Aqui, Agora, Sempre
Capítulo 9
O melhor bolo que mamãe fez para mim foi o do meu aniversário de seis anos, e até hoje meu coração saltita toda vez que penso nele.
– Tem certeza de que vai ficar pronto a tempo? – eu perguntava quando ela terminava de rechear três camadas de bolo esponja Victoria com uma montanha de creme de manteiga claro e fofo.
Naquela época, nossa cozinha era pequena. Isso foi antes dos meus pais a ampliarem até a sala de jantar, com armários brancos imaculados, piso de cerâmica bege desenhado e um micro-ondas que não merecia a confiança de ninguém.
– Você não acredita muito em mim, não é? – Ela deu risada, me entregou a espátula para eu lamber; a melhor parte, obviamente, de todo aquele processo.
– Isso quer dizer que sim, vai ficar pronto? – perguntei.
Ela se abaixou e deu um beijo na minha cabeça.
– Jess, prometo que quando catorze meninas invadirem essa casa amanhã, o seu bolo estará pronto, mesmo se eu tiver de ficar acordada até a meia-noite.
Ela não se importaria se tivesse de ficar.
Ninguém precisava pedir para ela fazer esses bolos em todo aniversário da família, batizado ou casamento. Uma joaninha no meu aniversário de três anos, um bolo de noiva de quatro camadas para a minha prima Charlotte e outra obra-prima que tinha meu pai como o Super-Homem.
Fui para a sala de jantar e encontrei papai pendurando a decoração.
– Você veio supervisionar? – ele perguntou do alto de uma escada.
Ele tinha prendido bexigas azuis, verdes e brancas nos trilhos dos quadros junto com uma enorme faixa de Feliz Aniversário. Fitas coloridas caíam das estantes que dominavam três das quatro paredes.
Devia haver centenas de romances naquela sala, se nos déssemos ao trabalho de contar. Mamãe tinha uma seção reservada para seus livros de receitas de bolo, mas a maior parte das brochuras era de ficção. Crime era seu gênero favorito, tudo desde Ruth Rendell, até Assassinato no Expresso Oriente, que ela relia sempre.
– Estou muito animada! – exclamei outra vez.
– É, eu tive essa impressão – disse papai com um sorriso de orelha a orelha, descendo da escada. – Então refresque a minha memória... Qual é o presente que você quer mais do que tudo no mundo?
– Uma bicicleta – menti.
Ele sorriu meio confuso.
– É mesmo? Pensei que fosse outra coisa... Tem certeza de que é uma bicicleta?
Eu não sabia se devia dizer alguma coisa.
Tinha visto uma penteadeira de adulto, estilo princesa, na vitrine de uma loja de departamentos em Londres quando fomos visitar meu tio Alan no verão, e foi a primeira vez que desejei alguma coisa que não fosse brinquedo. Para mim era linda, com a forma de feijão, um espelho trabalhado em três partes e uma cortina de tapeçaria que ia até o chão, escondendo um labirinto de gavetas de madeira.
– É sim, adoraria ganhar uma bicicleta.
Senti meu rosto esquentar com o rubor.
O olhar dele ficou sério.
– Você sabe que não pode ganhar a penteadeira, não é?
Fiz que sim com a cabeça.
– Seria bobagem comprar uma coisa tão cara, não é, papai?
– Bobagem mesmo – ele concordou e voltou para as bexigas.
Na manhã seguinte abri a bicicleta e fiquei encantada com ela. E fiz questão de demonstrar isso, porque tinha assistido recentemente A fantástica fábrica de chocolate e não queria ser uma praga como Veruca Salt.
A manhã passou devagar demais, mamãe terminou de preparar os sanduíches e papai aprontou a música e as almofadas para o jogo de passa anel, antes de escapar para tomar a cerveja do almoço enquanto podia. Então vovó Jill chegou e me ajudou a vestir o vestido vermelho de festa, meia-calça branca e sapato de verniz preto.
– Para que servem os umbigos? – perguntei, quando vovó Jill me enfiava na entretela da gola do vestido.
Naquela época, eu andava lendo muito a Enciclopédia infantil do corpo humano e, apesar de conhecer muito bem o funcionamento do intestino grosso, não me lembrava de ter lido qualquer coisa que explicasse por que eu tinha um furo na barriga.
Vovó Jill ajeitou a meia-calça.
– Depois que Deus pôs as orelhas e escolheu seu cabelo, Ele encostou o dedo na sua barriga e disse, “Você está pronta”. E então a cegonha já podia levar você para a mamãe e para o papai que Ele havia escolhido.
Franzi o nariz.
– Isso não pode ser verdade.
– Claro que é. – A campainha tocou. – Nosso primeiro convidado!
Eu me ocupei tanto em me divertir que não notei logo que papai não tinha voltado para a festa. Ocupei-me rodando com a música em volta das cadeiras, abrindo presentes e... principalmente... adorando as exclamações de admiração quando mamãe levou o bolo.
Era espetacular: uma mansão branco-rosada de contos de fadas com uma treliça de rosas amarelas e torrezinhas com centenas e milhares delas.
Quando soprei as velinhas e as meninas em volta de mim aplaudiram, notei vovó Jill tocando no braço da mamãe.
– Talvez seja até melhor ele não estar aqui.
Mamãe fez que sim com a cabeça e parecia que ia chorar.
– Tem mais salsicha no espeto? – perguntou Sarah Hems.
Mamãe saiu do transe.
– Sim, tem bastante. E que tal fazermos mais uma brincadeira de festa?
Lembrei então que organizar as brincadeiras da festa não era atribuição da mamãe.
– Por que papai não está aqui? – perguntei.
– Ele vem mais tarde – mamãe disse vagamente.
– Ele esqueceu a festa?
Ela não respondeu.
– Será que ele achou melhor deixar as meninas cuidarem de tudo, como quando assistimos A noviça rebelde? – sugeri.
– Sim, deve ser isso.
Mas eu não acreditei que fosse isso. E senti uma onda de tristeza porque papai estava ausente no meu grande dia. Ele era esquecido às vezes, estava sempre chegando atrasado e mamãe ficava furiosa. Mas eu sabia que ele ia lamentar quando lembrasse de onde devia estar.
Tentei esquecer isso e aproveitar o resto da festa, mas não pude evitar a preocupação. Pelo que constava, ele podia ter sido atropelado por um ônibus. Essa ideia foi ficando mais provável à medida que os minutos passavam, especialmente porque tinha ouvido muitas vezes mamãe dizendo exatamente isso.
Os pais começaram a chegar para pegar as filhas, e eu cutuquei o braço da vovó Jill.
– Você acha que devemos ligar para a polícia para saber onde papai está?
– Ora, onde você pensa que ele está?
– Atropelado na rua pelo ônibus número 86.
Ela semicerrou os olhos como se estivesse realmente triste, mas irritada ao mesmo tempo.
– Boa tarde, pessoal!
Virei rápido a cabeça para os pais amontoados à porta e lá, abrindo caminho, estava meu pai, parecendo bem contente, com o cabelo eriçado na frente como um espanador. Corri para abraçá-lo e recebi um bafo avassalador do cheiro azedo que sempre impregnava o casaco dele depois que saía do bar.
– Certo, menina aniversariante. Você tem de ir para a sala de estar um minu... Tenho uma surpresa para você.
A voz dele estava arrastada e alta, olhei para mamãe e imaginei que devia estar uma fera com ele, mas dessa vez ela só pareceu surpresa e um pouco nervosa, igual a todos os outros.
– Aqui, amigo, pode me dar uma ajuda? – disse papai, soando como o machão que não era, segurando e arrastando o pai de Vicky Jones pelo braço, indo trôpego até a porta. – Vá logo, chispa daqui, Jess!
Vovó Jill, muito tensa, levou-me para a sala e fechou a porta. Um minuto e muito barulho depois, alguém pôs a mão na maçaneta, abriu a porta e era papai, que gritou.
– Surpresa!
Lá, na minha frente, estava a penteadeira de princesa, vinda de Londres.
O queixo de Sarah Hem caiu.
– Que sorte a sua!
Eu me adiantei para tocar na penteadeira e senti que havia um passarinho esvoaçando no meu peito. “Eu sei”, sussurrei e prometi para mim mesma que rezaria para Deus aquela noite, para agradecer por Ele ter enviado a minha cegonha para os melhores pais do mundo. E talvez também para pedir que Ele fizesse papai parar de preocupar todos nós.