Aqui, Agora, Sempre
Capítulo 42
A s crianças quiseram ficar no château hoje, por isso Seb se ofereceu para levá-las em uma grande excursão pela propriedade, liberando a tarde para Becky, Natasha e eu passarmos juntas.
Depois do que ouvi aquela manhã, só podia concluir que dar um tempo para Becky era uma boa ideia. Por isso pulamos no meu carro, Natasha encarregada do livro-guia, e partimos para nossa excursão até um pequeno lugar chamado Sorges. Como tantas aldeias da Dordogne, as casas cor de mel e belas praças dão a impressão de ter entrado no século XXI vindas de outra era.
– Essa é a capital das trufas da Dordogne – anuncia Natasha. – Tem até um museu de trufas.
– E pensar que as crianças queriam ir para a Disneylândia... – murmura Becky.
Passo cinco minutos com ela do lado de fora de uma loja enquanto Natasha vai dar uma olhada lá dentro, e finalmente sai com um vidro de geleia de pera e trufa que custou mais do que a última bolsa que comprei. Em seguida, andamos a esmo e descobrimos um belo auberge com varanda e toldo pintado de azul-claro, com toalhas perfeitamente brancas nas mesas e cardápio escrito com giz em uma lousa.
Natasha pede café. Olho para meu celular e vejo uma mensagem nova. Abro com a esperança vaga de que seja Adam dando notícias de William. Não que eu não confie nele, mas uma confirmação de que meu filho está vivo e não mergulhando em outra cachoeira seria muito bem-vinda. Mas o texto é de Charlie.
Não consigo parar de pensar no nosso beijo
Tamborilo na mesa pensando como vou responder.
Foi delicioso, apesar de acabar de repente!
Abaixo o celular e vejo que Natasha está enviando mensagem de texto também, com um sorriso maroto.
– Ah, vocês duas aí namorando – geme Becky, examinando o cardápio.
– Eu não estou namorando – protesto. – Só estou enviando uma mensagem de texto.
– E eu só estou recebendo uma – diz Natasha.
– É do Joshua? – pergunta Becky, e Natasha faz que sim com a cabeça. – Você sabe que está partindo o coração daquele tal de Ben toda vez que ele vê vocês dois juntos, não sabe?
– Não seja boba – responde Natasha, mas acho que nós três sabemos que isso é verdade.
– Tenho saudade de quando recebia textos românticos – suspira Becky. – O último que Seb enviou foi para perguntar onde eu tinha guardado o polvilho para pé de atleta.
Ela olha para Natasha que agora está concentrada em seu celular novamente.
– O texto deve ser bom, o que quer que diga – acrescenta Becky.
– Agora estou vendo outra coisa. Eu não procurei, mas tem um artigo que apareceu no meu Facebook que se chama Dez dicas de sexo da Cosmo que você deve experimentar esta noite. Nem imagino por que os algoritmos acharam que eu podia me interessar por isso.
Becky dá uma risadinha e pega o celular da mão dela.
– Dê uma massagem sem mãos no seu homem. Experimente a posição amazona de costas. Faça seu homem escrever uma lista dos três movimentos que o levam à loucura, e faça a mesma coisa. Depois troquem as listas. Ah, essa é velha...
Natasha e eu trocamos olhares.
– Mas não tenho feito ultimamente, por sinal – continua Becky. – A única coisa que me enlouquece esses dias é quando ele não fecha o tubo de pasta de dente.
– Você tem um marido maravilhoso – diz Natasha.
– É, mas experimente fazer a posição amazona de costas quando um dos três filhos está a postos para irromper no quarto querendo saber por que papai geme como se estivesse sendo torturado. Não que isso aconteça muito... hoje em dia nunca temos tempo.
Natasha franze a testa.
– Vocês precisam arrumar tempo.
– Gosto quando conseguimos, mas a verdade é que... não tenho um orgasmo desde antes de Poppy nascer.
Natasha olha para mim incrédula.
– Mas ela já está com quase três anos.
– Não é nada demais do jeito que as coisas estão, Natasha. Tenho outras coisas com que me preocupar.
Natasha não parece convencida. Meu celular apita e Becky abre o menu do dela.
– Ah, qual é, Jess... Mostre o que o namorado está dizendo.
– Não posso... – digo com malícia e estendo o celular para ela ver.
Não consigo parar de pensar nos seus lábios
– Bom homem – conclui Becky, olhando para mim. – Eu sei que tudo está difícil para você agora, Jess. Mas prometa que vai se lembrar de aproveitar isso.
Quando voltamos para o Château de Roussignol, peço que Becky me deixe lá para encontrar William. Eu o avisto jogando futebol com um dos meninos holandeses.
– Oi, mamãe – William grita e acena para mim do campo.
– Teve um bom dia com seu pai?
– Ótimo. Batemos bola quando voltamos para cá. Ele me mostrou um monte de truques com a bola. Posso ficar mais um pouco para jogar com Finn? – ele pede, vindo na minha direção.
Finn parece assustado. Desconfio que a tolerância dele chegou ao limite, já que meu filho não conseguiria chutar uma bola na direção certa, nem se sua vida dependesse disso.
– Tudo bem. Vá com sua mãe. Está ótimo.
William franze a testa.
– Está bom. Podemos jogar de novo amanhã, o que acha?
Finn dá um sorriso desanimado e aproveita a chance para desaparecer.
– Onde está seu pai agora? – pergunto.
– Ele tinha de fazer uma ligação – William diz, apontando para o château, e vejo Adam na varanda, falando ao celular.
Ele acena e eu retribuo o gesto sem jeito.
– Vá dizer para ele que estamos indo para a cabana.
William vai e volta logo para me acompanhar no caminho de Les Écuries. Depois de duas semanas e meia de sol praticamente sem interrupção, sinto o ar pesado de umidade e nuvens pretas trovejam lá no alto.
– Papai disse que vai cair um toró – William avisa.
– Acho que ele pode estar certo – resmungo e apresso o passo. – Então, o que mais fez hoje?
– Banquei o “sombra” quando fomos a Bergerac; isto é, fui com ele a um encontro. Quando voltamos, ajudei Simone em alguns afazeres também. Ela é bem bonita, Simone, não é?
– É sim – concordo.
– Acho parecida com a Megan Fox.
– Megan Fox tem cabelo castanho.
– Eu sei, mas fora isso, acho muito linda.
As trovoadas nos fazem apertar o passo.
– Vamos, mais rápido.
Seguro a mão de William e começamos a correr. Chegamos à cabana antes da chuva e me atrapalho com a chave.
– Acho que essa noite vai ser boa para ficar com o iPad – digo para ele.
William parece chocado.
– Quer dizer que vai mesmo deixar eu usar?
– Vou. – Dou de ombros.
– Sssim!
Dou risada.
– Onde você botou depois de usá-lo de manhã?
O sorriso se desmancha e ele arregala tanto os olhos que quase estalam. Ele corre para o quarto, volta correndo para a sala de estar, bufa alto e bate na boca com a palma da mão.
– O que foi? – pergunto em voz baixa, mas já sei exatamente por que ele está se comportando daquela maneira.
– Acabei de lembrar onde deixei.