vin rouge. Ou vin qualquer coisa. Passei um mês desintoxicando e perdi a linha durante o voo para cá, por isso posso muito bem continuar assim.
William espera até Natasha chegar ao bar para correr até onde estou.
– Mamãe, posso fazer uma coisa com papai amanhã?
– Ele disse que pode?
– É, ele disse que podemos fazer rafting de manhã.
– Ah, está bem. Vou ver se Natasha quer ir. Tenho certeza de que ela vai querer... ela adora esse tipo de coisa. Podemos levar um almoço para a viagem.
Mas William balança a cabeça.
– Eu quis dizer só ele e eu. Queremos um dia só dos rapazes.
Claro que eu não nasci com o apêndice correto para me juntar àquele tipo de divertimento.
– Tudo bem? Por favor, mamãe.
De repente tenho a sensação de que ele está me pedindo para deixar que Charlie Sheen cuide dele. Mas a excitação em seus olhos faz com que eu engula minhas preocupações. Pelo menos agora que Natasha está aqui, vou poder me distrair das visões de William se afogando enquanto Adam se afasta sorrateiramente para fumar.
– Suponho que isso deve mantê-lo longe do meu iPad – digo sorrindo.
– Sim! Obrigado, mamãe. Te amo.
– É, você sempre ama quando consegue o que quer. – Faço uma careta rindo e ele volta para o jogo.
– E, afinal, onde está meu iPad?
Ele parece confuso.
– A-acho que deixei no escritório do papai.
– Você acha?
– Tenho certeza que vou encontrar depois desse jogo – ele responde.
Quando Natasha chega com uma garrafa de tinto e duas taças, é impossível não notar que Ben está olhando, mais concentrado na minha amiga do que nos hambúrgueres.
– Você está chamando a atenção daquele lado ali. – Aponto.
Ela olha, o rosto de Ben se abre num sorriso tímido e vejo uma faísca de reconhecimento nos olhos de Natasha. Mas é momentâneo, ato reflexo, então ela pega a garrafa e começa a servir.
– Maravilhoso, sem dúvida. Mas estou empenhada em evitar coisas jovens e quentes no momento.
Enrugo o nariz.
– Por quê?
– Tive casos demais nos últimos anos, Jess. Estou querendo alguma coisa mais... significativa.
– Ah... bom.
– Mas é mais fácil falar do que fazer. E o Tinder não ajuda.
– Ah, não? A última vez que nos falamos você estava muito entusiasmada com ele.
– Isso foi antes de começar a receber mensagens como essa. – Natasha pega seu celular e me mostra sua última troca de mensagens.
Oi, sou muito tímido, mas não me importo de dizer que gostaria de te foder até
você desmaiar. Muito tesuda.
O riso explode nos meus lábios quando rolo para baixo para ver a resposta dela.
Muito obrigada, mas vá embora.
– Natasha!
Adam vem andando em nossa direção, de bermuda e camiseta branca justa no peito. Ele se abaixa e beija Natasha. No início ela parece satisfeita de vê-lo, mas se controla e endireita a boca. Então sorri de novo. Não pode ser fácil quando o homem te presenteou com umas boas férias, mas a lealdade a mim impede que ela se entusiasme demais com ele.
– Oi, Adam, tudo bem com você?
– Muito bem – responde ele. – É ótimo ter Jess e William aqui.
– Dá para ver que a vida foi generosa com você aqui, Adam. Você está superbem. – Ela se policia e olha para mim outra vez. – Levando em conta que está bem mais velho agora.
Ele dá risada.
– É, está pegando um pouco... trinta e três agora. O trabalho ainda mantém você ocupada?
– Sim, mas numa boa. Estou louca para pegar um pouco de sol... e passar algum tempo com Jess e William. E acho que você também está a fim disso...
– Definitivamente. – Ele se vira para mim. – William perguntou se pode fazer rafting comigo?
– Perguntou sim, e tudo bem. Ele está empolgadíssimo com a ideia.
– Ótimo. – Adam parece surpreso e satisfeito. – Fizemos canoagem ontem – ele conta para Natasha. – Jess é uma grande fã.
– Ele está bancando o engraçadinho – falo com voz mole.
– Para ser justo com você, Jess, o tempo não estava ideal. Na próxima vez que eu levá-la para descer o rio, será num dia de sol, para seu nariz não ficar azul.
– Caso não tenha ficado perfeitamente claro, não haverá próxima vez.
Natasha dá risada.
– Bem, eu fiquei muito orgulhoso de você ter tentado – diz Adam.
Não sei por que essa afirmação ficou esquisita. Como pode ficar orgulhoso de mim se não temos mais nada um com o outro?
Olho para William na quadra de vôlei em tempo de ver Simone olhando para nós. Adam nota também e reage afastando um pé de mim, dando a ridícula impressão de que está tentando esconder alguma coisa.
– Você já deu uma olhada na sua cabana? – ele pergunta para Natasha.
– Adam, é maravilhosa. Obrigada por ter nos acomodado tão bem.
– Natasha está acostumada com mansões luxuosas nas Ilhas Maldivas – explico para ele. – É dureza corresponder a isso.
– Ah, Jess, pare com isso. Eu não sou nenhuma princesinha mimada. Além do mais, se eu ficar cheia de vocês dois, vou para um daqueles quartos que têm cama com dossel no château, que vi na internet.
– Vou providenciar um mordomo de plantão para você – diz Adam. – Certo... eu só queria dizer oi, mas tenho de fazer algumas coisas antes de poder sentar e relaxar. – Ele se afasta. – É ótimo ter você aqui, Natasha.
Quando ele desaparece, Natasha vira para mim.
– Como é que ele faz isso?
– O quê?
– Torna impossível odiá-lo.
– Eu não quero que ninguém odeie Adam – digo para ela. – Ele é pai do William. E, sim, aconteceram coisas entre nós, mas foi há muito tempo e agora todos nós seguimos adiante.
Natasha olha para Simone, que está de novo olhando para nós.
– Acho que alguém deve estar mesmo torcendo por isso.