Aqui, Agora, Sempre
Capítulo 43
P elo aspecto do céu, eu não tenho muito tempo para chegar ao pátio do château onde William diz que deixou o iPad, do lado de fora, em cima de uma mesa. Quando saio da cabana, fico pensando como foi que conseguimos botar na mala uma pipoqueira e uma pistola de água, e nenhum agasalho à prova d’água.
Passo correndo pelo estacionamento, chego ao caminho entre as árvores verdes e úmidas que emanam uma névoa. Finalmente saio para céu aberto e vejo a piscina abandonada, com as nuvens pretas feito carvão refletidas na superfície. Entro no pátio, olho em volta, mas não há sinal do iPad.
Quando entro para me juntar aos que procuram refúgio da tempestade iminente, avisto o aparelho numa mesa embaixo de uma luminária. Alguém deve ter posto ali quando o tempo virou. Pego o iPad e ponho dentro do blusão quando um relâmpago estala, ilumina a paisagem e os outros hóspedes se assustam.
Depois de ficar meio indecisa, resolvo arriscar, passo correndo pela piscina voltando para o caminho entre as árvores. Mas em pouco tempo o céu desaba e uma chuva pesada castiga meus ombros. A água escorre pelo meu rosto e um profundo rugido de trovão enche meus ouvidos. Então me dou conta de que sair assim no espaço aberto naquela tempestade não era uma boa ideia, e não só porque já estava encharcada. Um estalo elétrico aparece do nada e ilumina o chão na minha frente.
Levo um baita susto e alguém agarra minha mão.
– Por aqui!
Adam e eu aceleramos pelo gramado e vamos para uma pequena construção de pedra. Ele me empurra para dentro quando outro relâmpago ilumina o céu.
– O que vamos fazer aqui? – pergunto.
– Pode acreditar em mim, Jess, não é boa ideia ficar lá fora no meio de uma tempestade. Temos de esperar pelo menos até que os relâmpagos parem.
Encosto numa pilha de lenha abraçando os joelhos e Adam senta ao meu lado.
– O que você estava fazendo lá fora?
Uma gota de água pinga da minha sobrancelha.
– William tinha deixado meu iPad no pátio. Precisava pegá-lo antes desse aguaceiro desabar.
Ele franze a testa, desaprovando.
– Aquele raio caiu perto, você viu. Mais alguns metros e estaria frita.
Estico o pescoço para espiar o céu e vejo mais um relâmpago, mas é menor do que o último. Percebo que estou tremendo. E também percebo que Adam está olhando para mim.
– O que foi? – pergunto.
Ele balança a cabeça e solta o blusão que estava amarrado na sua cintura.
– Não está exatamente quente e seco, mas fique com ele.
– Não precisa – balbucio com o maxilar tremendo.
– Jess, fique com ele.
Resolvo vestir. Mas o espaço é tão exíguo que quando tento me enfiar no blusão a única coisa que consigo é bater no rosto de Adam. Ele morre de rir. Eu sorrio e acabo rindo também. Finalmente consigo enfiar os braços e depois a cabeça. Seco a chuva do nariz e olho para Adam. O olhar dele fica mais terno e ele sorri.
É um gesto minúsculo, mas provoca uma onda de felicidade quente e líquida que deixa minhas pernas bambas.
– Obrigada – digo baixinho.
Mas ele não responde, só fica olhando para mim.
E eu olho para ele também, pelo simples fato de não ser capaz de tirar os olhos dele. Fico examinando suas feições no escuro.
Tudo que aconteceu conosco, de bom e de ruim, se desintegra, e meus ouvidos se enchem com o ruído da minha pulsação, que abafa o som da chuva. Descubro que desejo uma coisa que não desejava havia anos. Quero uma coisa instintiva e animalesca, algo que desafia tudo que sei, e quero tanto que estou quase agarrando Adam pelo pescoço e fazendo. Quero beijá-lo. Desejo isso demais.
Ele inclina o pescoço para espiar pela porta.
– A tempestade está passando – ele murmura.
Mas eu não sigo seu olhar lá para fora. Só olho para ele.
Então a chuva diminui e eu desperto do transe.
– É melhor eu voltar para a cabana.
Ele faz que sim com a cabeça e encosta na parede, mas posso sentir seus olhos em mim, com uma intensidade que desnuda seus pensamentos proibidos.
Estou encharcada e descabelada, mas tão animada por aquele fogo que meu rosto arde. Pego o iPad e enfio dentro do blusão. Então saio de gatinhas do depósito de lenha, dessa vez me controlando para não olhar para trás, para ele, com muito medo do que poderia acontecer se olhasse mais uma vez.