Aqui, Agora, Sempre

Catherine Isaac · Capítulo 4 de 85

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Aqui, Agora, Sempre

Capítulo 3

 

I niciamos, animados, nossa viagem de 1.300 km e 28 horas, cantando, desafinados, uma playlist que inclui de tudo, dos Beatles aos Avicii. Conversamos sobre como era a França quando eu era pequena, as praias de areia macia, os sorvetes de sonho, como mamãe me ensinou a jogar Blackjack muito bem, por francos e centimes.

William brinca um pouco com meu iPad, debruçado sobre a tela, até eu ficar preocupada achando que dessa forma vai ficar enrolado, e acabo arrancando dele. No lugar disso, ligo o audiobook Billionaire Boy de David Walliams e em pouco tempo estamos os dois rindo tanto que minhas bochechas chegam a doer. Então surge um enredo específico que envolve um personagem que namora uma menina que fotografa nua para revistas masculinas. Não estou certa se ele sabe o que é. Só sei que tenho uma sensação parecida com a que tive quando ele pediu para eu explicar de onde vinham os bebês no início do ano. Fui correndo comprar um livro que tratava desse assunto e de outros relacionados, sugeri que ele lesse antes de fazer mais perguntas. Que assim evitaríamos qualquer constrangimento. Por que eu ficaria constrangida?, perguntou ele inocentemente, e fui forçada a tentar parecer animada e alegre lendo frases como “e é isso que algumas pessoas chamam de ‘tocar uma punheta’”.

Quando chegamos à barca, William já está bem menos a fim de conversar. Fica pálido quando estacionamos o carro nas vagas da embarcação e subimos para perto da janela.

– Teremos uma boa visão daqui – observo animada.

– Eu vou vomitar.

E ele vomita sete vezes durante a viagem noturna de seis horas, aquela em que devíamos dormir, e desce da barca parecendo aquela menina de O exorcista. Paramos na primeira área de piquenique que encontramos em solo francês e esperamos a náusea dele passar, bebendo água e observando o fluxo de famílias inglesas tentando dirigir na mão errada em um trevo.

William dorme o resto da viagem, só acorda para fazer xixi, enquanto seguimos pela autoestrada. Fico sozinha com meus pensamentos até chegarmos à Dordogne, atravessada por florestas e campos, cortamos o interior, passamos rapidamente por dúzias de aldeias adormecidas, salpicadas de vasos com gerânios cor de fogo e casas de pedra creme com venezianas nas janelas.

Mesmo com a beleza da paisagem, não consigo parar de pensar em mamãe, assombrada pelos mesmos pensamentos que me deixaram tão angustiada que, pela primeira vez na minha vida, tive de tomar antidepressivos no início desse ano. Nunca me imaginei precisando do auxílio de drogas para me animar. Sempre me achei divertida. A primeira a botar um chapéu idiota no Natal, ou levantar e trucidar uma música no karaokê, ou entrar em um dos tiroteios de William com pistolas de água. O máximo que já havia precisado para me recuperar de um dia ruim foi um sorvete Almond Magnum, com uma saideira ocasional de Pinot Noir, enquanto elogios no trabalho enalteciam minha “energia e popularidade ilimitadas com os alunos”, e nunca tive de pagar ninguém para falar isso.

Mas desde que mamãe foi internada no Willow Bank, por melhor que eu ache o lugar, tem havido uma mudança em mim. Seis meses atrás fugiu do controle. Não que a maioria das pessoas perceba. Fiz uma boa encenação de ser a mesma velha Jess. Mas, por dentro, as coisas estão diferentes.

O que começou com um nível compreensível de preocupação adquiriu vida própria à medida que a deterioração da minha mãe acelerava. Depressão era a palavra errada para descrever. Tratava-se de uma angústia esmagadora, uma incapacidade de pensar em outra coisa senão em um futuro mais triste quanto mais a vida ficava difícil para minha pobre mãe.

Os comprimidos ajudaram, embora eu ainda não goste da ideia de tê-los tomado. E não mudaram o fato fundamental que provocou tudo aquilo: que minha mãe está em um asilo, perdendo lentamente seu elo com a pessoa que é. E ninguém pode fazer nada.