Aqui, Agora, Sempre

Catherine Isaac · Capítulo 49 de 85

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Aqui, Agora, Sempre

Capítulo 48

 

 

É claro que Chloe preferia que removessem suas unhas do pé cirurgicamente a estar ali caminhando conosco. Não que estivesse reclamando, exatamente. Reclamar ia exigir a fala, e ela mal tinha pronunciado uma palavra enquanto se arrastava atrás de mim e de Charlie. William, por outro lado, tinha resolvido que ia conversar com ela.

– Vamos bater papo? – ele sugere animado.

Ela entorta um lado do lábio superior.

– Sobre o quê?

– Humm... Que tal a Peste Negra?

Viro para trás e sorrio para ela.

– Essa é uma oferta e tanto, você tem de admitir.

William fica zangado com a minha deslealdade.

– Sinto muito, querido, mas Chloe provavelmente não está...

– O que você sabe sobre ela? – pergunta Chloe.

William se empertiga.

– Bem, ela começou em 1347 e foi transmitida por ratos, e matou um terço da população da Europa.

– Sabia que ela fazia o baço derreter? – ela contribui.

William fica muito impressionado.

– Uau.

Charlie e eu trocamos sorrisos.

– E então, sobre o que nós vamos conversar? Varíola, talvez? – eu sugiro.

Nós nos afastamos das terras do château, entramos no campo vizinho onde o capim é exuberante e o ar se enche do perfume inebriante de orquídeas selvagens. Acabamos chegando a um mata-burro que separa dois campos e Charlie fica de lado.

– Venham, crianças, vocês primeiro.

William e Chloe passam sem dificuldade e Charlie faz sinal para eu ir em seguida.

Estou na metade das barras do mata-burro quando me dou conta de que ele tem uma visão em close do meu traseiro. E essa hesitação é a minha desgraça, perco o apoio, tropeço e me reequilibro com as pernas abertas e um “ufa!” para acompanhar.

– Tudo bem aí?

Faço que sim com a cabeça e sorrio. As crianças já se afastam com passos largos.

Chegamos a um campo aberto salpicado de carvalhos com as copas bem verdes e percebo que Charlie chega mais perto. Olho para ele, que sussurra.

– Você está maravilhosa hoje.

– Pare com isso, está me deixando encabulada – respondo, mantendo meu instinto de uma vida inteira de fazer pouco de cumprimentos com uma piada.

– Estou falando sério – ele insiste e fica sério demais de novo, especialmente se levar em conta a proximidade dos nossos filhos.

Tusso e tento mudar de assunto.

– Chloe está gostando das férias?

Ele entende a indireta e corrige a postura.

– Parece que sim, quando não está reclamando que morre de tédio.

– Ah, meu Deus...

– Para falar a verdade, acho que ela preferia estar em Orlando – diz ele.

– Orlando é maravilhosa.

– Você esteve lá?

– Uma vez. William e eu fomos quando ele tinha seis anos, com o meu ex, Toby. Eu não esperava gostar, mas fui fisgada instantaneamente. Sou uma triste fã da Disneylândia. Toby odiou. Acho que ninguém se sente em casa nesse tipo de lugar em que as pessoas saem cantando em todas as esquinas, não é?

– Devo admitir que me identifico com isso. Então, por que não deu certo com ele?

– Tirando nossas diferenças quanto ao Reino Mágico, você quer dizer?

Ele fica esperando alguma coisa menos engraçadinha.

– Esfriou – explico. – Nós nunca morremos de amores um pelo outro. Foi tudo muito amigável.

– William não se incomodou de ver você com um cara que não era o pai dele?

– Não, acho que não. Adam e eu nos separamos quando William era muito pequeno, de modo que ele nunca teve base de comparação. E Toby nunca foi uma figura paterna para o William. E você e a mãe de Chloe?

– Chloe definitivamente tem problema com o fato de não estarmos juntos.

– Ah.

– Infelizmente não há nada que eu possa fazer quanto a isso.

Eu não falo nada e ele continua:

– Gina, a mãe de Chloe, é comissária de bordo. Eu confiava completamente nela apesar das histórias que contam sobre casos nas equipes de voo. Um dia a bateria do meu carro pifou e tive de pegar a dela emprestada para ir trabalhar. Abri o porta-malas e achei uma garrafa de champanhe vazia. Perguntei e ela disse que tinha ido almoçar com as amigas mais ou menos uma semana antes, e que tinha trazido a garrafa.

– Parece plausível.

– Aí encontrei o segundo celular.

– Ah, não.

– É, muito clichê.

E ele continua a contar uma história espantosa, com uma série de revelações sórdidas: um piloto que revelou que ela dormiu com a metade da companhia aérea, festas em Jacuzzi nos hotéis e até um incidente na cabine da aeronave que envolveu uma brincadeira dela com um conjunto de controles que não tinham nada a ver com o avião, segundo outro membro da equipe de pilotos. Ela acabou confessando ter tido um caso porque um amigo que trabalhava na firma de advocacia dele a viu em um pub em Chester, beijando outro homem.

– O que mais doeu foi que ela mentiu – diz Charlie. – Lá no fundo eu sabia que essas coisas estavam acontecendo, mas ela continuou negando, até não poder mais. Ela me fez passar dos limites.

– Até você ficar sem escolha e ter de terminar tudo.

Disse isso e olhei para o lado, porque resolvi que não queria explicar que tive a mesma experiência.

– Só que eu estava preparado para perdoar-lhe.

– É mesmo?

– Sim, mas ela quis a separação de qualquer jeito.

De repente sinto vontade de dizer alguma coisa para tornar o ambiente mais leve. Chego mais perto e sussurro:

– Parece que ela é uma perfeita vaca.

Ele dá risada.

– Obrigado. Isso faz com que me sinta muito melhor.

Pegamos uma subida que vai ficando muito íngreme e minhas coxas pegam fogo quando marchamos morro acima.

– Devemos chegar ao lago logo depois desse morro. Vamos, crianças.

Chloe e William tinham ficado para trás, pararam de falar das doenças transmitidas pelo ar e só resmungavam que não entendiam por que estávamos impondo a eles essa tortura toda. Os últimos passos morro acima fazem minhas pernas queimarem. Charlie estende a mão e agarra a minha, me ajuda a subir.

– A vista é formidável – diz ele.

E é mesmo. O campo ondulado e verdejante, um lago faiscante, a água como vidro até um passarinho dar um rasante na superfície e formar círculos perfeitos. O ambiente está quente e quieto, não há nenhuma brisa e o único movimento é o bater silencioso de asas de uma borboleta que passa por nós. Fico um tempo hipnotizada pela criatura, por suas asas sedosas de um azul-céu que tremulam à luz do sol.

Então registro a figura no cais do outro lado do lago.

Adam deitado de costas, só de sunga, a cabeça apoiada numa camiseta, ou blusão, ou qualquer coisa. Ele está lendo um livro.

A visão dele traz uma onda de lembranças que quase me derrubam: dos dias de verão em que íamos de bicicleta ao parque e deitávamos ao léu, líamos ali, lado a lado, parando entre os capítulos para abraços e beijos.

– Ei, é o papai! – grita William – PAPAI!

Ele desce a encosta para encontrar Adam, que levanta e começa a rir quando vê o filho correndo na sua direção. William abraça Adam como se não o visse há meses e Adam retribui o aperto, depois diz para ele sentar. Fico observando os dois por alguns segundos, enquanto minha cabeça se enche de pensamentos sem sentido e indesejados sobre como seria.