Aqui, Agora, Sempre
Capítulo 8
O jantar acontece numa mesa comprida e comunitária, no terraço atrás do château. William e eu chegamos quando suas antigas paredes eram banhadas pela luz rosa e dourada do sol poente, o ar pesado com o cheiro de ervas e de citronela.
A superfície da piscina está sedosa e silenciosa e os comensais foram organizados em filas. Há um grupo de famílias no outro lado do terraço compartilhando pratos grandes de saladas de ervilhas e peito de pato, taças de vinho tilintam e o riso musical das crianças sobe céu adentro. Assumo meu lugar numa mesa repleta de velinhas cintilantes em potes metálicos e aceito um copo de Pastis tão gelado que fica cheio de gotas de condensação.
Entre as pessoas reunidas essa noite há alguns membros franceses da equipe que são mais antigos, inclusive o paisagista Jean-Luc e um casal mais velho, Monsieur e Madame Blanchard, de quem Adam comprou o château muitos anos atrás. Era propriedade da família deles havia várias gerações, mas na última década, devido a dificuldades para mantê-lo, suas esperanças de abrir como hotel nunca se concretizaram, até Adam comprá-lo. Apesar de aposentados, os dois são excelentes cozinheiros, por isso voltam uma ou duas vezes por semana para aplicar sua experiência na cozinha e dar aulas para os hóspedes. Adam brinca que insistiu para que ficassem por lá para garantir que ele não estragasse o lugar.
Há também quatro jovens britânicos e seus pares franceses que parecem um grupo de estudantes de folga entre o segundo e o terceiro grau, cheios de tatuagens no tornozelo e histórias de viagens para contar. Adam se entrosa com eles incrivelmente bem. Na idade dele, meu pai tinha uma hipoteca, família e o tipo de emprego de contador do qual não dá para sair para pegar ar antes dos sessenta e cinco anos de idade.
Mas aqui Adam pode ter vinte e um para sempre, com o sol sempre brilhando, as mulheres jovens e dispostas a fazer suas vontades. Não que só as mulheres se encantem com ele. Ele é tratado como um cruzamento de irmão mais velho maneiro e ditador benigno, que se cerca de admiradores enquanto a bebida jorra. Em pouco tempo o calor escaldante do dia dá lugar a uma noite agradável e somos iluminados por uma lua cor de laranja, pela luz de velas e pelo brilho azul da água.
A comida é servida em estilo francês informal, começa com salada verde de folhas crocantes e um prato de frios com carnes curadas e secas, mousses e fatiados, peito de pato defumado, tudo servido numa tábua de ardósia.
– O que é? – pergunta William examinando a salada.
Ele está usando uma das camisetas que Adam comprou para ele que está tão justa embaixo dos braços que quase corta sua circulação.
– Gésiers. Experimente, são deliciosas – diz Adam, pondo algumas com uma colher no prato do filho.
William franze o nariz.
– Mas o que são gésiers?
– Moelas. Parte do aparelho digestivo do ganso, se quiser ser mais específico, mas admito que não parecem apetitosas descritas assim. – Ele dá um largo sorriso.
William faz careta e aponto para ele o salame, digo que é exatamente o que ele gosta na pizza, só que melhor.
– Adam me disse que você dá aulas – diz Simone, levando uma taça à boca.
– É, eu ensino escrita criativa para uma turma do ensino médio.
– Fascinante. Você gosta?
– Adoro – respondo, na posição automática.
É complicado demais explicar que já fui apaixonada pelo meu trabalho, até o início desse ano, quando me sentia tão mal que ficava imaginando se ia conseguir gostar de qualquer coisa de novo.
– Você deve ter de fazer malabarismos, sendo mãe solteira.
Ela dá uma ênfase peculiar às duas últimas palavras.
– É, vida atribulada – concordo. – Além disso, minha mãe não está bem, por isso não pode nos ajudar como costumava fazer.
– Ah, que coisa. Cruzando os dedos para ela ficar boa logo – diz ela despreocupada.
Sorrio e faço que sim com a cabeça, depois imagino se isso pode ser a coisa mais britânica que jamais fiz: não querer provocar um bate-papo sobre um assunto tão inconveniente como uma doença incurável.
– Sabe, você realmente lembra a minha mãe – diz Simone, do nada, de repente.
Olho para ela, surpresa.
– Ah, espero que sua mãe seja a Angelina Jolie. – Sorrio de orelha a orelha, mas ela olha para mim sem entender.
– Ela faz um monte de coisas também. Quando as mulheres chegam a uma certa idade, elas assumem muitos compromissos, não é? Minha mãe não para. É por isso que resolvi curtir meus vinte anos ao máximo antes de me prender com responsabilidades e estrias. – Ela sorri e depois se corrige. – Não que eu esteja sugerindo que você tem estrias. Ah, isso soou terrível, não é?
– De jeito nenhum – respondi. E de qualquer maneira, sou culpada da acusação.
Há um momento de silêncio entre mim e Adam depois que Simone pede licença para ir ao banheiro.
– Ela é um doce – digo para ele.
– Obrigado.
– E William gosta dela.
Adam faz cara de quem nunca pensou no que William achava dela.
– Você já conheceu os pais dela?
Ele engasga com o vinho e vira para olhar para mim, enchendo minha cabeça com uma explosão inesperada do gel de banho perfumado que está usando esses dias.
– Esse é seu jeito de dizer que ela é jovem demais para mim?
– Longe de mim julgar. – Sorrio olhando para minha taça e sinto que ele olha para mim. – Não, ela é simpática. Falo sério – insisto, e resolvo que basta dessa conversa. – Ah, William, deixe-me tirar uma foto para você mandar para o vovô.
William para e sorri para a câmera, então Adam se oferece para tirar uma de nós dois também. Eu escolho uma imagem e componho o texto:
Chegamos bem e William já está se divertindo depois de uma longa viagem!
Como está mamãe? bjs.
Clico em enviar e vejo o sinal de wi-fi piscando, com dificuldade.
– Temo que o wi-fi não seja exatamente supersônico aqui. Somos rurais demais – diz Adam. – Deve acabar chegando lá, mas se você precisar falar com seus pais pelo Skype ou mandar alguma coisa com urgência, venha ao escritório para fazer isso.
– Obrigada.
Adam tira um pacote de papéis e um pouco de tabaco do bolso de trás da calça. Eu abaixo meu celular.
– Pensei que tivesse parado.
– Hoje em dia sou apenas um fumante social.
Observo Adam começar a enrolar o cigarro e olho para William. Sei que ele é inteligente, mas mesmo assim não quero que tenha ideias.
– Nós todos temos nossos vícios – Adam diz sacudindo os ombros.
– É, mas o meu é bolo e Netflix, nenhum fatal.
Ele me olha com desprezo.
– Dá um tempo, Jess.
E mesmo tendo uma dúzia de respostas zumbindo na cabeça, eu respiro fundo, bebo um bom gole de vinho e procuro outra pessoa para conversar.
– Como está sua cabana, Jess?
O jovem sentado ao lado de William tem olhos castanhos sonolentos e sotaque galês supersuave, mas cabelo de surfista, louro e salgado.
– Está ótima, obrigada.
– Ouviu isso, patrão? – Ele sorri para Adam.
– As melhores notas. – Adam vira para mim. – Ben fez a limpeza antes de vocês chegarem. Ele não para com suas calêndulas.
Ben dá risada.
– Esses são os contratempos de vir trabalhar num lugar maravilhoso como esse. Você tem sol e um cenário lindo. Mas também tem de arregaçar as mangas e limpar privadas quando quem faz a faxina telefona para dizer que está doente.
– Bom, estava brilhando – eu digo para ele. – Merece meus cumprimentos.
– Um brinde a isso – ele diz, levantando a taça.
Quando William e eu caímos em nossas respectivas camas duas horas depois, eu deito de costas, verifico meu celular e noto que uma mensagem do papai conseguiu chegar.
Feliz que William está aproveitando. Mas e você? Mamãe teve um bom dia.
Passei a tarde em Willow Bank e o dia estava lindo, por isso sentamos no jardim
e vimos juntos os livros de bolos dela. Papai. bjs.
Fechei os olhos e visualizei os dois sentados entre as rosas enquanto ele virava as páginas grossas e brilhantes, dando uma chance aos olhos dela de se concentrarem em cada foto. Não deve haver muitas receitas do doce ofício que ela não tinha tentado fazer em algum momento. Para mamãe, aquilo não era só um passatempo, era sua paixão.
E mesmo que as elaboradas criações naqueles livros agora estejam além de sua capacidade, mamãe gosta de olhar para elas e de lembrar a mágica que fazia com um armário cheio de ingredientes, um pouco de paciência e seu dom artístico natural.