Aqui, Agora, Sempre

Catherine Isaac · Capítulo 56 de 85

Páginas do PDF

Aqui, Agora, Sempre

Capítulo 55

 

C onsigo falar com mamãe pelo Skype aquela manhã. Enquanto a imagem vai carregando, faço a habitual avaliação do seu estado físico e tenho uma onda de otimismo indevido quando ela está imóvel. Então vejo que a tela congelou. Quando ganha vida, o ombro dela sobe e meu estômago aperta com uma agonia bem conhecida.

Sorrio.

– Oi, mamãe! Como vão as coisas?

Meu pai segura o iPad para ela. Há um momento em que ela tenta responder, mas não consegue pronunciar as palavras corretamente.

– Foi uma manhã movimentada – papai acaba explicando. – Gemma apareceu e ficou mais ou menos uma hora.

A amizade dela com mamãe vem desde a adolescência. Elas eram inseparáveis. De certa forma ainda são.

– Além disso, recebemos a visita de crianças de uma escola e vamos ver o Dr. Gianopoulos mais tarde.

– Ah, sim. Que bom.

O Dr. Gianopoulos tem dado consulta à mamãe desde o início e ela gosta dele, principalmente porque ele é inteligente e solidário, mas também porque, ela disse uma vez, parece com Rob Lowe.

– William tem jogado futebol, mamãe. Desculpe. Devia ter esperado a partida terminar para ele vir para cá. Ele está gostando muito do jogo ultimamente. Não tenho certeza se será tão bom quanto Cristiano Ronaldo, mas pelo menos pegou gosto.

Ela não responde. Hoje seus olhos parecem vidrados, ela não consegue olhar para mim na tela. A blusa fina pende solta dos ombros. Papai se inclina, tira um lenço de papel do bolso e seca um pouco de saliva do canto da boca de mamãe.

– O que as crianças da escola foram fazer aí? – pergunto para ela.

Ela procura a palavra certa um longo tempo. E acaba dizendo.

– Cantar.

– Ah, que bom.

– Desafinados – ela me corrige e eu consigo rir.

– William tem passado todo tempo que pode com Adam esses dias. Está se divertindo muito. Tive minhas dúvidas no começo, você sabe, mas devo isso a você. Eles estão se dando muito bem.

Ela grunhe. E eu consigo entender: “Ótimo.”

– Achei que você ia gostar. Estou contente também.

– Não, você. Bonita hoje.

– Ah, é? Verdade? Obrigada.

Depois de outra longa pausa, ela acrescenta:

– Feliz.

Não tenho dúvida de que o rosto corado e o ar de satisfação podem ser atribuídos a ter ido para a cama com Adam, mas essa não é uma informação que desejo compartilhar.

– Ando comendo muita fruta fresca – resmungo.

Um tempo atrás eu teria contado para ela o que tenho sentido em relação a Adam. Sei que papo de relacionamento às vezes é avançado demais para algumas mães e filhas, mas foi sempre natural entre nós.

Descrevi a felicidade enorme que senti quando o conheci e o sofrimento quando terminamos. Foi então, naqueles meses depois do rompimento com Adam, que entendi o quanto contava com ela. Ela era forte. Conseguia raciocinar quando eu não pensava direito. E ela me ensinou que, por mais arrasada que estivesse, eu ressurgiria das cinzas e viveria sem ele.

Uma noite logo depois de voltar a morar na casa dos meus pais, antes de saber o que mamãe estava enfrentando, ela me deu o que só posso descrever como um bom sermão.

– Jess, você é forte, inteligente, e será uma excelente mãe. As coisas não funcionaram com você e Adam, mas você tem muitas coisas boas pela frente. Você consegue superar isso.

Essa era a postura dela para tudo na vida: não reclame, não se amofine, apenas siga em frente e faça o melhor com o que tem. Ela sempre viveu assim.

 

No último ano de William no jardim de infância, ele representou numa peça de Natal e levei mamãe e papai para assistirem comigo. Isso foi antes de mamãe precisar da cadeira de rodas, mas a coreia – os movimentos involuntários – já era tão pronunciada que chegou a provocar um silêncio na sala, quando ela entrou com passos tensos e trêmulos.

– Venha, mamãe. Tem um lugar aqui – eu disse, cumprimentando dois casais e o presidente da associação de pais e mestres.

– Jess, posso vender uma rifa para você? – Diana, mãe de Oliver, amigo do William, apareceu com um talão de rifas. – Há prêmios fantásticos: três garrafas de espumante Bucks Fizz, uma tábua de carnes e frios, e um spa elétrico para os pés. Não se assuste com a embalagem manchada, juro que é novo em folha!

– Sim, claro – respondi, peguei minha carteira e ela olhou logo para a desconhecida ao meu lado.

Dei o dinheiro e notei que ela não olhou mais para mim. Só olhava para minha mãe, para o rosto deformado por caretas. Para os que não conheciam a doença, devia ser uma visão monstruosa. A reação de Diana era comum, mas nunca me habituei. Apesar de ter certeza de haver mencionado vagamente para ela um dia que minha mãe não estava bem, ficou óbvio que não estava preparada para aquilo. Não teve tempo de preparar o semblante com uma expressão tranquila.

– Obrigada, querida – ela respondeu sem jeito, e eu decodifiquei o espectro de emoções em seus olhos: espanto, susto, nojo.

Papai segurou mamãe pelo braço e fomos sentar em três lugares lá atrás, abrindo caminho na onda de gente.

– Afaste-se – sussurrou uma mulher puxando a filha pequena para perto dela, evidentemente com medo, achando que mamãe estava bêbada ou era maluca.

Ou então, como mais tarde uma criança perguntou para William, sua avó saiu do hospício?

A peça começou e, mesmo nos nossos lugares discretos, os sons não humanos que escapavam da boca de mamãe eram audíveis. Eu rezava para tocarem logo outra música para abafar aqueles ruídos. Depois serviram tortinhas doces e vinho quente na cantina. Eu quis ir direto para casa, mas William estava louco para ficar.

– Não, vamos para casa, meu amor.

– Tudo bem – interrompeu mamãe. – Podemos ficar mais um pouco.

Só passou um minuto e mamãe derramou a bebida na professora nova de William, que distribuía copos plásticos com vinho até a metade.

A Srta. Harrison era gentil, bondosa e se espantou de num minuto estar conversando com os pais sobre o desempenho entusiasmado do rei Herodes e no minuto seguinte ter o líquido vermelho e quente escorrendo em sua blusa.

Mamãe enfrentou com seu humor tipicamente fleumático.

– Desculpe, querida, minha coordenação está horrível.

– Ah, não faz mal – insistiu a Srta. Harrison, rubra.

– Pagarei com prazer a lavagem a seco – mamãe acrescentou. – Tenho sido a cliente mais fiel deles de um tempo para cá.

 

Desperto das lembranças e olho de novo para a tela do Skype.

– Bom, mamãe, agora eu vou.

Minha mãe olha para mim, a cabeça não para de tremer enquanto ela tenta focalizar. Então o rosto dela se contorce no que pode ser um sorriso ou não. Saio do quarto resolvendo acreditar que foi. Que na confusão sombria em que seu cérebro se transformou, às vezes ainda é possível acender uma luz.