Aqui, Agora, Sempre
Capítulo 52
O s filhos de Becky e Seb acabam adormecendo no sofá de Adam como peças de dominó, primeiro Poppy, depois Rufus, depois James. Adam e Seb carregam os meninos de volta para a cabana deles, pesos mortos nos ombros, enquanto Becky empurra Poppy no carrinho, os dedinhos gorduchos da menina segurando as orelhas do coelho rosa.
Enquanto isso William resolve provar que Guardiões da Galáxia nunca envelhece, encolhido no quarto de hóspedes de Adam para assistir pela décima sétima vez no meu iPad, e eu me ofereço para tirar os pratos.
Ponho a cara na porta, ele olha para mim surpreso, e fecha a tela.
– O que você está vendo aí? Espero que não seja nada impróprio.
Minha cabeça explode com ideias ébrias e fragmentadas sobre o site de DH que esqueci de fechar no dia da tempestade.
– Não, não – ele diz e me dá o iPad para provar que estava tentando e não conseguindo assistir a um vídeo intitulado “Epic Fails”.
– Tem palavrão nesse?
– Não muito... – ele responde e abre a boca num grande bocejo. – Estou muito cansado.
– Então venha, precisamos voltar e você está muito grande para eu carregar.
Ele geme, vira para o outro lado e puxa a coberta até os ombros.
– Ele pode dormir aqui essa noite, se quiser.
O calor do corpo de Adam perto do meu faz com que eu estremeça, e me afasto de propósito.
– Tenho certeza de que ele consegue ir andando para casa, mesmo a essa hora.
– Não, eu quero ficar aqui – protesta William.
Olho para meu filho e para o pai dele.
– Está bem, mas tire o sapato e a meia e deite na cama, pelo menos. Venho te buscar de manhã, ok?
– Ok – ele diz animado, entra embaixo das cobertas, tira as meias e joga na minha direção.
– Nossa... obrigada.
Faço uma careta para pegar as meias, vou até lá e beijo William. Deixo meu rosto um tempinho encostado na pele dele e quando me afasto sinto uma pontada no coração, dominada por um daqueles momentos de pura gratidão por tê-lo.
– Eu te amo – cochicho para ele.
– E eu te amo mais ainda.
– Não, eu é que amo mais.
– De jeito nenhum – ele diz, eu dou risada e saio do quarto, esperando que Adam já tenha saído. Mas não, ele está lá nos observando, seus olhos se enchem de emoção inesperada quando ele entra e dá um beijo demorado na testa de William.
Saio da cabana e a luz da lua alta forma sombras na grama, constelações pairando no céu como teias de aranha celestes. Adam começa a empilhar as cadeiras e eu penduro a bolsa no ombro.
– É melhor eu ir. Tem certeza de que ele pode dormir aqui?
Adam para e se empertiga.
– Claro que pode.
Faço que sim com a cabeça e vou saindo.
– Jess?
– Sim?
– Quer um chá? Detesto me gabar de conseguir substâncias ilícitas, mas tenho um Yorkshire.
Sorrio automaticamente.
– Quem é seu fornecedor?
– O nome dela é Maureen. Tem sessenta e seis anos, vem de Shopshire para cá todos os anos e ai de você se pisar no calo dela. Pode sentar, vou botar a chaleira no fogo.
Sento no banco desbotado do lado de fora da cabana e espero ouvindo o ritmo lírico dos grilos rompendo o silêncio.
Adam aparece com um bule de chá e a visão da sua silhueta contra a luz atrás da porta faz ferver minhas entranhas. Ele traz o chá para a mesa, passa a perna por cima do banco e senta bem na minha frente. Olho para o lado e estudo os nós da madeira.
Ele serve duas canecas, levanta a dele e bate na minha.
– Saúde.
O líquido quente desce pela minha garganta e eu respiro o odor de Adam, com a cabeça cheia de lembranças.
– Que cheiro é esse?
Ele olha para mim e brinca, cheirando as axilas.
– Que cheiro?
– Não é desagradável. Eu quis dizer... sua loção pós-barba. Acho que reconheci.
Passa um segundo.
– É Terre d’Hermès.
Engulo o algodão seco que se formou na minha garganta.
– Você sempre usava essa.
Ele faz cara de quem foi pego no pulo.
– Bom, não usava há anos, mas vi na Sarlat e lembrei que gostava.
Ele fixa os olhos nos meus e sou invadida por sensações tão potentes que meus dedos chegam a tremer. Ali sentada ao lado dele, do homem que amei e odiei, descubro de repente que é impossível lembrar por que não estamos mais juntos.
Há uma lógica meio vaga murmurando na minha cabeça, dizendo que é hora de ir embora. Mas a sensação de que outra pessoa pode nos virar do avesso só de olhar para nós é tão inebriante que não quero que acabe.
Nesse momento eu o desejo. Olho para os lábios dele e desejo prová-los. Quero passar os dedos ao longo do seu maxilar para ver se a sensação ainda é a mesma.
Uma pressão intensa começa a crescer dentro de mim e reconheço um sentimento que não tinha há anos. Um desejo incandescente que só aumenta quando Adam se recusa a desviar os olhos dos meus.
Acima de tudo me faz lembrar de uma coisa. O que quer que a vida possa reservar para mim, nesse momento é isso: estou viva.
Não estou num canto, atormentada pelo meu futuro. Não estou arrasada de medo pelo meu filho, por minha mãe e por mim. Estou vivendo, respirando e sentindo. Ele se inclina para mais perto de mim.
Quando nossos lábios se encontram, o beijo parece novo e velho ao mesmo tempo. Ele move minha perna por cima do banco, segura minha mão e me puxa para ele, faz com que o abrace e molde meu corpo no dele, sua boca mergulha mais ainda na minha.
– Não devíamos fazer isso – murmuro e jogo a cabeça para trás quando os lábios dele encostam na pele embaixo da minha orelha.
– Devíamos – diz ele, passando a mão no meu cabelo, beijando minha boca, minhas têmporas, meu pescoço, e eu penso vagamente que estou bêbada, que foi por isso que permiti que as coisas chegassem tão longe.
Mas não é isso.
Posso estar cheia de vinho, mas eu quero isso.
Quero que ele segure minha mão e fique de pé, que me convide a fazer a mesma coisa. Quero que ele me leve para a cabana, passando pela porta do quarto onde William está, parando só para verificar que ele está dormindo embaixo das cobertas. Quero que ele vá pelo corredor até o outro lado da cabana e que eu entre no quarto dele, que ele feche a porta e me beije de novo, com a mão deslizando nas minhas costas.
Tiramos a roupa um do outro lentamente, saboreando cada momento de pele nova e nua que aparece.
Eu tinha esquecido como Adam era lindo sem roupa. Fico dividida entre tocar nele ou olhar para ele, para a torturante perfeição do seu corpo. Não chego a escolher. Quando o peso dele me preenche, agarro suas costas e sinto meu sangue pulsar na ponta dos dedos. Então ele para e põe a mão no meu queixo.
– Você sabe o quanto eu te acho linda? Sabe o quanto sempre te achei linda?
Suas palavras fazem meus olhos se encherem de lágrimas. Mas não quero falar. Só quero o calor dele dentro de mim e aquela sensação imensa que apaga todas as outras, como era no começo.