Aqui, Agora, Sempre
Capítulo 15
N o sábado acordamos com chuva. Eu me encolho no sofá de pijama, abraçando os joelhos contra o peito e bebendo um café enquanto rios de água serpenteiam no vidro da janela. Uma opressiva lembrança da escuridão da minha vida, de coisas que simplesmente não consigo esquecer apesar de estar em um lugar bonito, rodeada de flores lindas, com comida e vinho.
Ouço uma batida forte na janela, olho para lá e vejo Adam. Antes de ter a chance de me mexer, William já saiu do quarto e convida o pai para entrar.
– Quer dar um mergulho? – ele pergunta para William.
– Quero!
– Certo. Vai precisar de tênis, short e uma toalha.
– Tênis? – pergunto, espantada. – Para que ele precisa de calçado numa piscina?
Adam se vira e me dá um sorriso de orelha a orelha.
– Quem falou de piscina?
Duas horas depois, a chuva dá lugar ao que deve ser considerado como o dia mais frio da Dordogne, desde que começaram a registrar. Sob os cuidados duvidosos de um guia chamado Enzo, caminhamos uma curta distância numa trilha na montanha e nos vemos diante de uma cachoeira que cai com velocidade suficiente para cobrir nossos rostos com uma nuvem de spray branco. Estamos com roupas de borracha, caneleiras e capacete e nada disso combina com férias, no que me diz respeito.
– Você lembra que William tem um histórico de asma? – pergunto para Adam.
– Ele vai ficar bem – responde ele, sem dar importância.
Franzo a testa.
– Como você sabe que ele vai ficar bem?
Adam chama William.
– Quanto tempo faz que ele usou uma bombinha pela última vez? Ele usava fraldas, não é?
Resolvo não responder, só observo Adam verificando a presilha do capacete de William.
– Mas olhe só para isso. Falo sério, Adam. Isso não pode ser adequado para um menino de dez anos.
Ele se vira para Enzo, que é mais baixo do que eu, tem a pele bem bronzeada e ombros iguais aos de um bonequinho Lego. Os dois conversam em francês e eu não entendo nada.
– Enzo confirmou que está tudo bem – Adam diz.
– Não dá para confiar no Enzo – resmungo baixinho.
Enzo sorri para mim.
– Confie em mim, não se preocupe. Eu cuido do seu filho.
Faço que sim com a cabeça e mordo a articulação do meu polegar.
– Mamãe, não estou com medo – diz William. – Além disso, você vem conosco, não é? Vai poder ficar de olho em mim se estiver preocupada.
Esse é outro problema. Eu não quero ir com eles. Preferia fazer praticamente qualquer outra coisa no lugar disso: declarar renda, pagar uma multa de estacionamento, fazer um exame Papanicolau. Qualquer dessas coisas seria divertidíssima comparando com isso. Porque mesmo sabendo que escalar rochas de quatro e descer de costas por cachoeiras seja a ideia que algumas pessoas têm do paraíso, o tipo de atividade que vemos as pessoas praticando em anúncios de granola, realmente não é a minha praia.
Olho para William, que não parece nem um pouco perturbado com a perspectiva de mergulhar de corpo inteiro na água gelada, ou com a possibilidade de se machucar, ou com... como o documento que eu tinha acabado de assinar enfatizava alegremente... a MORTE. A julgar pela vermelhidão trêmula das suas bochechas que indicavam excitação, a probabilidade de eu conseguir persuadi-lo a desistir de tudo para fazer uma cópia em papel dos metais da catedral do século XIV mais próxima parecia remota.
– La première chose à faire c’est d’entrer dans l’eau comme ça, tout doucement, pour éviter une crise cardiaque – diz Enzo.
Adam dá uma gargalhada.
– O que ele está falando? – Faço uma careta e bato no ombro de Adam, enquanto Enzo afunda no primeiro poço.
– Ele disse para entrar na água. Mas que deve estar fria.
Adam senta com água até a cintura e não se abala. Eu vou em seguida e sujeito minhas partes femininas a uma experiência tão horripilante de gelada e tão profundamente desagradável que me convenço de que levarei dias para derreter.
– Vous me remercierez de vous avoir avertis – declara Enzo, e olho para Adam querendo tradução.
– Ele disse que você vai agradecer a ele por isso.
Antes que eu tenha a chance de perguntar agradecer o quê, Enzo começa a balançar a perna para frente e para trás como um psicopata, espirrando água gelada no meu rosto, que entra no meu nariz, nos meus olhos, e que me faz parar de respirar. Quando ele finalmente para, descubro que se não estivesse tão chocada estaria chorando. William e Adam, que também estavam encharcados, estão morrendo de rir.
– Tudo bem aí? – pergunta Adam, pondo a mão no meu braço.
Ato reflexo, eu tiro a mão dele e tento fazer meu queixo parar de bater.
– Claro – respondo, e tiro uma mecha grossa de cabelo das profundezas da minha cavidade nasal. – Apenas trate de cuidar do seu filho.
Ele olha para mim de novo e franze a testa.
– Jess. Eu juro. Ele ficará bem.
Na próxima hora e meia vivenciamos a natureza mais crua, selvagem e violentamente bela. Uma das piores experiências da minha vida adulta.
Não é nem o fato de estar prestes a sofrer de hipotermia que me incomoda. É que, contrariando tudo que Adam e Enzo disseram, esse passatempo é obviamente perigoso e claramente inadequado para uma criança. Ou pelo menos para o meu filho. Que ignora completamente esses fatos e parece estar curtindo à beça.
Enquanto deslizamos pelas cachoeiras e caímos em poços profundos, só consigo pensar em ossos fraturados, pulmões cheios de água, ferimentos enormes e todos nós perdidos ali, com pouco mais do que um pacote de frango frito.
– Mamãe, isso é FANTÁSTICO! – declara William.
– Ah... que bom – eu gemo.
Bem quando sinto uma esperança vaga de que aquilo está acabando, Enzo vira e sorri para mim.
– Essa é a prova de bravura. Só para vocês.
Ele pisca um olho. Preciso de muita coisa para não gostar de alguém, mas acho que Enzo deve ter conseguido.
– Voici comment il faut faire. Si vous ne faites pas comme moi, vous vous ferez mal, donc écoutez-moi bien.
– Ele diz que vocês têm de fazer exatamente como ele faz, senão vão se machucar – Adam me explica.
Enzo fica na beira da pedra com uma vasta quantidade de água passando nas canelas dele.
Então ele pula.
Passa um segundo antes de eu ouvir o barulho que ele faz quando bate na água lá embaixo. Espio na borda da pedra, vejo Enzo finalmente aparecer e levantar os polegares para nós antes de subir na margem.
– Meu filho não vai fazer isso – digo para Adam.
Adam avalia a altura da pedra e retesa o maxilar.
– Está bem.
– Estou falando sério, Adam. Isso é ridículo. Ele tem dez anos.
– Concordo – diz ele. – Acho que está certa nisso...
O barulho na água que interrompe essa conversa lança adrenalina fervente dentro de mim. Percebo que há um espaço vazio onde William estava. Adam e eu corremos para a ponta da pedra e olhamos para a água, para a sombra lá embaixo, com bolhas em cima, onde a força do meu filho mergulhou fundo.
Minhas pernas fraquejam.
Eu sei que não posso confiar naqueles dois para salvá-lo, por isso desço correndo pela margem, escorregando e tropeçando na lama, até encontrar uma abertura. Então faço a única coisa que o instinto maternal permite: desço de costas, agarro tufos de grama e lama e pedras para me equilibrar. Mergulho na água de bunda e não sei descrever a onda branca e cega que me envolve nos cinco segundos em que afundo, de boca aberta, cheia de água gelada. Só posso dizer que me senti como um hamster sendo afogado na descarga da privada.
Bato os braços freneticamente até conseguir me agarrar a alguma coisa que parece ser a perna do William. Estou contemplando o que vou fazer em seguida, com o rosto franzido e os ouvidos cheios de ruído, quando me dou conta de que meu filho está vivo e chutando. ME chutando, para ser mais precisa.
Contra a maré da água furiosa e esticando pernas e braços, eu me iço para a margem, cuspindo e secando os olhos, então o vejo sentado ao lado, balançando a cabeça.
– Você podia esperar até eu subir, mamãe – ele resmunga. – Nem era a sua vez.
Depois trocamos de roupa numa barraca alta, que é tudo que temos de recurso quando estamos tão isolados no campo. William tinha passado a manhã se comportando como uma miniatura de fuzileiro naval – capaz, firme, alguém que consegue negociar qualquer coisa que a natureza apresente – e de repente é incapaz de tirar a meia sozinho.
– Está muito molhada – reclama ele. – Grudou. Não consigo tirar.
Passo os três minutos seguintes tentando tirar as meias dele, meus dentes batendo demais, então ele vai ficar com o pai para eu ter espaço para me despir. Para isso tenho de me contorcer em uma variedade de posições improváveis, com a barraca adejando em volta, e quase desloco meu cotovelo tentando pôr o sutiã. Quando saio da barraca, o sol aparece entre as nuvens e Enzo está empilhando o equipamento na van. Entrego a roupa de mergulho.
– Obrigada – eu digo e me forço a sorrir.
– Seu filho foi muito bom. Bravo – ele diz.
Tenho uma estranha sensação de orgulho.
– Foi mesmo, não é?
Enzo bate a porta.
– Onde ele está agora? – pergunto.
Enzo aponta para o outro lado da estrada, para Adam e William sentados lado a lado à beira do lago. Com raios de luz cortando o cinza do céu, eu vou até eles e desacelero quando me aproximo.
Não ouço o que dizem, mas os dois estão rindo alto, dando gargalhadas. Adam passa o braço pelas costas de William e lhe dá um abraço apertado.
Paro e pego rapidamente meu celular para tirar uma foto deles.
O relacionamento entre o meu filho e o pai dele é muito mais frágil e complicado do que indica a foto, mesmo com o filtro do Instagram para dar mais brilho. Mas ainda assim é uma bela imagem. Uma que espero que minha mãe guarde no coração pelo tempo que ele bater.