Aqui, Agora, Sempre

Catherine Isaac · Capítulo 36 de 85

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Aqui, Agora, Sempre

Capítulo 35

 

F alei com papai algumas vezes desde que cheguei aqui, mas fazer uma chamada de vídeo para poder ver mamãe é muito difícil. Teria mais sorte me comunicando com a Estação Espacial Internacional do que procurando uma conexão de wi-fi bastante possante para ter o Skype funcionando por mais de dez segundos.

Mas no domingo recebi uma mensagem de texto do papai perguntando se tinha tempo para conversar. A forma com que ele fez a pergunta arrepiou os pelinhos da minha nuca com pânico, e quis fazer mais do que simplesmente telefonar e ficar ouvindo ele dizer que os dois estão bem. Quero ver minha mãe com os meus olhos.

Deixo William e Natasha na piscina e vou para o château. Encontro Simone na recepção.

– Oi, Jess – ela fala com polidez, beirando a secura.

– Oi, Simone. Adam está no escritório?

O sorriso acanhado falha.

– Está. Quer falar com ele?

– Não é com ele que quero falar. Gostaria de falar com meu pai pelo Skype e ele me disse que podia fazer isso do escritório dele, onde a conexão é melhor.

– Ah. Venha comigo então.

Ela me leva para o fundo do saguão da entrada e bate na pesada porta de carvalho antes de abri-la. Adam está ao computador, martelando o teclado.

– Jess está aqui.

Simone fala como se anunciasse quem verifica se as crianças têm lêndeas na escola. Adam olha para nós.

– Posso aceitar sua oferta de tentar falar com meu pai pelo Skype aqui?

– Claro que sim, sem problema. Está tudo bem?

Olho para Simone. Ela entende a indireta e sai da sala.

– Tenho certeza de que estará tudo bem. Papai enviou mensagem perguntando se podíamos conversar e... bem, eu só quero me certificar de que mamãe está realmente bem.

Ele passa a mão no cabelo e começa a pegar papéis na mesa.

– Vou te dar a senha.

Adam pega uma folhinha de Post-it e rabisca a senha nela, levanta e dá para mim.

– Vou deixar você à vontade. Posso enviar esses e-mails em outra sala.

Ele pega o laptop e para quando ficamos ombro a ombro. Vira e alisa rapidamente meu braço. É um gesto de apoio, mas mesmo assim me deixa tensa e provoca um tipo estranho de desconforto.

– Obrigada.

– Dê lembranças minhas para sua mãe e seu pai, está bem? – ele acrescenta e sai da sala.

Antes de tudo degringolar, Adam se dava bem com meus pais, especialmente com papai. Tinham sempre assunto para conversar, era futebol, política ou como reformar uma máquina de lavar (que me lembre, era muita conversa sobre faça-você-mesmo).

Mamãe também gostava muito dele, mas antes da mancada dele no dia em que o neto dela nasceu e minha subsequente confissão de que as coisas andavam muito desgastadas entre nós. Depois disso, ele teve umas duas experiências de primeira mão da mulher-dragão que ela sabia ser.

Ligo meu iPad e espero que capte o wi-fi antes de digitar a senha. Olho em volta da sala enquanto espero conectar. É a única parte do prédio sem nenhuma decoração, apenas paredes brancas, mobília sem graça de escritório e cortinas feias na alta janela de pedra.

É um exemplo típico do sistema de arquivo de Adam, pilhas de papéis e lata de lixo abarrotada. Mas não diria que não existe uma ordem ali, apenas que baste para ele funcionar, com uma parede dominada por ganchos de chaves e um arquivo meio aberto com uma precária pilha de pastas bem usadas em cima.

Clico no ícone do Skype e, quando começa a rodopiar, meu olhar é atraído para o quadro de cortiça na minha frente, com várias fotos, do tipo que as pessoas nem lembram mais desde a invenção do Instagram.

As duas ou três da mãe dele devem ser as únicas que existem. A maior parte é de William, bebê, um pouco maior, e no seu primeiro dia na escola, parado na nossa porta da frente, com covinhas bem visíveis, sorrindo e exibindo dentes de leite perolados. Reconheço muitas como as fotos que enviava para Adam a cada seis meses mais ou menos, para ele não esquecer completamente da nossa existência.

Há também alguns selfies dele com William, um número surpreendente, considerando o pouco tempo que passaram juntos nos últimos dez anos. Em um deles parece que William tinha sete anos, e estão na fila do navio pirata das Alton Towers. Em outro selfie estão tomando sorvetes enormes numa pizzaria. E há outro tirado na praia Formby, William histérico enterrando Adam na areia.

Vendo aquela coleção de fotos daria para imaginar que eles sempre foram inseparáveis aqueles anos todos. Mas acontece que aquelas foram só umas poucas ocasiões, uma gota no oceano, todas um contraste nítido com os dias aos quais me acostumei, dias com dever de casa, exercícios ao piano, levando William para reunião de escoteiros e berrando as palavras “SAPATOS” e “DENTES!” quando tentamos sair de casa na hora todas as manhãs.

Mesmo assim as fotos são um certo consolo, uma lembrança valiosa de que, apesar de Adam ignorar a essência das minúcias da maternidade e paternidade, o potencial existe e está ali, quer ele entenda ou não.

Estendo a mão e toco na foto de William de uniforme, derrubo acidentalmente o alfinete e três fotos caem no chão. Pego as três e ponho de volta no mural, então avisto uma desbotada escondida atrás das outras.

É de Adam comigo, em Nova York.

A viagem foi uma semana depois dele se formar em Edimburgo, e vínhamos planejando havia muito tempo ficar com Steph – a filha mais nova da tia Julie –, que tinha conseguido um estágio de aprendiz como chef de cozinha em algum hotelzinho novo e charmoso do Upper East Side. O apartamento que ela dividia com um colega estagiário, um cara búlgaro chamado Boyan, era tão pequeno que a única maneira de entrar no banheiro era virando de lado e encolhendo a barriga.

Mas foram férias inesquecíveis. Pegamos um barco para Ellis Island, exploramos o Central Park, ficamos no topo do Empire State ao anoitecer, vendo a cidade se iluminando e ganhando vida. Na manhã em que aquela foto foi tirada tínhamos acordado cedo demais como dois bobos, ainda sob efeito dos fusos horários e desorientados pelo voo dois dias antes. Como eram dias antes da maternidade, só tínhamos de nos preocupar com nós mesmos, por isso passamos horas naquele quarto de hóspedes enquanto Steph estava no trabalho, embaixo das cobertas com o sol entrando pelas persianas, explorando cada centímetro um do outro.

Ele sempre disse que aquela era sua foto preferida de nós dois – um instantâneo pós-sexo dele, de mim e do nosso café da manhã gigantesco num lugarzinho gostoso no Meatpacking District. Disse que tinha tudo que sempre quis na vida naquele dia. Perguntei se estava se referindo a mim ou ao bacon sequinho e crocante.

– Alô?

A voz do papai desmancha meus pensamentos e eu o vejo na entrada do Willow Bank com aparência de quem precisava de uma boa noite de sono.