Aqui, Agora, Sempre
Capítulo 83
12 meses depois
verão de 2017
A dam liga o motor da van Volkswagen de camping e, quando funciona, William e eu comemoramos. Nunca achei graça naquilo antes, mas depois de comprar aquela van no ano anterior e de passar os três meses seguintes acampando nela nos fins de semana com William, Adam está enfeitiçado. Nunca o vi tão feliz como quando senta naquele banco do motorista. Parece que está num Lamborghini.
Por fora é verde e branca, por dentro é retrô e tem bancos de couro, armários novos e cortinas de guingão amarradas com fitas amarelas. Nós batizamos o carro de Lisa, nome da mãe de Adam, e a foto preferida dele com ela diante da van, muitos anos atrás, está pregada no para-sol da frente.
Claro que o problema de dirigir um veículo construído em 1962 é que não é muito compatível com um terreno montanhoso, especialmente se você espera andar mais rápido do que um cortador de grama médio. Por isso nossa viagem de Manchester até os campos franceses levou mais tempo do que imaginávamos – e isso é dizer muito, já que sou pessimista.
Mas depois de um tempo nos aproximamos do destino, ainda que meu coração tenha quase parado toda vez que tivemos de negociar algumas daquelas traiçoeiras estradas nas montanhas.
– Por que está tão nervosa, mamãe? – pergunta William.
– Ah, não sei... tem algo a ver com o penhasco lá embaixo, será?
– Aquilo é uma colina – zomba Adam, e engata a segunda na van.
– Se está dizendo... – respondo, e me alivia ver que a estrada está mais larga quando paramos no lugar combinado para encontrar Enzo, o guia que nos levou na aventura pelas cachoeiras no verão anterior.
Desço do carro e olho para o grande vale. Lembro-me da lição singular, mas monumental, que aprendi naquele ano.
O futuro de todos é incerto.
A maioria de nós não pensa que poderíamos ser atropelados por um ônibus amanhã. Seguimos a vida achando que tudo estará sempre lá.
Eu, por outro lado, não conto com nada. Nada mesmo. Saboreio cada beijo do meu filho, cada mordida que dou num chocolate, cada folha que cai de uma árvore no outono e cada explosão de riso com meus amigos.
Tenho uma boa vida.
Uma vida fantástica.
Não ando mais apavorada com o futuro porque isso seria desperdiçar meu tempo limitado. Vivo minha vida rica e maravilhosa com a coragem que só adquiri recentemente. Às vezes precisamos da escuridão para ver como brilhamos.
Não quero dizer que esse último ano tenha sido fácil, mas nessa semana, com o aniversário da morte da minha mãe se aproximando, a sensação pode estar ampliada. Voltar à França de férias ajudou a todos nós, inclusive papai, que foi de avião ao nosso encontro alguns dias atrás. Mesmo assim, a dor da perda está gravada para sempre em seu coração partido. Ele sente falta dela desesperadamente. Nós todos sentimos.
Tenho saudade do sorriso dela. Tenho saudade da sua sabedoria. Sinto falta de seus bolos. E sinto saudade do seu humor leve, que nunca falhava por pior que fosse a peça que a vida pregasse.
Não há dúvida de que aqueles doze meses foram difíceis.
E às vezes meus instintos me traem. Toda vez que deixo um copo cair, ou fico impaciente demais, ou esqueço o nome do nosso vizinho, o velho e conhecido pânico volta.
Cheguei à conclusão de que viver de qualquer outro jeito seria impossível, já que vi o que vi e sei o que sei. Mas me recuso a deixar que o medo me domine. Se tem uma coisa que minha mãe me ensinou é a cair lutando. Não vou desperdiçar tempo com tristeza.
Também ajuda termos algumas coisas boas. A mudança, para começo de conversa. Depois que acertaram a venda do château e Adam voltou a viver na Inglaterra em tempo integral, ficou claro que nós três amontoados numa casinha mínima não ia funcionar, especialmente agora que temos um filho que está quase da minha altura e que parece ocupar o sofá inteiro cada vez que se joga nele.
Então procuramos trocar por uma coisa maior. Vou ser sincera. Foi muito divertido passar fins de semana metendo o nariz nas casas dos outros, e eu quase lamentei quando finalmente encontramos um lugar.
Agora moramos numa casa de tijolos vermelhos com quatro quartos, em Didsbury, para onde nos mudamos há três meses. E estou adorando. Adoro as janelas altas que deixam a luz entrar em todos os cômodos, a velha e grande escada que parece que está lá desde o início dos tempos, e que cada volta e nó da natureza estejam gravados nos desenhos das pesadas portas de pinheiro. E William está eufórico com seu quarto novo, que é um templo do Match of the Day – uma zona em tecnicolor com fotos dos jogadores e das bolas em todas as superfícies disponíveis.
Há também a proximidade do casamento, e o formato do evento tem sido motivo de discussão, digamos assim. Eu estive pensando em alguma coisa muito discreta, um hotel ou pub chique com pouca gente. Adam pensa em algo do tipo abertura dos Jogos Olímpicos no Rio.
Chegamos a um consenso e estamos planejando um casamento no Natal, com cerca de cinquenta amigos e familiares. Não tão pequeno, mas com comemoração declarada para berrar dos telhados que encontramos um ao outro de novo.
Fazia sentido por tudo, já que gastar mais do que estamos gastando em um casamento estava fora de questão. Não estamos quebrados, mas o dinheiro da venda do château está sendo quase todo injetado no novo empreendimento de Adam. Ele está se estabelecendo como empreiteiro e encontrou uma casa bonita, só que caindo aos pedaços, que foi usada pela última vez como lar de idosos. Não é tão grande como o Château de Roussignol, mas tem os mesmos problemas que tinha o château quando foi comprado, talvez mais ainda. Não há nada como umas goteiras e madeira podre para animar meu futuro marido.
O plano dele é fazer a reforma, transformá-la em um condomínio de apartamentos luxuosos e então vender ou alugar, ele mesmo, antes de procurar o próximo projeto. Por isso não tivemos muito tempo de folga até agora, e passamos as três últimas semanas explorando a França, acabando de volta aqui na Dordogne. Passamos a última noite no Château de Roussignol como convidados dos novos donos.
É uma delícia voltar e sentir o baque nostálgico de todas as vistas e sons do ano passado. As trepadeiras em flor invadindo os muros, os rouxinóis e as borboletas, o ar perfumado e a brisa quente.
Seguimos a mesma trilha da cachoeira para onde Enzo nos levou naquele ano e lembro-me da maravilha que é tudo aquilo, da grama molhada com seu cheiro doce de um lado e um colar de samambaias na lateral de pedra.
Lembro também que a trilha era ridiculamente assustadora.
Mas não pense que eu ia ver William mergulhar nos poços turquesa e ser carregado de costas pela correnteza do rio. No início fui indo obrigada, tropeçando ressabiada nas margens atrás deles, gritando toda vez que escorregava.
Mas, apesar de arrepiada, não sinto mais frio. Estou ocupada demais brincando com meu filho, rindo com meu noivo, sentindo a água gelada no meu rosto quente do sol que queima assim que encosta na pele.
– Tudo bem, você estava certo – digo para Adam. – Isso é muito bom.
Ele olha para mim.
– Muito bom? Isso é ótimo. Você só precisa se entregar.
Já vou responder, mas William chega perto de mim tão rápido que quase cai de cara na água.
– Mamãe, a próxima é a grande! Você vai pular? Vamos lá!
– Sua mãe não precisa provar absolutamente nada – Adam diz para ele e vira para mim. – Nada mesmo.
Com passos largos, vou até a ponta da pedra e olho lá para baixo, a água correndo nos meus pés, a adrenalina acelerando na boca do estômago. Cerro os dentes e respiro fundo.
– Podemos pular juntos.
William segura a minha mão.
Adam agarra minha outra mão, levanto o queixo até focalizar o azul brilhante do céu.
Tenho William de um lado. Tenho Adam do outro. Só precisamos pular. Quando eles começam a contagem regressiva para a hora de pular na água lá embaixo, com seus dedos quentes espremendo os meus, lembro-me de outra coisa que aprendi no último ano.
Quando estamos cercados de amor, não temos nada a temer.